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Doença de Chagas vem com tudo: açaí ou não lavar frutas causam o problema?

Lúcia Helena

31/10/2019 04h00

Crédito: iStock

Não posso começar este texto dizendo que a doença de Chagas voltou. Simplesmente pelo seguinte: o mal descrito pelo médico mineiro Carlos Chagas entre 1908 e 1909 nunca foi embora. Jamais ficou restrito aos livros de escola, onde você ainda menino ou menina leu sobre o inseto barbeiro que, ao picar pessoas vivendo em casas humildes de barro, transmitia o protozoário Trypanosoma cruzi,  um parasita capaz de deixar o músculo cardíaco aumentado e flácido, sem um pingo de força para bater. Foi assim com João Boiadeiro, o primeiro brasileiro transplantado do coração, em 1968.

Aí você, que não vive em casa de barro, já saiu da escola faz um tempão e acha que essa história do primeiro transplante tem um quê nostálgico de homem pisando na Lua, pensa então que o problema não é contigo, certo? Errado. 

Digo mais: além de a doença não ter sumido do nosso mapa, o barbeiro é bem democrático e pode picar qualquer um, sem distinção de saldo bancário, em áreas por onde sempre perambulou e perambula, como no Triângulo Mineiro e, para dar outro exemplo, na região de Ribeirão Preto, no interior paulista. 

Hoje o Ministério da Saúde estima que existam de 1,9 milhão a 4,6 milhões de brasileiros infectados com o maldito tripanossoma. E eram cerca de 200 novos de casos por ano até há pouco, mas… Mas a incidência já aumentou quase 50% do ano passado para cá por causa de alimentos contaminados — fenômeno novo para nos deixar de cabelos em pé. A doença de Chagas vem com tudo, está esnobando até o inseto e, diferentemente dos tempos do João Boiadeiro, matando muito depressa. Às vezes, destruindo o coração em 48, 72 horas depois que seu dono, lá no Norte do país, por exemplo, resolve comer um açaí preparado artesanalmente.

E eu aposto: chegou a vez de você dizer que não come açaí, ameaçando desistir da leitura. Ou vai contar que só come aquele açaí na tigela do restaurante natureba — que, melhor eu ir logo acalmando, de fato não oferece perigo. A polpa que a gente encontra nesses estabelecimentos e em supermercados por todo o país costuma ser pasteurizada e, obrigatoriamente, é comercializada com o selo de inspeção da Vigilância Sanitária. 

A questão alarmante é outra. Quem a levantou foi a cardiologista Dilma Souza: "O que dizer do surto de Chagas em junho passado, no Recife? As 75 pessoas diagnosticadas não tinham comido açaí, nem o barbeiro picaria tanta gente em um curto espaço de tempo."  Para a médica, professora da Universidade Federal do Pará e presidente eleita da Sociedade Brasileira de Cardiologia em seu estado, o problema em Pernambuco foi causado após a ingestão de frutas sem lavar. Falta de educação básica, nem sempre seguimos  à risca aquela ordem de pai ou de mãe: "já lavou?", perguntava o meu velho quando eu atacava a fruteira.

Na semana passada, o cardiologista Marcelo Queiroga, presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cardiologia para todo o país, ouviu a preocupação de seus colegas durante o XXXIX Congresso Norte Nordeste de Cardiologia. "Precisamos ter como meta sensibilizar as autoridades públicas para orientar a população sobre a importância da higienização dos alimentos", ele me disse. "A quantidade de protozoários que a pessoa ingere quando a comida está contaminada é muito maior do que a transmitida pelo inseto e essa carga imensa na circulação faz a doença ser muito mais agressiva."

Chagas nunca foi uma condição suave, embora muitos portadores não sintam nada. O que bota medo é que essa aparente calmaria pode ser, mais dia, menos dia, quebrada. Explico. Na forma tradicional de transmissão, o inseto carrega o tripanossoma no intestino depois de, para o nosso azar, já ter se empanturrado do sangue de alguém ou de algum animal infectado. Aliás, falamos em barbeiro como se ele fosse um tipinho único, culpado por toda a encrenca. "Mas, só aqui no Pará são cerca de 130 espécies de insetos com potencial para transmitir o protozoário", diz Dilma Souza que, esqueci de contar, é uma das principais pesquisadoras da doença de Chagas no país.

