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Por que fazer um belo número 2 deveria estar entre seus objetivos número 1

Lúcia Helena

29/10/2019 04h00

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Corro o risco de você dizer: ela só escreve m… mesmice. Está cansado de ouvir sobre a importância de ir ao banheiro regularmente, é isso? Mas trago boas novas — ou nem tão boas, conforme seus momentos mais íntimos — sobre essa história. Primeiro, a ciência está revendo seus conceitos de constipação e nunca deu tanta importância à m… maneira como você faz o que deu para chamar de número 2, sem existir motivo para ter ficado com a segunda colocação. 

Se antes era feliz quem fazia aquilo que todo mundo faz no mínimo três vezes por semana, hoje é muito relativo. Tem gente que faz a m… mesmíssima coisa todo dia e, em uma nova concepção, já é considerada constipada. Melhor dar nome claro a essa m… metáfora. É de cocô que estou falando. Palavrinha esquisita, admito, até de escrever. Parece que faz o texto cheirar mal. Aí é que está a m…meleca, Precisamos encará-lo.

Não vale cocô bolinha — você é constipado se a sua produção, ainda que seja diária, se assemelha à de um carneiro. Depois de ter perdido tanta água e, de tão seco, se quebrado em pedaços, esse cocozinho entrega que demorou demais pelo caminho. Nem vale o cocô fininho. Franzino, ele mostra que não dá uma força para o intestino trabalhar direito. Bem pior, o cocô em fita. Ele existe e, se sai assim meio de lado e achatado, demonstra que a passagem intestinal em algum ponto ficou muito estreita. Então, cuidado: talvez exista algo importante obstruindo o trajeto, até mesmo um tumor, exigindo uma investigação. 

Os formatos podem variar vez ou outra. Mas o cocô que esbanja saúde tem padrão e textura: "Ele é comprido feito uma linguiça e macio", ensina a gastroenterologista Martha Pedroso, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a Universidade de São Paulo. Mas seria capaz de apostar que muita gente nem olha para trás.

Ah, tem um tom de m… marrom saudável também. O cocô não pode ser claro demais, um bege mixuruca ou esbranquiçado, sinal de possíveis encrencas no fígado. Nem seria bom apresentar um nobre dourado, um ouro dos tolos entregando eventuais distúrbios no pâncreas. Mas também não pode ser escuro, isto é, muito, muito escuro. Essa é a  cor daquilo que ficou muito tempo parado no intestino, onde a fila sempre deve andar. 

Cocô escuro acusa uma lentidão nas tripas e essa letargia para ir embora, além de associada a alterações do humor, à maior fragilidade em relação a uma série de doenças — ora, não tem bactéria benéfica da famosa microbiota que resista a tanto cocô empacado ,— prova ser capaz de tirar até o sono. Ao pé da letra. Intestino devagar e quase parando, provado, destrói as noites de descanso. Isso, sim, é uma m… madrugada terrível.

Atualmente, a estimativa é de que 37,2% das brasileiras e 36,5% das nossas crianças, tanto meninos quanto meninas, sejam constipados. E isso, digamos, calculando em cima do conceito mais tradicional, que seria aquele de fazer cocô menos de duas ou três vezes a cada semana, ficando longos intervalos sem se sentar no trono. No entanto, se considerássemos quem tem fezes bem duras ou escurecidas demais ou, ainda, quem sempre precisa de uma forcinha extra na hora de evacuar, nem que seja para dar aquele arranque inicial, então essa proporção aumentaria. E isso é sério. Afinal, nosso ritmo intestinal revela como levamos a vida.

"Em medicina, a gente brinca: se o intestino está funcionando, todo o resto está bem", conta a doutora Martha Pedroso. Brincadeira que é levada muito a sério quando você fica internado. Ninguém  lhe autoriza a arredar o pé do hospital sem deixar um cocô de lembrança, como indicador de que tudo voltou a funcionar às mil maravilhas.

