Topo
Blog da Lúcia Helena

Blog da Lúcia Helena

Categorias

Histórico

Leve suas banhas para a cama: sua barriga precisa de uma boa noite de sono

Lúcia Helena

17/10/2019 04h00

Crédito: Istock

Se você é aquele tipo que leva o celular para o quarto ou que liga a tevê afundando-se no travesseiro e deixa a luz das telas boicotar a escuridão ou, ainda, se você não resiste a assistir a mais um episódio daquela série sensacional mesmo com as pálpebras pesando ou, pior, se você troca os carneirinhos saltando em nuvens por figuras do noticiário para chamar o sono, saiba: seus pneus acordam como se tivessem dormido em cima do braço e você não vai gostar nadinha de conviver com eles quando estão cheios não só de gordura, mas de má vontade. 

Sim, há uma certa má vontade na pança que não dormiu bem. Os cientistas percebem que ela faz uma operação-tartaruga , esvaziando-se de gordura em câmara lenta, como se estivesse de birra, enquanto você corre acelerado na academia. Decididamente, depois de dormirem mal, barriga e malhador não estão no mesmo ritmo.

Fique esperto: não tem personal que faça um abdômen virar tanquinho quando ele pede cama. Aliás, ao encarar o espelho, pare de enxergar como prova cabal da insônia aquele par de olheiras fundas. Abaixe o olhar e observe se a cintura não está larga. Se estiver, acredite, em parte é por por cansaço. 

Os adipócitos, nossas células de gordura, se tornam resistentes à insulina quando dormimos menos do que o ideal e, sem receber eles próprios a energia que esse hormônio do pâncreas permitiria entrar,  trabalham devagar e quase parando — o que já foi comprovado. Não é preciso muito serão para que cheguem a esse ponto. Basta você lhes roubar, noite após noite, alguns momentos de sono — e, neste mundo 24 horas, qualquer um cai na tentação de achar que o tempo entre os lençóis é um tempo perdido.

Precisamente: "dormir menos de 6 horas por dia algumas vezes por semana, já aumenta demais a probabilidade de a barriga crescer", avisa a endocrinologista Eve Van Cauter, professora da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, que estuda o assunto há mais de duas décadas. Ela sabe disso medindo uma série de hormônios no sangue. A resistência à insulina chega a aumentar 30% quando se tem esse mau hábito, tão comum que as pessoas passaram a achar normal brigar com o travesseiro, como se essa guerra contra Morfeu fosse em defesa dos únicos instantes de lazer do dia. Tudo torto, não vê?

"E é muito simplista a ideia de que a pessoa que não dorme direito engorda porque acaba beliscando na madrugada", contesta a estudiosa. "Essa pode ser a menor parte do problema. O maior pedaço é mesmo a bioquímica do organismo toda desregulada, atrapalhando os mecanismos da saciedade. Na verdade, quem não dorme bem come mais em qualquer hora do dia", nos assegura.

Se você faz o gênero coruja e acha que come pouco mesmo passando madrugadas de olhos arregalados, desdenhando do que acabou de ler sobre o apetite dos insones, a professora rebate: "Por lógica, provavelmente comeria menos ainda  se respeitasse o próprio sono, comparando aqui você com você mesmo", diz ela.

Foi há exatos cinco anos, em um congresso internacional, que vi dois mapas dos Estados Unidos, lado a lado, que a professora Eve projetou em um telão. No da esquerda, o azul clarinho coloria os territórios em que a população americana dormia mais horas por noite, em média. E o tom ia escurecendo, tingindo os estados, até alcançar o marinho nos lugares onde as pessoas dormiam menos. Já o mapa da direita… Bem, esse parecia igualzinho ao anterior.

Os mesmos locais que apareciam mais azulados em um se encontravam mais azulados no outro. Só que detalhe: no segundo, a cor indicava a prevalência de obesidade nos estados americanos. E foi desse jeito tão visual que a endocrinologista demonstrou: "Onde há mais casos de gente acima do peso também é onde há mais casos de gente que dorme pouco." Coincidência? 

