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Quando a mulher sofre na intimidade: as causas de dores na hora do sexo

Lúcia Helena

19/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Existe alguma coisa muito errada quando uma mulher sente dor ao transar. Mas o quê?  O fato de a pergunta ser levantada, em alto em bom som em um enorme congresso médico, já é um alívio e tanto. No mínimo, sinal de que um pedaço da alma,  colado aos genitais, ganha o seu lugar no consultório. Porque, mesmo quando não é ela a maior machucada, a tal da alma arde junto. Pinica. Esfola-se.

Aconteceu no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, que foi até o último sábado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Repare bem no avanço: nem faz muito tempo, uns sete anos no máximo, a saúde sexual não era assunto nas aulas de Medicina. Disparate. O ginecologista, portanto, ali bem de frente para a nossa intimidade, mal poderia saber o que fazer com esse tipo de queixa. Que merece tratamento, sim. 

Inflamar-se na hora do sexo — e não exatamente por desejo — ou se fechar para a possibilidade de uma penetração — ao pé da letra! —  é um problema de saúde importante.  Mas, enquanto a vagina e seus arredores berram de dor, a mulher muitas vezes sofre calada. E, se duvidar, sofre ainda mais na consulta. 

Fica a dica da ginecologista e terapeuta sexual Lúcia Alves da Silva Lara, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no interior paulista: "Todo ginecologista deveria começar perguntando se a mulher tem relações sexuais. E, se ela disser que sim, indagar se sente alguma dificuldade", ensina a professora a cartilha. 

Ao ouvir que não, que está tudo lindo entre os lençóis, ok, segue o baile. Mas a resposta positiva precisa soar como um "paaaara tudo!".  O tempo, então, será para abrir espaço para o diálogo em vez de abrir a carne com o espéculo — aquele instrumento de exame que, enfiado vagina adentro, afasta tudo para escancarar a paisagem do colo uterino.

Não se trata da minha opinião particular — embora eu seja a favor da conduta —, nem de sensibilidade feminina — embora, no território úmido das fêmeas, seja tudo muito sensível. Atenção, de uns tempos para cá, isso faz parte das diretrizes da Febrasgo, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Diretrizes e protocolos médicos são feito receita de bolo, se quer uma comparação grosseira. Ou seja, são o que um bom profissional deveria fazer para a massa não desandar. No caso, para a gente não correr do consultório, hesitar no retorno e largar a própria saúde (e o sexo) ao deus-dará.

Na dor, o gineco tem mais é que conversar e tentar, se conseguir cutucar, avaliar o grau de contratura nos genitais. se por acaso notar um problema psíquico mais sério por trás do tormento, no lugar de usar o maldito espéculo para provocar ainda mais sofrimento, ele deve encaminhar a mulher para o psicólogo, psicanalista ou para o terapeuta sexual. "Só quando essa paciente estiver bem amparada no lado psíquico, ela poderá iniciar uma fisioterapia para relaxar a região e então, finalmente, voltar ao gineco. Esse processo de ida e volta pode levar em casos extremos mais de ano, um período que deve ser muito respeitado", diz a professora Lúcia, que começou implantar a saúde sexual na formação de médicos em Ribeirão Preto desde 2012.

De lá para cá, como presidente da Comissão Nacional Especializada em Sexologia, da Febrasgo, Lúcia Lara já rodou o país defendendo que a saúde sexual faça parte da grade curricular da Medicina, para que os ginecologistas consigam atender e encaminhar casos que vão da disfunção do desejo à falta de orgasmo. E óbvio: uma dor na hora agá é capaz causar as duas coisas. 

