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Não é, nem nunca foi normal se contorcer de cólica ao menstruar

Lúcia Helena

24/10/2019 04h00

Crédito: iStock

Como assim, doutor?! Então, era tudo desculpa esfarrapada para não fazer aula Educação Física, implorar por bolsa de água quente, deixar de sair com o namorado, chegar de cara fechada no trabalho e o dia não render patavinas?! Quase saltei assim, durante uma aula, ao ouvir: "ter dor na menstruação nunca é uma coisa normal", da boca do ginecologista Eduardo Schor, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  

A sensação que fica é que paguei com sangue pelos meus pecados em prestações mensais nada suaves e só a lembrança dolorosa me deu vontade de disparar algo como "doutor, o senhor não tem útero para saber…".  Mas o bom senso segurou a minha língua afiada — cólica no ventre dos outros é refresco, injuriada, quase deixei escapar— porque, afinal, estava diante de um dos maiores entendedores de um problema sobre o qual se fala, mas se fala tarde demais: a endometriose. E pode apostar que ela é que dói.

Um estudo que está saindo do forno na Unifesp diz que, em média, a moça leva 61 meses para descobrir a doença, ou seja, uns cinco anos. E vou abrir uma intimidade: ô, moça de sorte essa aí, porque eu mesma, bancando a sabichona da saúde, só fui descobrir que tinha endometriose (e resolver) quando já beirava os 50. "Muito raro", me diz o médico, "a dor forte no período da menstruação ser causada por outra coisa qualquer." 

Vamos ser honestos, ninguém derrama sangue menstrual sem um pinguinho de nada de sofrimento.  Para expulsar as células que se descamam do seu interior, fazer a faxina e ficar pronto para outra— ops, outro ciclo —, o útero não encontra jeito a não ser se contrair inteiro. Ora, contração não é exatamente uma experiência indolor. Mas muita atenção, meninas: "A cólica menstrual fisiológica deve ser bem fraca e passar facilmente quando se engole um antiespasmódico qualquer, sem impedir que a mulher toque a sua vida de boa", descreve Eduardo Schor, que, aliás,  é o presidente eleito da Sociedade Brasileira de Endometriose.

No entanto, na maior parte das vezes, nenhuma mulher estranha quando escuta outra falar: "Nossa, estou morrendo de cólica!". Ouvimos isso desde sempre — tão "desde sempre" que sofrer parece fazer parte da natureza do corpo feminino. "Nós, médicos, também precisamos fazer um mea culpa", admite Eduardo Schor. "Frequentemente, a paciente chega reclamando que sente cólicas intensas e não damos muita bola. É um sinal totalmente neglicenciado. Minha batalha na universidade ou onde for é para mudar isso."

O problema de não se levantar a lebre de que poderia ser — e provavelmente é — uma endometriose é que se trata de um mal progressivo. De ciclo menstrual em ciclo menstrual, tudo piora. O risco de atrapalhar a fertilidade aumenta, a possibilidade de a única saída ser cirúrgica, idem. Inclusive a dor que, se começou forte lá pelo final da adolescência, terá tudo para se tornar incapacitante quando essa mulher chegar aos 30, aos 40… É quando ela falta no trabalho ou em qualquer outro compromisso por não aguentar.

Endometriose, bem entendido, não faz a menstruação antecipar nem atrasar, ser mais curta ou mais longa. Ela não desregula o ciclo. O que marca a doença, portanto, não é o calendário furado, mas sempre a dor in-su-por-tá-vel — na verdade, nós, nem sei como, tentamos suportá-la, não é mesmo?  Essa dor, diga-se, nem precisa durar o período menstrual inteiro. "Basta um único dia de cólica intensa para acender o alerta", explica Schor. Outro sinal para deixar a gente esperta: alterações no hábito intestinal. "Elas são mais frequentes quando há endometriose. A mulher costuma ter constipação antes e diarreias quando o fluxo desce", descreve o ginecologista.

Mas… endometriose pra cá, endometriose pra lá, que raio é isso? Imagino que talvez se pergunte. Descubro que toda vez que menstruamos, enquanto o útero se retorce, um pouco de sangue dá marcha à ré, uma espécie de refluxo. Ou seja, em vez de sair, ele sobe pelas trompas. 

