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Será que você, em momentos do dia a dia, se lembra que tem pulmões?

Lúcia Helena

07/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Ninguém acorda e diz para os botões do pijama enquanto espreguiça: "aaah, hoje eu vou respirar". Encher os pulmões de ar é a primeira coisa que fazemos na vida e esvaziá-los será a última. Fim. Inspirar e expirar, por mais que a gente consiga segurar a respiração por alguns instantes, são tarefas que acontecem no piloto-automático do organismo. Ate aí, as batidas do coração também,  eu sei. Mas, sem ficar realmente esbaforido, ninguém lembra que, nas cercanias do coração, dividindo com ele o espaço da caixa torácica, existem dois sacos cor-de-rosa, com uns 25 centímetros de comprimento cada. Já se o vizinho dá uma aceleradinha de nada, a mão vai ao peito, atenta. Injustiça danada: o coração é um mero serviço de delivery que só tem serventia porque os pulmões prepararam o sangue com oxigênio para ele entregar.

"Eu queria que as pessoas ficassem de olho nos pulmões como pensam no coração", suspirou, quando nos encontramos noutro dia,  a pneumologista Angela Honda, diretora médica do laboratório AstraZeneca, que também atua no ambulatório de reabilitação pulmonar da Universidade Federal de São Paulo. Entendo. Se qualquer um de nós come uma feijoada completa mais meia dúzia de torresmos, lá no fundo vem a vozinha chamando a atenção para o colesterol. Mas que hábitos ou situações no dia a dia deveriam corresponder e deixar todo mundo igualmente esperto em relação aos pulmões para evitar  não apenas o câncer, mas a DPOC  —doença pulmonar obstrutiva crônica — e a asma?

Ok, eu não vou chover no molhado e ficar falando do inimigo número 1, que é o cigarro — agora, também, em sua versão eletrônica que, de inofensiva, não tem nada. Já sabemos que, por onde passa, essa fumaceira vai arrasando com a árvore pulmonar, inclusive a do vizinho, pobre fumante passivo. Sim, cada pulmão tem um tronco cartilaginoso, o brônquio, que por sua vez se divide umas 262 mil vezes em galhos cada vez mais finos. Com menos de 1 milímetro de diâmetro, você já pode falar em bronquíolos, na ponta dos quais penduram-se saquinhos translúcidos, cercados de microscópicos vasos de sangue.  São os alvéolos, onde o gás carbônico é trocado por oxigênio fresco. 

"Se a gente esticasse a membrana dos alveólos de um adulto de 1,70 metros e 70 quilos, ele cobriria uma quadra de tênis", conta a doutora Angela. Mas aí é que está: delicadíssima, essa pele úmida feito uma água-viva não tolera temperaturas frias. Na verdade, nem quentes. O ar precisa encostar nela a 37 graus Celsius para não causar danos. E o sistema de ar-condicionado do seu corpo é o nariz, sempre pronto a aquecer o que você inspira ou a refrescar esse jato, no caso liberando água na superfície da mucosa. "Nariz não é só um enfeite para a pessoa fazer plástica", brinca a médica. "Nariz é um órgão importante e, se alguém respira pela boca, deveria visitar o pneumologista para avaliar os pulmões", diz ela. "'É possível que eles tenham sofrido prejuízos pela mania de respirar pela boca."

O ar também deveria chegar aos pulmões umidificado — outro trabalho para o nariz. Aliás, vale lembrar que não tomar água o suficiente ao longo do dia está para os pulmões como devorar fartas fatias de bacon nos cafés da manhã ou despejar o saleiro no prato para o coração. Pulmões saudáveis precisam de água até para produzir muco. Essa secreção viscosa é que manda as partículas de sujeira do ar para fora. Em uma comparação grosseira, é como tirar o pó de uma mesa usando um pano úmido — ele sairá muito mais fácil.