Recentemente, voltei a acompanhar os seus achados, apresentados no World Sleep Congress, que aconteceu há três semanas, no Canadá. São tão impressionantes que eu diria: aproveite e compre um pijama quando for se presentear com um novo par de tênis. Nos anos 1960, conta a professora, os americanos dormiam cerca de 8,5 horas por noite. Mas hoje essa média despencou para 6,8 horas de  sono. Ao mesmo tempo, a obesidade triplicou nesse período.

Até aí, em ciência, a gente precisa tomar cuidado com estudos que fazem associações . Eles são ótimos para deixar pulgas atrás das orelhas, mas às vezes misturam alhos e bugalhos. É aquela história: se eu estiver comendo uma maçã e der uma topada não significará que a fruta causaria fratura no dedão do pé. Associações muitas vezes são questão da sorte ou do azar de duas coisas acontecendo ao mesmíssimo tempo. Mas, para a professora Eve, o elo entre sono e gordura corporal não é acaso.

Em um de seus trabalhos, a cientista recrutou sete voluntários. Durante quatro dias, eles dormiram por oito horas e meia em seu laboratório. Depois, em outros quatro dias, mesmo que estivessem despencando de cansaço, ninguém os deixava pegar no sono. E quando finalmente tinham sossego e dormiam em paz, eram despertados quatro horas e meia depois. Eu, no lugar deles, acordaria um bagaço. Mas, segundo Eve Van Cauter, minha barriga é que despertaria um caco.

Bastaram quatro dias dormindo pouco para que os adipócitos no abdômen dos voluntários começassem a resistir à insulina, hormônio secretado pelo pâncreas que é fundamental para regular o nosso consumo de energia. Se a insulina fosse bem recebida pelas células de gordura, ela as induziria a produzir outra substância, a leptina, que é o hormônio da saciedade. "Aí você compreende por que dormir pouco ainda faz a gente sentir mais fome ao longo do dia."

Na raiz de tudo, porém, está outra substância, a melatonina, produzida pela pequenina glândula pineal no meio da massa cinzenta. Quando a noite cai, estruturas em nossos olhos captam a escuridão e a falta de luminosidade  é o incentivo para a melatonina entrar em ação. Mas não vale estar escuro apenas lá fora. É preciso trazer a noite para dentro de casa, desligando todas as fontes luminosas no momento de dormir e… óbvio, dormir. Nenhum cientista questiona que a falta de sono corta proporcionalmente a liberação da melatonina e esse déficit , por sua vez, vai provocar a resistência à insulina que então vai provocar a fome…. Pesadelo.

Em outro estudo, este realizado na Universidade de São Paulo — com ratinhos, é fato —,  os animais seguiram uma dieta cheia de calorias durante um mês. Nos primeiros 15 dias, descansavam à vontade. Mas, na segunda quinzena, metade deles passava a noite em ambientes cheios de lâmpadas e ruídos — ah, sim, bom eu frisar que o barulho na madrugada, mesmo que a pessoa não tenha consciência, também atrapalha a produção da melatonina ao entrecortar o repouso. 

Na experiência, todos os animais engordaram, com a mesma ração calórica servida em porção idêntica. No entanto, os ratos insones ganharam ainda mais peso. Trabalhos assim — e há uns tantos pelo mundo — querem mostrar que a privação do sono é engordativa por si só. Comendo a mesma comida do vizinho, tende a engordar mais quem dorme menos do que deveria. "E a privação de sono constante, ainda que de poucas horas diariamente, também pode desencadear o diabetes tipo 2, por causa da resistência à insulina", lembra a professora Eve Von Cauter.

Observa-se uma proliferação maior de adipócitos onde, onde? Acertou: na barriga! E tem mais. Se você dorme pouco, as concentrações de hormônio do crescimento e testosterona  caem. Pode ser uma queda ligeira, mas já é o suficiente para deixar a musculatura, digamos, mais sonolenta. Aí os músculos — que seriam uma torradeira de calorias por natureza — já não conseguem consumir tanta gordura como forma obtenção de energia. Ou seja, você malha, malha e… derrete menos banha do que se o mesmo esforço fosse após uma noite bem dormida."Sem dormir bem, brinco que a barriga cresce até com salada", diz a professora Eve. Durma com uma brincadeira dessas! 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{user.alternativeText}}
Avaliar:

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog da Lúcia Helena