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Fimose: a pressa para resolver às vezes é a maior inimiga do pênis

Lúcia Helena

14/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Ao nascer, só quatro em cada 100 meninos, quando muito, se exibem completamente. Como dizer…? Só 4%, no máximo, conseguem retrair a pele na ponta do pênis e expor a sua glande.  São, portanto,  quase que absoluta exceção. O resto veste mesmo a carapuça, que parece não sair da cabeça. Vem ao mundo com um prepúcio — o nome da tal pele — que dá e sobra. E como sobra! 

No Brasil menos, mas, lá fora, de montão, muitos bebês são operados de largada. Ou melhor, entre 7 dias de vida e 6 semanas, no máximo, período em que dá para resolver esse… babado com anestésico local. Mais tarde, só com anestesia geral. Mas será que é preciso mesmo correr para tirar essa prega fora nos primeiros dias ou até mesmo nos primeiros anos de vida? "Não", foi a resposta que ouvi do urologista Paulo Moscardi, durante um café, agora que ele voltou ao país. 

O médico é de uma especialidade relativamente rara dentro de outra especialidade — é um urologista pediátrico. Passou os últimos três anos na Universidade de Miami e em hospitais da Flórida, nos Estados Unidos. Nosso encontro, aliás, foi quando estava a instantes de dar uma aula sobre cirurgia robótica em crianças. E, papo vai, papo vem,  quando falamos na tal fimose , ele foi categórico: "Melhor esperar", insistiu. "E evitar erros comuns durante essa espera", soltou. Pra quê! Se existem erros comuns, existe pauta para este blog.

Aos que não esperam, parênteses. Muito menino é operado por razões religiosas e isso merece o maior respeito. É o caso dos judeus, cujo prepúcio tem de sair fora por decreto divino.  Diz a Bíblia, Abraão tinha 99 anos quando Deus o instruiu a circuncidar a si mesmo e aos membros de sua família. Depois do procedimento, ele e Sara tiveram mais um filho.  Sem pegar ao pé da letra, o recado é claro: tirar o prepúcio da frente faz bem à saúde do homem.

Deus também prescreveu que, no caso do filho temporão e de todos os garotos que nascessem dali em diante, a circuncisão ou brit milá acontecesse no oitavo dia de vida.  Um modo de interpretar a recomendação é mais médico e, se me permitem, é de tirar chapéu: "Depois de uma semana, é que o bebê já tem uma boa quantidade de fatores de coagulação na circulação. Ou seja, irá sangrar menos", explica Paulo Moscardi. 

Daí o período que se inicia a partir da primeira semana indicado para quem quer fazer a cirurgia cedinho, seja por qualquer razão, incluindo as culturais na linha "para ter a cara do pai", isto é, se o pênis paterno passou por isso. Cara de pau é  fazer isso com a criança, cujo corpo tem seus próprios mecanismos de se livrar do excesso de pele. 

"As mães é que ficam preocupadas de tanta história de que precisam operar a criança voando", conta Paulo Moscardi. "Mas vou logo garantindo que metade dos meninos consegue expor a glande ao final do primeiro ano de vida sem fazer nada, absolutamente nada.". Aos 3 anos, então, 90 por cento já resolveu a questão naturalmente. Na entrada da puberdade, cerca de 1% apenas dos rapazes tem fimose. Portanto, gente, se não é questão de religião, segure a lâmina afiada e bote fé na natureza. Ela se vira.

Afinal, a primeira coisa que um pênis faz, além de xixi sem esperar, é ficar duro. Recém-nascidos já acordam com ereções e o pintinho se anima, se duvidar, com qualquer algodão na troca de fraldas. Rapazes sendo rapazes … "A cada ereção, forçam um pouco essa pele, que vai se tornando mais elástica e, aos poucos, indo para o lugar certo", descreve Paulo Moscardi.

Outra invenção de mamãe natureza às vezes assusta mamães de verdade: o esmegna, substância branca, meio pastosa, que elas encontram por lá. É, pode não ser um achado dos mais agradáveis e muitas pensam ser pus. O esmegma, no entanto, é puro sebo misturado com células mortas que se acumulam sob o prepúcio grandalhão. Merece, lógico,  água e sabão, mas tem o seu valor: "Ele vai ajudando a descolar a pele da glande", diz o médico.

