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Pra não dizer que eu não falei do sol bronzeando o períneo

Lúcia Helena

03/12/2019 04h00

Crédito: reprodução do Instagram @metaphysicalmeagan

Hora do banho de sol. Deite-se — deitou? Então, faça a pose da moça na foto: erga as duas pernas bem para o alto. Vai na fé, aperte a barriga que você consegue sustentá-las direitinho. Agora, com um pé aponte o leste. Daí estenda o outro pé para o oeste.  Opa, para tudo! Antes de arreganhar-se do lado errado, confira onde a luz está batendo, porque o objetivo é deixar o seu períneo e o que estiver logo acima e logo abaixo dele pegarem um bronze. Não há limites para o desvario.

Bem-vindo à era em que o sol arde e, nas redes sociais, falta a luz da ciência. Nela, menos de meia dúzia de influenciadores digitais nos Estados Unidos "prescrevem", entre aspas mesmo, banhos de sol no períneo.  E basta. A ideia viraliza feito um raio.

Megan, a metafísica, — é assim que a influenciadora de fiofó pro sol se autodenomina — postou a imagem acima e, não demorou 24 horas, ela já somava mais de 80 mil visualizações. Ra of Earth, em pelo e pelo visto (porque temos que ver cada coisa, não é mesmo?),  é outro influenciador americano do cacete. Digo, do sol no períneo. Só muda de página e de posição: ele prefere ficar de pé e levar as mãos ao chão, com o traseiro nu ganhando uma cor e ficando… energizado que fala?

A lista de supostos benefícios é longa. Todos atribuídos — espalham os peladões  — ao segredo que iluminados taoístas guardaram a sete chaves por séculos, resguardando sua intimidade de todos, menos do astro-rei. Megan diz que até dorme melhor, que o sol bem ali regula os seus hormônios, aumenta a sua criatividade, catapulta a sua energia sexual, ui…

Já Ra of Earth garante que o sol dizima os germes da região, ai, ai…  Ó, tomara que não, viu? Só pra lembrar, os tais germes não estão na região à toa. Caso contrário, seria uma furada e pelos seus orifícios passaria boi e boiada, bactérias e fungos nocivos absolutamente sem controle dos moradores pacíficos de sempre. Pode parar de ideia errada! Deixemos os bichinhos em paz.

O fato é que, feito aquelas asas de borboleta que batem em um canto da Terra ensolarada e provocam um terremoto no outro lado do mundo, a onda já chegou aqui. Alcançou até este blog, fiel depositário de dúvidas cruéis: funciona? Leve seu períneo à sombra: não.  

Mas já que leu até aqui, não saia sem esclarecer o que é períneo. Até porque o texto dos influenciadores cai em tudo o quanto é buraco. Misturam um deles, o anal, com o períneo, como se fossem uma coisa só. Furada de bola. Quer dizer, esse furo está de um lado e as bolas estão em outro, no caso dos homens. Nas moças, óbvio, o ânus continua e o vizinho de cima muda.

"O períneo é uma região anatômica que, nas mulheres, está entre o orifício anal e a porção final da vulva, que lembra uma letra 'v", onde fica a entrada da vagina", definiu o ginecologista César Eduardo Fernandes, a quem recorri, reunindo toda a vergonha alheia, depois de ver o post de Megan sobre a pedra e sob o sol. O médico é professor da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, e presidente da Febrasgo, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. 

Nesse campinho, o do períneo, o que existe é pele, diferentemente das nossas cavidades, que são revestidas de outro tecido, a mucosa. "É essa pele perineal que às vezes se esgarça durante o parto normal", descreve o professor Fernandes. Aliás, para evitar o acidente, os obstetras podem fazer um pequeno corte ali mesmo, no períneo, facilitando a saída do cabeção do bebê.

Como a pele de qualquer outra região — a entrada do seu ânus, por fora, também tem pele em vez de mucosa —, a do períneo pode em tese produzir a bendita vitamina D com o estímulo dos raios solares. E, sim, a influenciadora americana metida à metafísica tem aí uma pequenina razão: a vitamina D faz um bem danado à saúde, de dar um reforço aos ossos a prevenir certos tumores. Dentro do corpo, ela se comporta feito um hormônio, com um sem-número de funções benéficas, todas com evidências científicas, ao contrário do bronzeamento perineal.

"Mas o período em que a pessoa ficaria nessa posição esdrúxula é muito curto para a pele sintetizar a vitamina D", logo esclarece César Eduardo Fernandes, com paciência infinita, porque tudo nesta vida pode ser oportunidade para a gente aprender alguma coisinha boa pra valer, não é mesmo? "A pele precisa ser aquecida para começar a liberar a substância", continua nos ensinando, "e os 30 segundos preconizados por esses posts estão longe de serem suficientes."

Sim, apenas ínfimos 30 segundos, prega esse povo de bumbum para o sol, com os raios batendo direto no rabinho — e aí, de novo, nos posts eles confundem o ânus com as calças e com o períneo. Alegam que esse vapt-vupt sentindo calor na bacurinha equivaleria a tomar sol o dia inteiro, quando a gente sai por aí vestido. Olha, vou dizer a verdade: qualquer parte da sua pele produz vitamina D na mesmíssima quantidade. A quantidade, ficando um mesmo tempo sob os raios, é proporcional à área exposta. Portanto, área pequena por área pequena, mais vale empinar o nariz por ruas ensolaradas. Por mais de 30 segundos, bem entendido.

Aliás, Megan, Rá e seus amigos de pernas para o alto e corpão nu falam que a prática diária pode ser estentida por até 5 minutos, no máximo. Talvez essa duração, conforme o horário, não seja o suficiente para expor os seguidores influenciáveis ao perigo: o de um câncer de pele. Aproveito para lembrar que estamos em pleno Dezembro Laranja, campanha da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) para alertar sobre esses tumores, os mais incidentes entre nós. Ora, um em cada quatro casos de câncer no Brasil é de pele.

Daí que reuni mais uma vez toda a vergonha alheia  e procurei o coordenador da Dezembro Laranja na SBD, o dermatologista Elimar Gomes. Isso porque me lembrei de outra, pra fazer desse sol algo realmente capaz de aquecer os neurônios da cabeça: o melanoma, a mais terrível forma de câncer de pele, pode aparecer no períneo. 

"Na verdade, o melanoma pode aparecer em qualquer lugar da pele e das mucosas", ele me explicou. "E até mesmo aquelas áreas que não são expostas ao sol, como os genitais, podem apresentar lesões pigmentadas que são o primeiro sinal desse câncer", contou. Portanto, se eu fosse você, faria a pose de Megan diante do espelho, à caça de pintas ou manchas escuras. Não é tão raro o melanoma se esconder aí também.

Se bem que nem posso dizer para você não ficar 30 segundos sob o sol com medo desse câncer. A rigor, 30 segundos seria muito pouco para qualquer bem — produzir a vitamina D — e para quase qualquer mal. Quase. Em 30 segundos, dá para gravar um vídeo, fazer uma foto, postar. E passar vexame. 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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