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Radiação: será que você já se expôs demais pelos exames que fez na vida?

Lúcia Helena

26/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Ninguém vai ter a resposta para a pergunta acima — será que já me expus demais? Até porque seria preciso alguma tecnologia que somasse a radiação de todos os exames de imagem realizados na vida, desde aquela primeiríssima radiografia, quem sabe feita por causa de um tombo do berço.  E vamos deixar bem explicadinho logo de cara: que bom que esses exames existem! 

Sem eles, nosso corpo seria uma caixa escura hermeticamente fechada, sem que a gente enxergasse nada guardado ali — que poderia ser de um simples dente sem espaço para irromper e implorando por um aparelho a um tumor crescendo no mais traiçoeiro silêncio. Seríamos, enfim, o esconderijo de nós mesmos. Então, palmas às máquinas que irradiam e revelam o que guardamos no interior.

Irradiar é, de alguma maneira, ceder a sua energia — seja luz, seja calor, seja a bendita (ou maldita) radiação ionizante. E esse adjetivo, ionizante, significa de modo grosseiro bater em uma molécula e dar um sacolejão tão forte a ponto de um de seus elétrons — partículas orbitando tal qual estrelas ao redor do seu núcleo — , abalado, ser mandado ao raio que o parta, ejetado para longe. Se isso faz mal? Bem, os raios ultravioleta do sol são ionizantes de primeira. Então já sabe…

Mas vamos apelar para o bom senso: nem por isso nos trancamos em casa de janelas fechadas para ficar longe dessa radiação. Por outro lado, já conhecemos bem o que tende a acontecer, mais dia, menos dia, quando deixamos essa energia solar mexer demais com os elétrons nas células da pele. Se, em uma dessas, o  DNA se alterar — mandando, logo ele, um de seus elétrons para o espaço — , isso poderá servir de gatilho para o câncer. Sim, a radiação precisa de uma justa medida.

O parâmetro surgiu depois que, em 6 de agosto de 1945, lançaram a bomba atômica sobre Hiroshima. Estudando os sobreviventes nas redondezas da cidade japonesa, os cientistas descobriram que aqueles que tinham recebido uma dose de 100 milisieverts ou mais desenvolveram um câncer. "E essa relação entre a radiação e o aparecimento de tumores era absolutamente linear", me explicou o radiologista Hilton Leão, do Hospital do Coração, em São Paulo. "Isso quer dizer: quem foi exposto a 200 milisieverts teve um risco duas vezes maior e assim por diante."  Mas, evidentemente, não dá para comparar uma tomografia de abdômen, com seus de 3 a 10 milisieverts, a uma Hiroshima.

Em tempo: o sievert (sV) é a unidade usada para medir o impacto da radiação ionizante sobre os seres humanos. E a questão aqui é saber se, como reza o ditado, de grão em grão a galinha enche o papo. Ou se, melhor dizendo, de sievert em sievert o corpo acaba com um tumor. O próprio Hilton Leão é presidente da LatinSafe, organização não governamental que visa promover a proteção radiológica dos pacientes, educando o profissional de saúde a não sair pedindo exames à toa e incentivando que eles usem a menor dose possível para se obter uma boa visualização — o ótimo, neste tema, não é só inimigo do bom, mas da sua saúde também.  No entanto, o próprio Hilton Leão critica a ideia de que monitorar a exposição de cada um de nós ao longo da vida, algo que já está sendo bolado por aí, vá nos fazer alguma diferença — "talvez para estudos apenas", pondera. Eis a discussão do momento.

Hilton Leão assegura: "Não há qualquer evidência científica de que a radiação baixíssima emitida pelas tecnologias atuais possa nos causar danos".  Por quase teimosia —ah, teimosia, essa qualidade de um bom cientista —, pesquisadores do mundo inteiro testaram um modelo matemático, partindo do pressuposto de que, sim, essa radiação de exame em exame, uma vez acumulada, aumentaria o risco de câncer. "O aumento então, feitas essas contas hipotéticas, ficaria em torno de 0,6%. Ou seja, se todos nós apresentamos aproximadamente 21% de probabilidade de um tumor maligno, fazer uma tomografia computadorizada mal interferiria nisso e o benefício de alguém se submeter ao exame, conforme a situação, pode ser infinitamente superior", afirma o radiologista.  Segundo ele, o risco de atravessar uma rua nos Estados Unidos e morrer atropelado é  24 a 32 vezes maior. Aqui, com os nossos motoristas, nem sei como ficaria esse cálculo… Melhor fazer uma tomo, sem mudar de calçada.

Comparações à parte, há quem pense diferente. Apesar de reforçar o bem que os exames com radiação fazem e pisar em ovos para não causar pânico desnecessário, a radiologista Monica Bernardo, professora da PUC-SP em Sorocaba, lembra que há indícios de que os efeitos da radiação são de fato cumulativos. "A preocupação é uma questão de responsabilidade. Afinal, as crianças de hoje ultrapassarão os 100 anos. Não sabemos se, submetidas a um excesso de exames radiológicos desde cedo, elas não somarão defeitos no DNA capazes de culminar em doenças lá adiante. Pra que correr perigo?", questiona.

