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Parece infarto, mas não é: o que acontece na síndrome do coração partido

Lúcia Helena

15/10/2019 04h00

Crédito: Istock

O peito grita de dor, lancinante  a ponto de tirar o ar. O suor encharca o corpo, enquanto o fôlego desaparece.  Se duvidar, ao ter o treco, a pessoa cai estatelada, desmaia quase no mesmo instante. Se alguém levá-la correndo para o hospital, os médicos farão um merecido alvoroço logo na porta de entrada. Na sequência, o eletro vai acusar categórico: é um infarto. Absolutamente nada no sobe-e-desce dos seus gráficos apontará para algo diferente. O ecocardiograma, então, baterá o martelo ao mostrar que o músculo cardíaco não está se contraindo direito: é um infarto, sem dúvida alguma, é o que esse exame informará à equipe de emergência. 

Tudo indicando a mesma direção, é disparada de vez a corrida contra o relógio para fazer o cateterismo. Bafafá. Ora, é um infarto, certo? A ordem é desobstruir "para ontem" a coronária dando problemas, confere? Mas, em pleno procedimento, vem a surpresa: as artérias do coração se encontram completamente livres e desimpedidas.  O que causou tudo aquilo? Ora, ora… Um coração partido. Leu certo, o nome é até oficial. E agora brasileiros enxergam pela primeira vez no mundo o que acontece no exato momento em que o peito berra a dor de uma emoção.

Professor da Universidade Federal Fluminense e diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro — não existe aquela história de que na casa do ferreiro o espeto é de pau? —, o cardiologista Claudio Tinoco Mesquita viu o perrengue acontecer com duas pessoas em sua família. Primeiro, foi a tia da parte materna. Porque, ah, sim, pode existir um componente genético nessa história. Depois foi a vez de sua própria mãe dar o susto, dona Célia, de 80 anos.  O irmão, também cardiologista, ligou falando que ela estava infartando. Mas, no hospital, quando introduziram o catéter para viajar por suas coronárias — e eventualmente derrubar qualquer obstáculo à passagem do sangue —, viram que os vasos estavam normais. 

Já com a calmaria reestabelecida, a mãe contou aos doutores: tinha chegado em casa e visto que as prateleiras de uma cristaleira antiga despencaram do nada. No chão, aos cacos, a senhora encontrou os cristais que ganhara de casamento, mais de seis décadas atrás. Sessenta anos de ótimas lembranças estilhaçados — foi o que, na mesma hora, sentiu no peito. E aquilo doeu, ao pé da letra. "Talvez a proximidade com esses casos tenha despertado o meu interesse em entender o problema", me disse Claudio Tinoco. Recentemente, o artigo que assina com colegas do Rio de Janeiro saiu  no prestigiado Journal of Nuclear Cardiology. 

O que ele e sua equipe fizeram foi injetar uma substância radioativa em uma paciente de 48 anos no exato instante em que ela começou com a crise. Desse modo, foi feita uma cintilografia, exame da Medicina Nuclear capaz de mostrar, em tempo real, a situação de todos os vasos dentro do coração. "Durante muitos anos, quando a pessoa aparentemente infartava e, depois, os médicos não encontravam um coágulo obstruindo o coração, eles atribuíam o fenômeno a um forte espasmo nas coronárias", conta o professor Claudio Tinoco. "Por alguma situação de nervosismo extremo ou algo assim, elas teriam se apertado temporariamente, a ponto de fecharem a passagem para o sangue. Mas agora a gente demonstra que não é nada disso", diz ele. 

A cintilografia revelou que são os minúsculos vasos espalhados por todo o músculo cardíaco — e não as espalhafatosas coronárias — que deixam de receber uma boa quantidade de sangue na hora agá. E vou te dizer: o coração é um músculo que chora a sua dor, a angina, se algum pedacinho dele deixa de ter uma circulação adequada. Imagine o rebu doloroso quando todos os seus vasinhos deixam a desejar nesse serviço de entrega de sangue. Isso pode durar segundos, mas existem pessoas que sentem angina por dias seguidos até uma semana.

