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Sobre festas de Natal, promessas de Ano Novo e o câncer

Lúcia Helena

19/12/2019 04h00

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Escrevo algumas linhas. Apago. Duas ou três palavras. Risco. Apago de novo. Reescrevo. Penso: este texto deveria ser feito só de silêncios. 

Sem mais. Mas enfim…

Eu prometi que escreveria sobre amores e tumores, sobre promessas de Ano Novo quando as incertezas fazem a festa, sobre renascer e Natal e… E descubro que meu afeto, enchendo-me de vontade de cumprir o prometido, é infinitamente maior do que minha capacidade de escrever de um modo bom sobre o assunto. Bom, no sentido de as palavras, enfileiradas, serem alguma luzinha para seus leitores, feito as que enfeitam as noites de dezembro. Tento. Desisto. Tento. Elas piscam. Abro parágrafo para quem pode ajudar mais do que eu.

Procurei o Fabio Romano. Biólogo, a partir dessa primeira formação ele fez uma trajetória linda, que viajou até a Austrália para aprender terapias corporais, seguiu pelo estudo do estresse pós-traumático, passou pela Medicina comportamental na Universidade Federal de São Paulo, fez escala na Duke University, Estados Unidos, para ganhar experiência como coach de saúde e bem-estar  até, depois de outras tantas, voltar e se tornar líder do programa Survivorship do Einstein.

Essa iniciativa pioneira do hospital paulistano dá todo o suporte, graças a uma afinada equipe multidisciplinar, para quem enfrentou um tumor maligno, mesmo que não tenha se tratado ali. E, mal abre a boca — alívio… — , Fabio dá voz à minha dificuldade: "Precisamos ter humildade: não sabemos o que é estar nesse lugar da pessoa que tem ou que teve um câncer", me disse. Silenciosamente acato. 

"Podemos até imaginar o que é estar nesse lugar e entender o que está acontecendo apenas de um ponto de vista racional e lógico. Mas a vivência não é nossa", completa. Ponto. Aquieto. Penso então: o melhor presente de Natal e talvez a maior promessa de Ano Novo que podemos oferecer a um paciente oncológico (ou a um ex-paciente, que seja) é o tal espaço de escuta.  Mas… Mas, se ele for pra valer, nos arriscamos a ouvir um "neste ano, não quero agito, nem festa". Opa, já pensou? Será que bancamos esse presentaço, por mais bem intencionados que estejamos todos ao redor, pendurando enfeites na árvore e botando o peru para assar? No silêncio tudo cabe. Cabe o outro.

Aliás, Fabio Romano chama a atenção para o jeito desengonçado — "desengonçado" é palavra do meu teclado e não da boca dele, bem entendido — como lidamos com quem teve alta médica em casos assim. "A gente se esquece que o câncer cobrou várias demandas, e não apenas físicas. Que o tratamento e a própria doença terão consequências por um bom tempo, algumas para sempre. E que as sequelas psico-emocionais podem ser mais complicadas do que as orgânicas", diz, refrescando a nossa memória de que falar em superação pode ser bem bonito, mas na real superar nunca é moleza, nem acontece ligeiro como magia natalina.

Às vezes, a criatura simplesmente não se reconhece, até por uma questão de imagem mesmo. Ela ganhou ou perdeu muito peso na jornada. Uma cirurgia, para extrair o mal, terminou alterando o seu corpo. O cabelo cresceu, mas cresceu diferente. E — ponto importante para quem está por perto — o nível de energia pode estar lá no pé. "Com frequência, a família não entende. Se a pessoa está curada, por que ela não quer sair do seu canto?", observa Fabio. 

Parênteses: atenção, isso não faz de nenhum paciente que trava ou que travou suas batalhas de uma maneira mais risonha e animada  uma espécie de ser superior em relação a quem está sem tanto combustível no tanque físico ou emocional. A gente só está falando do que somos desde sempre — diferentes, ué! Cada um é cada um e cada um com seu cada qual, reagindo da melhor maneira como pode. Nem melhor, nem pior, tudo humano.

Até por essas de não se reconhecer, quem sente o câncer na própria carne tende a se isolar. "O círculo familiar ou de amigos durante a doença costuma se encolher, ficando muito pequeno", nota  Fabio Romano. Sair dessa bolha não é fácil. E lá vêm as Festas, feito alfinetes, querendo estourá-la na marra. Justo?

Claro, há também quem prefira comemorar muito e anseia que filhos, mulheres, maridos, namoridos, netos e companhia ilimitadíssima fiquem por perto, feito amáveis pares de meia.  Aliás, se existe um último recado de 2019 para quem sabe o que é ter um câncer seria este: "comunique aos outros, com clareza, aquilo que você realmente está a fim de fazer neste final de ano", é o conselho do Fabio Romano. Nada é tão primordial para as relações humanas, ainda mais depois de um baque, do que falar e escutar, escutar e falar. Cada um silenciando para ouvir o som do outro.

E, para todos,  vale reforçar algo mais óbvio do que contar que Papai Noel não existe: melhor sempre olhar para o agora. Passado é enrosco. "As pessoas caem na armadilha de procurar saber o que supostamente fizeram de errado para terem adoecido", observa o coach.  Perda de tempo, já que uns 70% dos cânceres, cá entre nós, não têm justificativa certeira a não ser a seguinte: a pessoa estava viva, portanto suas células estavam vivendo de boa e fazendo o que toda célula vivinha da silva faz, isto é, crescendo e se multiplicando até que… uma delas tropeçou, coisa talvez da idade. Acontece, viu?

No entanto, vamos reconhecer que fica, sim, aquele climão geral de réveillon, sabe como é,  de refletir sobre tudo — onde errei, onde acertei… Só que a culpa não leva a canto algum, só deixa a gente estagnado em vez de seguir. Ô, sentimento pesado feito grilhão!  "Não é caso de se perguntar por que tive um câncer, mas para que tive um câncer, o que levo de aprendizagem e oportunidade adiante", opina Fabio Romano. Eu aproveito e compartilho uma impressão: de uma maneira esquisita,  o câncer vence a guerra quando, mesmo que se sobreviva uns 100 anos, não surge um propósito.

Agora, pecado mesmo é usar o nome do amor em vão. Dizer  —feito um médico americano na crista da onda dos influenciadores — que as células malignas são umas mal amadas, que o doente com câncer foi egoísta demais, amou e se amou de menos, que se ele aprender a amar sairá dessa para sempre, aff... "Leviano propagar esse tipo de coisa", resume Fabio. Concordo. Olhar para o bem faz bem. Ser grato é maravilhoso. E cuidar da saúde, primordial — afinal, dormir direito, mexer o corpo, comer com equilíbrio é o que está em nossas mãos para afastar todo mal, porém sem os desejados 100% de garantia. Só esqueça que mágoas no peito fazem brotar tumores — pelo tal do amor, esqueça. Apagou essa história? Gratidão.

Também é pura bobagem querer enxergar o amanhã, naquelas de imaginar como será o ano que vem — o grande medo, em português claro, é o câncer avançar ou voltar. Assim, com o olhar perdido no futuro,  passam as estrelas-guias e os fogos, mas você nem os vê. Quando, com câncer ou sem câncer, tudo o que temos embaixo da árvore é o presente. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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