E não só de câncer.  Existem várias doenças degenerativas associadas à radiação. Uma delas? A catarata. "O cristalino é a lente interna que acaba protegendo o fundo dos olhos dos raios. Resultado: notamos uma incidência maior de casos em que essa lente foi se tornando opaca, sem deixar a luz passar — assim é a catarata —, em técnicos que realizam exames de imagem."  Voltando aos danos nos genes, a médica não descarta a hipótese de eles serem passados de pais para filhos. A estudar.

Já Hilton Leão não crê que seja exatamente desse jeito. "Nosso organismo tem mecanismos para consertar alterações no DNA, se é que essas alterações realmente acontecem com as baixas dosagens", diz ele. "Ele tem enzimas para isso e, se elas não resolvem o problema, a própria célula que persiste defeituosa acaba se suicidando, no fenômeno que chamamos de apoptose. Acho bizarro imaginar uma célula com defeito paradinha, esperando o dia de dar encrenca." 

Em um ponto, porém, todos concordam. É preciso, primeiro, evitar a exposição de crianças na medida do possível. "Suas células são imaturas e, portanto, bastante vulneráveis", justifica a professora Monica. Alguns tecidos, independentemente da idade, são bastante sensíveis também — ovários e mamas servem de exemplos. Entenda: a pior coisa, em algumas circunstâncias, é o que apelido de síndrome do já-que… Já que vamos ver o órgão "x", aproveitamos para ver tudo. E, pronto, dá-lhe mais radiação. Elétrons saltando feito pipocas.

Um aspecto fundamental: os médicos precisam ser bem treinados para não saírem solicitando exames sem o menor sentido. Quer ver? Pedir uma chapa por causa de uma sinusite quando a criança só tem uns 6 anos de idade é irradiá-la sem motivo. "Os seios da face se desenvolverão até os 10 anos. Antes disso, não se enxerga nada direito e o diagnóstico deve ser mesmo clínico." O pequeno bateu a cabeça? Idem. O exame de imagem só deve ser solicitado se houver algum sintoma neurológico após seis horas do acidente.

Um último exemplo comum: pedir uma tomografia na criança com suspeita de apendicite. "Ela não tem muita gordura dentro do abdômen e o tecido gorduroso é fundamental para a tomo distinguir os órgãos", descreve Hilton Leão. "Daí que, na criança com uma suspeita de apêndice inflamado, o certo é fazer um ultrassom", explica. Mas com adultos é exatamente o contrário: muitos médicos, querendo evitar a radiação da tomo, pedem a ultrassonografia quando, por causa da gordura já instalada até mesmo em gente esbelta, sua imagem não apontará o apêndice com nitidez. Resultado: diante do laudo duvidoso do ultrassom, prescreve-se a tomografia e, até lá, se perdeu tempo — e dinheiro.

Outra medida importante é treinar os técnicos para detalhes que fazem total diferença. "É essencial ajeitar a posição do paciente de tal modo que ele consiga, de fato, ficar sem mexer", ensina Monica Bernardo. Ora, se a pessoa se movimenta, é preciso refazer a imagem. Ou seja, bis na exposição aos raios. 

O técnico também deve acertar na dose. O problema é o seguinte: às vezes, na intenção de caprichar e obter uma imagem digna de prêmio de fotografia, ele regula o equipamento para um tantinho extra de radiação. "Não precisamos de nada bonito, mas de uma imagem em que consigamos enxergar eventuais alterações", declara Hilton Leão  Ou seja, se estiver ligeiramente chuviscada como a da tela de uma tevê das antigas, poderá cumprir seu papel do mesmo jeito. 

A necessidade de mais ou menos radiação, contudo, varia conforme o índice de massa corporal, ou IMC. Assim, a radiação indicada para se obter uma imagem de pessoas magras será insuficiente para detectar lesões em pessoas com obesidade — até nisso a obesidade pesa contra.

Mas quem mais precisa ser educado somos nós mesmos, que temos a mania de sair frustrados de qualquer consultório sem um pedido de exame. Deixar um pronto-socorro sem ter feito nem sequer uma chapa, então, para uns é sinônimo de mau atendimento.Isso precisa mudar. "Os  pais muitas vezes já chegam falando: estou aqui para meu filho fazer um raio X", diz a professora Monica, que desde 2009 batalha em campanhas de educação. "Muitos se espantam quando eu falo que pode haver um efeito cumulativo. Não tinham noção disso". 

É preciso acreditar no médico que não pede nada simplesmente porque não enxergará nada que um bom exame clínico já não tenha lhe soprado. E, no sentido oposto, no médico que insiste no exame, mesmo que você relate que, por causa de uma doença no passado, teve de fazer nem sei quantas tomografias ou radiografias. Precisamos irradiar uma dose a mais de confiança.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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