Remédios para dor podem tornar o intestino preguiçoso. Anestesia, nem se fala — dizem que, dos nossos órgãos, o intestino é o primeiro a dormir e o último a acordar. Sem contar que é o maior não-me-toques: se o cirurgião encosta ali, o órgão já se ressente e acontece o fenômeno chamado de íleo paralítico. Ou seja, em vez de continuar empurrando as fezes para fora, ele trava. É a sua vez de brincar — e brinca de estátua. Não tem graça.

Aliás, a constipação reflete o sedentarismo. Por mais que o intestino faça seus movimentos em ondas, os peristálticos, ele precisa que o resto do corpo se mexa também. A musculatura pélvica deve estar tonificada para que cada fibra ajude na hora agá (você sabe qual) e, nesse momento, a pressão interna do abdômem deve aumentar. Dificilmente você conseguirá isso com as pernocas relaxadas, sentado no vaso sanitário. Sim, até aí se exige boa postura: pés completamente apoiados, bem firmes contra o chão. Para crianças, que pelo tamanho podem ficar com as pernocas voando enquanto permanecem sentadinhas, providencie um apoio para os pés.

Fibras, você sabe, são obrigatórias: 25 gramas todo santo dia ou  400 gramas de frutas, legumes e verduras. Como tudo o que entra sai (ou não sai), a tal prevalência de mais de um terço de mulheres e crianças com prisão de ventre denota que nossos hábitos alimentares têm muito o que melhorar. "E não basta consumir fibras, por meio de dieta ou de suplemento, se a pessoa se esquece de tomar de 1,5 a 2 litros de água diariamente", lembra a doutora Martha.

Caso contrário, as fibras vão aumentar o volume do bolo fecal, mas ele será duro demais para sair de boa. Sim, fezes devem ser hidratadas o tempo todo, até irem embora. Tanto que os laxantes modernos , como os derivados da lactose, classificados como osmóticos, não interferem nas terminações nervosas do intestino feito os do passado — o que eles fazem é atrair água para o cocô ficar macio e escorregar.

Só que tudo nessa vida é questão de tempo. "Tem gente que ignora a sensação de que é hora de ir ao banheiro", nota Martha Pedrosa. "Se demora para obedecê-la várias vezes, o reflexo evacuatório se perde. Até chegar ao ponto que ela não sentirá mais a vontade." Então, as fezes paradas perdem água. Empedradas, travam tudo. A médica nota que a mania de segurá-las é mais feminina, até por fatores culturais, como receio ou vergonha de usar banheiros públicos. E, para completar, os hormônios das mulheres não ajudam. "A progesterona inibe os movimentos intestinais", diz Martha Pedroso. Daí por que grávidas, com progesterona abundante, e mulheres na menopausa são vítimas preferenciais da constipação.

O estresse é outro que atrapalha um bocado. Mais especificamente o cortisol, hormônio derramado em excesso quando estamos nervosos e agitados. Ou, ainda, depois de uma noite de insônia — "ficar sem dormir piora a constipação que, por sua vez, atrapalha o sono", diz a doutora Martha, apontando para um ciclo de m… matar de ruim.

O cortisol literalmente tira sangue das paredes intestinais e, sem o abastecimento adequado de nutrientes e oxigênio, elas fazem corpo mole para trabalhar. A natureza é sábia se, afinal, durante o estresse reagimos como homens da caverna diante de um leão. "Não dá para dizer: 'leão, espera, que vou ali atrás da moita'", ri a médica. É, não seria uma boa… 

Assim como é roubada fazer dieta líquida para limpar o intestino. Que ideia de m… maluco! Tudo bem que mesmo a mais rala das sopinhas vai ter algum resíduo para formar fezes. Mas será pouco. "O intestino precisa de conteúdo, de massa fecal pressionando suas paredes para trabalhar direito, manter sua microbiota, eliminar toxinas e produzir serotonina, o neurotransmissor do bem-estar". Portanto, suquinho uma ova. "Detox" de intestino é fibra. O resto é pura m…mentira.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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