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O coração leva a pior: estressadas, as pessoas passam a comer mais gordura

Lúcia Helena

19/09/2019 04h08

Crédito: iStock

O que o estresse faz de maldade com o coração não tem precedentes. O excesso de cortisol, entre outras substâncias que esse estado derrama na circulação,  é um bullying constante aos vasos sanguíneos, que se acuam, ficando contraídos. E, quando esse aperto acontece, já sabe: a pressão vai parar lá no alto. Mas muita coisa pode piorar a vida de um hipertenso, além do próprio nervosismo. A alimentação desequilibrada é uma delas. E aí você vai apostar, como eu, que tascar sal na comida seria o único problema, certo? Não é bem assim.

De fato, o excesso de sódio na dieta é de lascar. Mas, esmiuçando o prato de pacientes com pressão alta, pesquisadores do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul notaram um outro ingrediente que pesa demais — ou até mais — quando os indivíduos estão estressados. Não, não pense no açúcar em exagero, nem sequer nos ultraprocessados — os quais, concordo, merecem mesmo ficar na berlinda. Durante períodos de estresse, o que as pessoas fazem é comer mais gordura. Dá-lhes petiscos com cara de botequim, frituras no prato principal, óleo a ponto de acabar com o barato da mais saudável das saladas, uma montanha de manteiga ou margarina no pão, receitas que capricham em cremes e natas… 

Parece que é desse jeito, esbaldando-se em banha e companhia, que elas enfrentam suas crises. Nem os profissionais de saúde tinham tanta clareza disso até o momento. Coordenadora de Nutrição do Ambulatório de Hipertensão do instituto gaúcho, Aline Lopes Dalmazo vinha reparando que o estresse mudava o padrão alimentar dos pacientes. "Muitos deles, além de sedentários, já são indivíduos com sobrepeso e obesidade. Será que daria simplesmente para eu me contentar em dizer que, estressados, eles tendem a fazer escolhas alimentares erradas? Acho que não", me disse a nutricionista. 

Ela e seus colegas decidiram ver a fundo o que estava se passando. Ora, sem saber onde o bicho estaria pegando, fariam mais uma campanha genérica, daquelas que mal tocam no ponto. Uma surpresa veio logo no primeiro momento da investigação: "Procurei o que havia de pesquisa sobre estresse e consumo alimentar e, para meu espanto, achei muito pouco. Detalhe: em geral, eram trabalhos antigos", contou a nutricionista. Ou seja, eu, ela, você, todo mundo até tem a intuição de que as pessoas não comem direito quando estão estressadas, mas pouco se sabe sobre o que escolhem colocar no prato no meio do seu turbilhão emocional.

O ambulatório onde Aline atua é um lugar diferente desde seu surgimento, em 1996. Todo paciente do SUS que chega ali, geralmente encaminhado com uma pressão arterial na estratosfera, é acompanhado durante um ano inteiro passando, a cada dois meses, por uma consulta que, na verdade, é uma maratona: cada indivíduo é atendido por um enfermeiro,  um médico, um nutricionista, um psicólogo, um fisioterapeuta… O propósito é mudar hábitos e tratar a hipertensão de um modo não farmacológico. Claro, às vezes os remédios para domá-la são indispensáveis e, aí, o trabalho do grupo é também no sentido de ajudar na adesão ao tratamento, para que o paciente não deixe de engoli-los. Infelizmente, o abandono da medicação (e dos bons hábitos) é comum, já que a pressão nos píncaros não dói,  nem nada. Age silenciosamente no corpo.

A equipe avaliou o número redondo de 100 pacientes com idade média de 55 anos.  Todos  com a pressão estourando, acima de 18 por 9.  Os psicólogos do ambulatório aplicaram um teste que já é considerado um clássico nos meios de saúde, avaliando tanto sintomas como ansiedade e angústia até sinais físicos, como dores pelo corpo. Resultado: só 14 pessoas pareciam livres do estresse. As outras 86… Pior: 57 participantes estavam em uma faixa de estresse considerada resistente, quando o organismo continua reagindo nas 24 horas do dia como se estivesse diante de uma ameaça, mesmo que ao seu redor esteja tudo mais ou menos em ordem. "Essa gente está a um pulinho do que chamamos de pré-exaustão", define Aline. E então veio a pergunta: mas o que exatamente essas pessoas estariam comendo?

"Analisamos o que estavam ingerindo, dividindo os alimentos em ricos em carboidratos ou em gorduras ou, ainda, em proteínas, sem contar alimentos in natura e ultraprocessados", explica Aline Dalmazo. Estranhei, confesso, a divisão, porque alguns alimentos ultraprocessados também são gordurosos. Então entendi que, no estudo, os cientistas focaram mais em temperos prontos e outros itens ricos em sódio nas gôndolas dos ultraprocessados. Já por alimentação rica em gordura, os pesquisadores entenderam aquele óleo, manteiga e creme de leite, entre outros, que usamos nas receitas. 

"No final,  notamos uma forte associação entre os sintomas psicológicos de estresse e o consumo maior desse tipo comida gordurosa, mais do que de carboidratos ou até mesmo de ultraprocessados", resume Aline. Atenção: não significa que esse tipo de comida não é consumida em excesso pelos hipertensos. O que o resultado aponta —  e ele acaba de ser publicado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia — é que as pessoas aumentam ainda mais as porções de gordura quando se sentem estressadas.

"É claro que a gente precisa de mais estudos para entender por que isso acontece", diz a nutricionista. "Mas a nossa hipótese é de que as pessoas estressadas usam mais gordura na panela ou no prato porque esse ingrediente aumenta a palatabilidade das preparações. Ou seja, é mais fácil sentir o sabor da comida se ela está cheia de gordura e, talvez, sob estresse, os pacientes busquem sensações mais intensas à mesa, quase como um mecanismo de compensação", especula.

Nem preciso dizer no que essa saída acarreta. Os pacientes ganham quilos. Sem contar que certas gorduras colaboram para a formação de placas, as quais deixam a passagem do sangue ainda mais estreita. Ele então pressiona de vez as paredes do vasos ao transitar.

Tem mais: a comida muito gordurosa, por si só, eleva a quantidade de substâncias inflamatórias no organismo, que por sua vez  irão agredir as paredes das artérias. "É uma cascata de reações que culmina na hipertensão. E tudo junto coloca a saúde cardiovascular em perigo", afirma Aline.

Ela e seus colegas já estão cuidando elaborar estratégias que vão desde criar receitas que maneiram nos óleos até aconselhar os pacientes para que, ao menos, usem uma gordura mais saudável, como o azeite de oliva. Talvez valha a pena falar uma pitadinha a menos de sal e aumentar as porções de conversa sobre a comilança gordurosa. Agora sabemos, o  assunto gordura precisa ser discutido à mesa de quem vive nervoso e com a pressão nas alturas.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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