Não é a picada, em si, que inocula o Trypanosoma cruzi. O "insetinho" é que não se segura e defeca enquanto suga o nosso sangue. Logo vem aquela coceira chata, você esfrega a unha e se lasca, arrastando as fezes cheias de protozoários para dentro do furo. Alguns dias depois, acontece a fase aguda inicial da doença, com febre e quebradeira que podem até passar por gripe.

Se nada for feito aí — existe medicação para tirar tripanossoma de circulação —, a doença vira crônica. Nessa fase, nem o eletro vai acusar nada de errado. Pode-se passar uma vida inteira assim, com um mal invisível. Mas parte das pessoas — e ninguém sabe dizer quem, nem por quê — vai evoluir para o que os médicos conhecem por fase crônica determinada. Isto é, de dez a trinta anos depois de habitar aquele corpo sem fazer estardalhaço, o raio do tripanossoma vai agredir o coração, a começar pelos seus nervos. Os batimentos destrambelham, além de o músculo inchar. O protozoário ataca também a musculatura de todo o tubo digestivo. Desastre.

Existe, ainda, a forma congênita. "O parasita pode ser transmitido de mãe para filho em qualquer trimestre da gestação ou até no parto", lembra Dilma Souza. No entanto, a forma que se torna pouco a pouco a mais frequente entre nós é mesmo a oral. "E ela é praticamente desconhecida da ciência, que até noutro dia acreditava que o tripanossoma não suportaria a acidez do estômago", conta a pesquisadora. Quer saber da pior? Ele não só resiste ao suco gástrico como faz dele limonada e parece até gostar. Depois, penetra pela parede estomacal e alcança a circulação sanguínea.

Geralmente, o inseto contamina frutas quase que por engano. Veja o caso do açaí: quatro ou cinco horas após a colheita, ele já começa a fermentar. Quanto isso acontece, libera gás carbônico, como nós ou qualquer outro bicho ao expirar. O barbeiro, que gosta mesmo é de sangue, ao detectar o gás interpreta que está diante de um banquete vampiresco. Não resiste à ideia de chupar um sangue e cai na máquina que tritura o açaí. Danou-se.

Passadas até três semanas de boa, a febre que surge nos consumidores desse açaí contaminado — ou de qualquer outro alimento com o sangue de um inseto esmagado ou, ainda, com suas fezes na casca. Essa febre não dura apenas uns três dias, como aquela após a picada. "Geralmente é bem mais alta e se prolonga por mais de uma semana", conta Dilma. "O quadro, então, confunde. Os médicos pensam ser malária, calazar, febre tifoide…  Tudo, menos Chagas." Essa é outra batalha da médica: sem reconhecer a doença, ninguém toma os remédios que poderiam, logo no comecinho, livrar o organismo do tripanossoma.

O mais assustador acontece com até 5% dos infectados. Na transmissão oral, o parasita pode não esperar anos para exibir sua crueldade. Aliás, ele nem sequer espera uma semana. Em questão de horas, arrasa com as fibras musculares do coração. É morte na certa. E, se a gente comparar pessoas na mesma faixa etária, os homens são mais resistentes do que as mulheres. Nelas, a evolução é bem pior e a ciência ainda quer entender o por quê.

A saída é abrir o bico para que todos fiquem alertas — e abrir a torneira também. Lavar toda fruta muito bem. Deixar tudo de molho em solução de hipoclorito, ainda mais no Norte, no Nordeste e em todas as áreas do país onde o barbeiro carregado do tripanossoma é ameaça constante. Vale, especialmente no caso do açaí, o branqueamento, técnica de derramar água a 80 graus Celsius sobre os frutos e, na sequência, mergulhar tudo na água bem gelada. O tripanossoma não resiste ao choque térmico.  Nem a cuidados de higiene que deveríamos ter aprendido de berço:  "Já lavou?".

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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