Falar nisso faz a gente entender duas ameaças. Uma delas, a poluição, claro. Você já deve ter ouvido dizer: não vale sair correndo em avenidas muito movimentadas, respirando o que sai dos escapamentos no trânsito pesado. Isso é pedir: "fumaça, venha!", assim, com os pulmões escancarados. Não tem muco que dê conta. "A gente, que mora em São Paulo, respira um ar que equivale a tragar três cigarros por dia", quantificou a doutora Angela. Então, outro bom motivo para ficar ligado é viver em locais com ar sujo. E, por ficar ligado, entenda: sentir uma leve falta de ar de vez em quando. "O problema é que muita gente logo acusa a ansiedade. Pode até ser, mas não custa checar isso", defende a pneumologista.

Outra situação para você lembrar que tem pulmões? Passar o dia no ar-condicionado do trabalho. "No calorão, pode ser uma delícia", reconhece Angela Honda. "O problema é que o ar inevitavelmente fica muito seco, o que pode ir desgastando os pulmões." Não que o corpo não procure contornar esse clima. Ele faz isso, reidratando o ar que entra. Mas, se a trabalheira é enorme e constante, ele inflama. Tudo o que causa problema na nossa vida tem uma inflamação por trás. Com os pulmões não seria diferente.

Por isso, outro fator de risco importante é a obesidade, capaz de criar um estado inflamatório  dos pés às cabeça. Não se sabe se ela causa asma. Mas uma coisa é certa: nos asmáticos com excesso de peso, as crises são muito mais intensas. E no entanto… Se deixar, Angela Honda em defesa dos pulmões vai reclamar mais uma vez: "Todo mundo associa a obesidade a risco para o coração, quando essa é uma condição igualmente ameaçadora para a saúde pulmonar." O mesmo vale — e pelo mesmíssimo motivo — para doenças reumáticas e outras que deflagrem processos inflamatórios crônicos pelo corpo.

Rinites e dermatites são caso à parte. Elas não só envolvem inflamações — cujas moléculas, pelo sangue, alcançarão os preciosos alveólos pulmonares, com destaque para a rinite que, de quebra, vai entupir o nariz —, como os genes que estão por trás também estão envolvidos com a asma. Aí, como dizem, "formô"". Até porque, desde abril deste ano, as diretrizes internacionais reconheceram a asma como uma doença inflamatória. Para você ter ideia, não adianta só a velha bombinha para dilatar os brônquios se não for inalado, em doses mínimas, um antiinflamatório também.

Deixa eu esclarecer por que estou batendo na tecla da asma: muita gente tem e nem faz ideia. Ou pensa que teve bronquite na infância e se curou. Na realidade, é comum a asma surgir nos primeiros anos de vida, sumir no final da infância para reaparecer com todo o seu terror na idade adulta. E um detalhe que confunde: qualquer asma é potencialmente fatal, até aquela que recebe o rótulo de "leve" ou "moderada", que, diga-se, representa a maioria dos casos.

"Quando falamos que a doença é severa é pela quantidade de medicação que aquele paciente deve tomar para ter uma função pulmonar normal", explica Angela Honda. "Mas tanto quem tem asma leve quanto tem asma grave pode ser surpreendido por uma crise intensa ao ir para uma casa ou de campo e respirar mofo, inspirar um ar muito frio de repente ou algo assim." Então, minúsculas fibras musculares enroladas nos galhos dos brônquios os estrangulam. Nada entra, nada sai. Asfixia. E morte, se nada for feito depressa. Em geral, o paciente com asma leve — até por nem desconfiar ser asmático — não leva nada na bolsa para sair do aperto. O asmático leve , portanto, pode correr um risco maior.

Daí a última dica: chiado, nem que seja só muito de vez em quando, não tem nada de charme, nunca foi miado de gato. É feito uma janela entreaberta.Se ela estivesse escancarada, o vento passaria de boa. Já pela fresta, faz barulho. A mesma coisa com seus pulmões. Se o seu respirar suspira, ah, pode apostar na asma: seus brônquios reclamam baixinho que estão num sufoco.

 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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