O problema é que as células do endométrio, o revestimento interno do útero, têm uma característica muito curiosa: onde caem, podem ficar. Aboletam-se sem cerimônia em outro órgão qualquer ou no peritônio, a membrana que recobre a parede do abdômem. E, uma vez instaladas em um local diferente, elas proliferam como se estivessem preparando o útero para mais um ciclo e, talvez, uma gravidez. Na prática, embora não sejam malignas, elas se comportam como um câncer quando se espalha."O sistema imune deveria identificar as células do útero em lugar errado, mas as ignora", conta Schor. Portanto, nessa história de endometriose, há uma deficiência das defesas também.

Mesmo no endereço estranho, porém, essas células continuam se comportando como se estivessem em casa: a cada ciclo, reagem aos hormônios femininos e…menstruam. "Não quer dizer que a barriga da mulher se encha de sangue", foi logo me esclarecendo Schor, evitando que eu escrevesse bobagem. "Mas descamam. Então, já temos um problema aí, porque ao se desprenderem, podem parar em outro canto e o problema ir se alastrando a cada mês. Além disso, como se espera no período menstrual, produzem substâncias inflamatórias", ensina. Ah, e isso dói, como doí…

Não se sente dor apenas no ponto exato onde cresce o endométrio intruso. Dentro da barriga da gente, os órgãos não estão todos afastados e bonitinhos como naqueles livros de corpo humano. O espaço entre eles é o mesmo de um ônibus lotado. Ou seja, a substância inflamatória que está em um fatalmente esbarra no outro. E tudo arde.

A inflamação por todo o ventre também afeta os ovários, o funcionamento das trompas e a chance de um espermatozóide chegar são e salvo ao encontro com o óvulo, cuja qualidade também pode ficar duvidosa. Tem mais: o endométrio esparramado pela região cria aderências, repuxando tudo. A anatomia fica toda alterada, os orgãos saem do lugar e, bem, vamos nos lembrar que espermatozóide não sai de fábrica com GPS. Daí que tudo cria dificuldade para engravidar. "Mas é importante dizer que endometriose não é selo de infertilidade, como muitos acham por aí. Ela apenas pode dificultar os planos de ter filhos", frisa Schor.

Outra coisa que a endometriose pode bagunçar é com a felicidade das mulheres na hora agá. Explico: o lugar errado mais frequente onde esse endométrio vai parar é nas redondezas da vagina. Aí, como já viu, ele inflama. Se o pênis ou qualquer brinquedinho relar ali, a mulher vai gritar — e não será de prazer.

Não existem remédios, fique claro, que removam o tecido uterino do local equivocado, mas eles são o primeiro tratamento. No caso, para aliviar os sintomas, melhorar a qualidade de vida e evitar que a doença continue avançando mês após mês. "Todas as medicações se baseiam em tirar lenha da fogueira, bloqueando a ovulação", diz Schor. Por isso mesmo, não podem ser tomadas quando se planeja um bebê. Aí a alternativa é operar e retirar o endométrio expatriado. Que, aliás, é a única saída quando a doença avança demais e invade órgãos como o intestino, ameaçando até mesmo a obstrui-lo completamente.

Mulheres com parentes de primeiro grau com endometriose têm de sete a oito vezes maior risco de desenvolvê-la e devem ficar ligadas. Os exames que confirmam o diagnóstico são a ressonância magnética ou, mais comum, o ultrassom endovaginal. Só que… opa!, ele precisa — reforço, precisa — ser feito por um radiologista que conheça bem a doença. Nas imagens em mais de cinquenta tons de cinza da tela, só olhos muito bem treinados para ver endometriose flagram seus focos pelo abdômen.

No entanto, segundo Eduardo Schor, o exame é só para confirmar o que um bom exame clínico já é capaz de acusar. Mas, claro, para isso o ginecologista precisa dar a devida atenção às queixas de cólicas fortes, para daí perguntar sobre funcionamento intestinal, dor no sexo… Sem receber atenção à sua dor, esqueça. Meu conselho: solte você a língua e pergunte se ele ou ela não tem coração. Ou útero. Ou conhecimento de que a sua dor tem tudo para ser endometriose.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.