No trabalho brasileiro, os médicos ainda fizeram outro exame, o de ressonância magnética, após a crise passar. "Injetamos um contraste que, ao chegar no peito, nunca é captado por aquelas áreas de músculo que morreram no infarto", descreve o cardiologista. "Claro, não foi o que aconteceu: a substância impregnou todo o coração da paciente estudada, mostrando que não havia ali qualquer lesão". Ou seja, era mesmo mais um episódio de síndrome do coração partido.

Foi ainda nos anos 1990 que médicos japoneses descreveram a doença, dando atenção especial a esses casos em que o que parecia infarto era outra coisa qualquer. Deram o nome de cardiomiopatia de takotsubo — denominação que também está valendo. O takotsubo, em bom japonês, é um vaso de fundo arredondado e boca estreita que os orientais lançam no mar. O formato lembraria o do coração.  E mais: o  takotsubo é uma cilada para pegar polvos. Para os cientistas, em sua analogia, assim como o luto seria uma cilada para o peito.

Sim, os primeiros casos eram associados ao luto e à tristeza muito forte. Tanto que, poucos anos depois dos japoneses, pesquisadores americanos que descreveram a mesma doença preferiram falar em broken heart, o tal coração partido. Mas, aí é que está, depois a comunidade científica observou que ele não se parte só de tristeza… 

"É comum o fator desencadeante ser uma notícia ruim", nota o professor Claudio Tinoco. "No entanto, tem gente que apresenta a síndrome depois de boas surpresas, como ganhar na loteria. Já vi paciente que sofreu todos os sintomas do coração partido ao saber que o filho tinha passado no vestibular", conta. Existem, ainda, episódios registrados no pós-operatório de qualquer cirurgia e quem apresenta o quadro após um exercício mais intenso. A realidade é que, em um terço dos casos, o paciente não relata ao médico nada que tenha lhe acontecido de muito diferente momentos antes do falso infarto.

O que a Medicina sabe é que sempre existem hormônios do estresse por trás, despejados de maneira extremamente abundante, em um pico absurdo, de uma hora para outra. Substâncias como a adrenalina, que contraem os vasos do corpo —  e os do coração, no caso, se ressentiriam demais. Há uma tendência a esse tipo de reação no peito de alguns sujeitos. Daí que o coração que se partiu uma vez corre um risco maior de  se partir de novo.

Estudos sugerem que existiriam quadros psicológicos como gatilho — a tendência à depressão, por exemplo. Também associam o coração partido às crises de pânico. O fato é que ele é nove vezes — nove! — mais comum em mulheres. "Alguns atribuem essa diferença a questões hormonais, até porque essa síndrome é mais frequente após a menopausa. O mesmo desequilíbrio hormonal que provoca os famosos fogachos — as ondas de calor que algumas pacientes sentem por alterações temporárias na circulação do corpo — poderia afetar os vasos do coração", explica o professor Tinoco.

Uma coisa é certa: na crise, não vale esperar para ver no que dá. Primeiro, sempre pode ser um infarto pra valer. Segundo, apesar de acontecer em uma minoria de 5% das vítimas, o coração pode morrer de tão partido, ou melhor, por alterações em seu ritmo durante a crise, se surge uma arritmia muito intensa no sofredor. Há ainda casos em que o problema tem sequelas e o músculo cardíaco deixa de se contrair direito por até um ano. De novo, acontece em uma minoria, mas…

Não existe, porém, uma maneira de prevenir o enrosco. Diferentemente do infarto, baixar o colesterol ou controlar a pressão não fazem a menor diferença.  "Talvez medir as palavras", diz o professor Tinoco. Ele não brinca: há relatos de pacientes que sentiram o peito doer após receber o diagnóstico de uma doença grave de um modo um tanto direto e reto por parte do médico. Mas, enfim, na prática, como evitar que um coração se emocione? Ele bate forte na mesma medida em que corre o risco de se partir. Desde sempre.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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