Já o pus pra valer aparece ou, vá lá, pode aparecer quando se inventa moda. Uma delas é massagear o dito-cujo para forçar a tal pele. "Ainda mais nos bebês novinhos, esses movimentos podem causar pequeníssimos traumas nos tecidos", descreve o urologista. Por mais que sejam microscópicos, para agentes infecciosos aquilo se transforma em brecha. Ou seja, em porta de entrada para balanites, inflamações na cabeça do pênis, e balanopostites, quando tanto a glande quanto o prepúcio se inflamam. São problemas comuns, tratados com antibióticos, especialmente quando são realizadas essas manobras ou massagens nos primeiros anos. Portanto, aviso: larguem mão.

O ideal, segundo Paulo Moscardi, é esperar o menino fazer 2 anos e se aproximar dos 3 sem fazer nada para avaliar como estão as coisas. Se o prepúcio ainda não atendeu ao toque de recolher, como acontece em metade dos casos nessa faixa etária, aí, sim, pode-se pensar em alguma outra solução. Especialmente quando há problemas com o chamado anel de contrição — pobres garotos, existe isso!

O anel de constrição é uma área do tal prepúcio literalmente menor do que o diâmetro da glande. Imagine aí uma gola rolê apertada — alguém se lembra do sufoco que é despir uma camisa de gola rolê apertada?! No caso do pênis do menininho, nada vai para frente, nem para trás. E forçar, mais do que nunca, se transforma em perigo — o de rolar uma parafimose. 

A parafimose é quando a pele vai para trás, geralmente por causa de uma massagem mal orientada para corrigir a fimose,  e… não volta nunca mais. "Imagine um anel apertado que não sai do dedo enquanto ele incha", compara Paulo Moscardi. Aff, aflição! Ora, o "dedo", no caso, é um pênis. Que está sendo literalmente estrangulado. Corra, baby, corra para o pronto-socorro mais próximo. É uma emergência das bravas.  De novo: massagens na criança, para resolver a fimose,  precisam de cuidado e muita orientação.

Só devidamente orientados, os adultos — pai ou mãe — podem fazer as manobras quando o menino com fimose já tiver uns 3 anos.  Em geral, com pomadas específicas que contêm uma dose baixíssima de corticoides — sem pânico, nem doutor Google! A dose é baixíssima e super segura mesmo. O que a pomada faz é lacear a pele. Assim, ela fica com mais desenvoltura para atender  aos estímulos das manobras e daquelas saídas da natureza masculina, como a bendita ereção.

Só tem um detalhe: "Apesar de os resultados com a pomada aparecerem ligeiro, após um ano de tratamento de 15% e 20% dos casos regridem", avisa Paulo Moscardi. A pele volta a esconder a cabeça em geral porque os pais interrompem o uso da medicação antes da hora e, principalmente, param de fazer as massagens. Ou não ensinam a criança, mais crescidinha, a realizar os movimentos durante o banho. Além de criar a bem-vinda autonomia e de aproveitar o momento para explicar a importância da higiene, tem outra: o garoto, senhor do seu pênis, sabe quando está forçando. O incômodo é um aviso e ele nunca puxará demais.

É evidnte que, se nada disso der certo, a saída deverá ser cirúrgica. E que talvez — aí, sim — seja melhor nem esperar a adolescência para operar. Afinal, embora o procedimento seja simples e nem exija dormir no hospital, durando cerca de meia hora, a recuperação é mais desagradável no adolescente, que tem um maior número de ereções. No pós-operatório, elas irão doer e podem até arrebentar um ponto ou outro. Mas, se deu um bom tempo ao tempo e nada aconteceu, é para operar.

Há bons motivos para a glande ficar descoberta. Isso facilita a higiene e diminui  o risco de doenças infecciosas. Cai até mesmo o risco de contrair o HIV da Aids. Sem contar o câncer de pênis, nos qual o nosso país infelizmente é um dos campeões mundiais, provocado por falta de limpeza local. Outro benefício é prevenir dor e sustos maiores durante o sexo. Se há fimose na vida adulta, na hora do rala-e-rola o freio — espécie de cordão que segura essa pele — pode arrebentar, causando um sangramento danado e cobrando uma cirurgia no vapt-vupt

Um medo, porém, todos devem tirar da cabeça: já se falou muito que tirar o excesso do prepúcio diminuiria a sensibilidade do pênis de adultos, mas Paulo Moscardi garante que nenhum estudo, até o momento, mostrou qualquer diferença nesse sentido. Portanto, a ordem é para se expor totalmente, rapazes.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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