Entre elas, se quer entender desse penar, há o que os especialistas chamam de dispareunias. São dores que podem ser externas ou profundas, alastrando-se por toda a pelve, sempre provocadas por alguma condição física.  "Pode ser um remédio, já que algumas drogas afetam a lubrificação", exemplifica a professora Lúcia Lara. Pronto: sem estar molhada, um encontro sexual até dilacera. Radioterapia é outra, que pode alterar toda a finíssima mucosa feminina, sem contar o estresse do momento que nem sempre facilita o clima. Cirurgias, às vezes, também deixam sequelas dolorosas. Acho que nem preciso justificar que infecções podem ser igualmente doídas.  E, claro, existe a inevitável menopausa, quando o estrógeno bate em retirada deixando vulva e vagina feito um Saara — ah, senhoras…

Nesse mundo de nome esquisito, o das dispareunias, as saídas são tão variadas quanto os problemas. Além de hidratantes, lubrificantes, reposição para quem precisa repor, antibiótico para quem tem alguma bactéria nociva dando sopa, o que vale mesmo é atacar a causa física. Se for um remédio, trocar. Se for uma rádio ou até mesmo uma quimioterapia, existe tratamento específico para esses casos. Mas, apesar da raíz dessas dores estar fincada no corpo, no final das contas a mente, que encontra desprazer no endereço do prazer, termina abalada e também merece cuidado.

Em algumas mulheres, o ginecologista pode ainda perceber um  ponto gatilho — lá dentro, um nozinho muscular infeliz que vive de microespasmo em microespasmo e, mal é tocado, irradia a sensação de tortura. Imagine um dedo ou um pênis acertando ali em cheio— fim de festa. "Massageado devagar, esse ponto vai cedendo. Por isso, o primeiro tratamento é a fisioterapia", diz Lúcia Lara. "Só quando ela não dá certo é que apelamos para uma injeção anestésico no local."

Também existem mulheres que, durante a relação, até mesmo nas carícias, sentem a vulva queimar. Acendendo a chama podem existir doenças bem físicas, voltando às dispareunias — como uma candidíase de repetição, aquela que não larga e ressurge quatro vezes por ano ou mais para atanazar.  No entanto, sinto dizer, com a vulvudínia — nome dessa combustão espontânea na parte externa da genitália —,  o buraco é mais em cima: "Geralmente, há um forte componente psíquico, tanto que o problema costuma aparecer em mulheres deprimidas ou ansiosas", diz a professora. O arsenal médico, em episódios assim, inclui antidepressivos e até mesmo, quem diria, certos anticonvulsivos, tentando equilibrar as relações perigosas entre a vulva e a cabeça.

Por fim, há o vaginismo, quando o canal da vagina se contrai tanto que não permite a entrada de um único dedo mindinho, sem exagero. Imagine um pênis, quanta presunção! "Essa paciente invariavelmente tem um conflito psíquico profundo", explica Lúcia Lara, "Pode ter sido vítima de violência sexual na infância ou de estupro", diz ela. "Mas, não raro, esse conflito vem de situações como uma má primeira experiência na primeira relação, repressão religiosa ou familiar."

Ainda hoje, crescemos ouvindo que não podemos ter relações com qualquer um, que devemos esperar a pessoa certa — o que ninguém nos ensina é o raio da pessoa certa!  'Os tempos e os comportamentos mudaram, mas temos, impregnado no inconsciente, um culto à virgindade", opina a médica. Nas minhas palavras, a mulher pode transar muito, sem no fundo se livrar da culpa, pensando em seus subterrâneos  que está abrindo as pernas para as tais pessoas erradas. 

Piora tudo uma falta de uma educação sexual, diria,  com mais pingos nos ïs". "Quando pergunto para mulheres com dor como seria o hímen, elas com frequência o descrevem como uma pele grossa e fechada", conta a professora. Meninas, se fosse essa tampa hermética, como a menstruação desceria, me contem?! O fato é que, imaginando esse lacre intransponível, muitas estreiam no sexo esperando a dor. Ah, sim, tem mais essa, que vale para todas as situações doídas aqui descritas: nada dói mais do que o medo de sentir dor. Que não falte a coragem, então, de buscar ajuda.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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