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Trombose: o que aconteceu com Bruno Covas é para nos deixar espertos

Lúcia Helena

25/10/2019 19h32

Crédito: Istock

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não está sozinho: como ele, todos os anos cerca de 180 mil brasileiros são surpreendidos por um coágulo que surge aparentemente do nada, no caminho de volta do sangue para o coração, percorrendo aquelas veias mais profundas. Claro, subir do umbigo até o peito é fichinha. Agora, subir das pernas até lá em cima, na altura do tórax, desafiando a gravidade, é que são elas! Não à toa, 90% das vezes o problema acontece nas pernas mesmo.

No caso do prefeito, o coágulo — que os médicos chamam de trombo — apareceu nas fibulares, duas das seis veias profundas dos membros inferiores, ali bem próximas do calcanhar. Aliás, veias fibulares devem ser ponto fraco de político: em fevereiro deste ano, Túlio Gadelha, deputado federal e namorado de Fátima Bernardes, foi parar no hospital por quê? Urrou de dor por causa de uma trombose venosa profunda nas tais fibulares — ah, sim, melhor eu dar nome e sobrenome para a encrenca, porque existem outras tromboses, como a arterial, por trás de AVC na cabeça, por exemplo, e as que acometem as hemorroidas. 

"Só que nem sempre o problema nas pernas dói. O sinal pode ser um inchaço inesperado ou até um problema de pele", avisa o cirurgião vascular Marcelo Calil Burihan, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) regional São Paulo, para quem eu liguei correndo quando soube da notícia do prefeito. Opa, ao ouvir que um problema de pele pode ser sintoma, nem ouse deduzir que a trombose causou todo o perrengue com Bruno Covas: ele parece ter tido erisipela mesmo, quando deu entrada no Hospital Sírio-Libanês na última quarta, dia 23. E agora não há data para a alta. Porque há um trombo em seu caminho para casa.

Eduardo Knapp/Folhapress

Uma trombose dessas é sempre perigosa se ficar sem tratamento. De 5% a 15% dos pacientes que não fazem nada morrem. Geralmente  porque um pedacinho do trombo se desprende ou ele inteiro vai parar nos pulmões — escala obrigatória para o sangue venoso ser oxigenado, lembra das aulas de Biologia? Ali, a bolota de sangue coagulado causa belo entupimento. Pronto: a pessoa simplesmente não consegue respirar e já era. Por isso, em casos assim, o jeito é ficar em observação, recebendo anticoagulantes para tentar desfazer o obstáculo.

E agora começa o zunzunzum. Será que Bruno Covas teve trombose porque já pesou quase 20 quilos a mais? "Isso com certeza não. A sobrecarga nas pernas aumenta o risco de trombos porque comprime vasos, mas, quando a pessoa perde alguns quilos, ele já cai barbaramente", esclarece Marcelo Calil.

Na verdade, são tantas as coisas capazes  de criar o entrave que todo mundo deveria ficar mais esperto. Até existem aqueles indivíduos com uma doença, em geral genética, chamada trombofilia. Estes formam coágulos por qualquer bobagem, mas são minoria. O resto conta mais, muito mais.

Quem tem qualquer tipo de câncer, por exemplo. "Um tumor, por si só, mexe com os fatores de coagulação, moléculas do sangue que agem em cadeia na hora em que um coágulo precisa aparecer", explica Marcelo Calil. Mas, claro, o aviso dado pelas células cancerosas é pura fake news. Não há machucado algum para tapar. "O risco de trombose é sete vezes maior se alguém tem um tumor", calcula.

O trombo também surge à toa quando existe uma lesão na parede interna da veia, como se o sangue interpretasse que precisaria consertar aquilo. Sem pânico: não é qualquer topada na mesa que causa esse tipo de lesão. "Estamos falando de vasos profundos", lembra Marcelo Calil. "Ou seja, seria preciso um trauma muito mais forte para comprometê-los."

De longe, porém, uma das causas mais frequentes é a estase venosa, nome complicado apontando para o sangue malparado em uma veia qualquer. As plaquetas — células que formam os famigerados trombos — ao lado umas das outras, no meio aperto, inventam de se agarrar de vez. É, não curtem um congestionamento, feito nós, prefeito! "Pessoas com varizes têm maior tendência a ficar com esse sangue parado", conta Marcelo Calil. "Esses vasos alargados são frouxos, não têm tônus para ajudar o sangue a subir."

Ficar parado também é pedir para acontecer  — talvez seja o caso de Bruno Covas por causa da erisipela. Daí a razão por que sedentarismo, ficar muito tempo sentado no avião ou doente de cama são puro risco. Ora, quando a gente caminha, os músculos das pernas massageiam as tais veias profundas. Isso ajuda. E tem mais: certos vasos nas plantas dos nossos pés, a cada pisada, se achatam e, então, é como se esguichassem o sangue para o alto, em uma espécie de empurrão inicial.

A insuficiência cardíaca é outro fator por trás da trombose. "Quando a gente pensa em coração, logo o imagina bombeando sangue para o corpo todo. Mas se esquece que o coração também aspira o sangue que volta", diz Marcelo Calil. Sem força para aspirar, ele não favorece a chegada do sangue venoso ao seu destino.

Pelo mesmo motivo, insuficiência respiratória também favorece tromboses. Quando a gente respira direito, há uma mudança de pressão na caixa torácica, que ajuda a puxar o sangue que vem das pernas pela veia cava inferior, atravessando a barriga. Para vencer a força da gravidade, enfim, a circulação não pode abrir mão de nenhuma ajudinha sequer.

Além disso tudo, existem os fatores hormonais, jogando contra a ala feminina. O estrógeno  favorece a formação de cóagulos. Por isso a trombose é mais comum em mulheres entre 20 e 40 anos de idade, em especial aquelas que usam anticoncepcionais com esse hormônio.

Aliás, as adaptações  do corpo para  gerar uma criança aumentam o risco das grávidas em seis vezes. "Claro que, no trimestre final de gestação, pesa literalmente carregar um bebê para cima e para baixo, comprimindo alguns vasos", observa Marcelo Calil. Mas as oscilações hormonais pesam ainda mais. Tanto que nos quarenta dias após o parto, o perigo de trombose chega a ser 15 vezes maior.

Em um bom exame clínico, o médico pode desconfiar de algo errado. A confirmação é feita com o doppler, o ultrassom que mostra a quantas anda — ou não anda, empaca — a circulação. "Muitas vezes, a pessoa precisa tomar remédios para sempre", diz o cirurgião. "Além de anticoagulantes, remédios que melhoram o tônus das veias."  Sem contar usar meias de compressão e andar bem mais.

É… Pelo jeito, o prefeito Bruno Covas terá de diminuir as horas de gabinete e andar muito mais por São Paulo depois que se safar desta. Recomendação dos paulistanos, agora com prescrição médica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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