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O que você não deve fazer de jeito algum ao passar perrengue na praia

Lúcia Helena

26/12/2019 04h00

Crédito: Istock

Quando acontece qualquer tipo de acidente, de maior ou menor gravidade — na real, a máxima a seguir vale para sufocos de todos os tipos e em qualquer canto, não só com os pés na areia — , se você não sabe o que fazer simplesmente não faça nada. 

Parece ser uma enorme contradição quando a saúde está em jogo. Ora, a gente sabe que tudo aquilo que é feito nos instantes iniciais vai determinar o que acontecerá depois, seja em um mero machucado ou em uma situação muito, mas muito mais arriscada. Mas não dá para fazer nada quando  se está inseguro ou cambalendo. E, às vezes, os primeiros socorros são justamente chamar quem entende, nem que seja o resgate. 

As cinco ocorrências que listei aqui, porém, não são para tanto e, com um uma dose mínima de calma, diante delas você vai saber se virar sem piorar a situação. Para meu espanto, vi que já passei por todas elas e fiz besteira em quatro de cinco. Então, como dizem por aí, "deu ruim". E como é possível que você, pessoa sortuda, já esteja a caminho da praia, fui procurar o médico de família Rafael Herrera Ornelas, que coordena a Atenção Primária à Saúde no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. E aí, doutor, como a gente se vira em um perrengue desses?

Queimadura por água viva não se dá bem com água doce

Ela chegou no mar muito antes de nós nos atrevermos a nadar ali, a 650 milhões de anos. Pode ter de 2,5 centímetros a mais de 2 metros. O corpo, formado boa parte por água, é feito um gel que a gente nem costuma enxergar de tão transparente, cheio de tentáculos e com um orifício — só para sua curiosidade — que serve de boca e de ânus ao mesmo tempo.

Molenga desse jeito, a fim de capturar presas e sobreviver em vez de virar gelatina de sobremesa para qualquer outro ser marinho, espalham-se por sua superfície milhares de células capazes de liberar gotículas de substâncias tóxicas, cuja função é paralisar de dor tudo aquilo que agarra — ou que "chega chegando", encostando nela, fazendo-a se sentir ameaçada. Já imaginou o estrago quando o que rela em uma água-viva é a sua pele? 

"Não se trata bem de uma queimadura, como as pessoas dizem por aí. Mas entendo: a sensação de ardor extremo e a vermilhidão no local podem dar a impressão", explica Ornelas. Nos indivíduos mais sensíveis, aparecem até mesmo pequenas bolhas. Aí a gente deve lavar bem, certo? Certíssimo. Mas cuidado. É nessa hora que você bota os pés pelas mãos.

Erro 1: Pedir para alguém fazer um xixi básico para você jogar na lesão. Dizem que alivia… "Não há a menor evidência disso. Pode até deixar a pele mais irritada", afirma o doutor Ornelas. Acerto: Se quer mesmo jogar algo diferente, capaz de diminuir o ardor, que seja o vinagre. "Os componentes do vinagre puro de fato neutralizam as toxinas da água-viva", justifica o médico. Mas quem vai levar vinagre para o mar? Atenção, puro, hein!  Não vale esfregar aquele vinagrete da salada do farofeiro na barraca ao lado, peloamô!

Erro 2: Deduzir que o correto, então, é usar uma água limpinha e doce, se duvidar até aquela da garrafinha em que estava matando a sede, para lavar a região. Em contato com a água doce, as toxinas da água-viva multiplicam o seu poder de ação. Faz sentido, né? Se a água-viva estivesse sendo arrancada do seu habitat cheio de sal, isso seria uma mega-ameaça… Acerto: Pegar um pouco da própria água salgada do mar com um baldinho e ir lavando.

Erro 3: Às vezes você nem viu a água-viva que encostou em seu corpo durante o nado, mas ela deixa lembranças: pedacinhos dos seus tentáculos, feito partículas de gosma, em sua pele. Enquanto não tirar esses pedaços de água-viva grudados, o tormento não irá parar, faz sentido? Mas ai de quem botar a mão! Acerto: "Em vez de usar os dedos, para eles sairem queimados também, lave um palito de sorvete ou algo assim e use esse instrumento improvisado para, com delicadeza, tirar os pedaços da água-viva", ensina Ornelas.

E depois? "Depois o que ajuda é fazer compressas que podem ser tanto frias quanto mornas", responde o médico. Nesse dia, óbvio, saia do sol. Sua pele já está irritada nessa região e não vai reagir bem aos raios solares — aliás, nem ao filtro ou a qualquer loção que inventar de passar nela. "Só corra ao pronto-socorro se surgir algo direrente, indicando até mesmo uma reação alérgica", avisa Ornelas. "Por exemplo, se aparecerem placas vermelhas em outros cantos do corpo, dormência nos lábios, dificuldade para respirar ou enjoo."

Pisou no ouriço? Nada de água fria!

Se no meio daquele passeio à beira-mar você tiver o azar de pisar em um ouriço, vai saber o que é sofrimento de verdade. Suas centenas de espinhos afiados irão perfurar a pele sem dó nem piedade. E, como não bastasse a dor das inúmeras picadas, eles são revestidos de um veneno que, primeiro, tornará a área da lesão profundamente dolorosa. E, depois, se nada for feito, vai parar nos músculos e nas articulações, além de, às vezes, causar erupções na pele.

Erro 1: Esperar chegar em um médico para que ele faça alguma coisa. Acerto: "Deve-se pegar uma pinça e tirar, se não todos, o maior número de espinhos possível", diz Rafael Ornelas. Ora, se cada espinho tem veneno, quanto menos, menor a exposição.

Erro 2: Jogar água fria. Acerto: Derramar água  morna. "A temperatura quente diminui a presença do veneno", é a explicação do médico. "Um escalda-pés só com água aquecida ajuda", orienta. 

Erro 3: Esperar que o próprio corpo expulse os espinhos. Acerto: "Se não sairem todos, é para procurar um pronto-atendimento para completar o serviço", diz Ornelas.

Insolação: não basta beber água

Segundo Rafael Ornelas, ela é uma reação ao excesso de calor, quando o corpo não dá conta de se refriar e acaba superaquecido por causa da temperatura ambiente. Os sintomas são dores de cabeça, tontura, náusea e aumento da frequência cardíaca, principalmente.

Erro 1: Achar que é desidratação. As pessoas confundem as coisas, pensam que previnem ou se livram do problema tomando bastante água. Isso ajuda, claro, na medida em que o líquido é matéria-prima para o corpo produzir suor e se resfriar por meio dele. Mas não basta. Acerto: "O que precisamos fazer é diminuir a temperatura do corpo de qualquer jeito. Se for um caso leve, tirar a pessoa do sol e levá-la para uma sombra fresca — atenção, fresca! — o mais rápido possível e, ali mesmo, jogar água fria em sua cabeça", conta Rafael Ornelas. "Se der, o ideal mesmo seria levá-la para um banho de imersão com a água um pouco mais fria do que a temperatura do corpo", explica o médico de família.

Erro 2:  Desconfiar de uma insolação só quando o céu está azul e o sol, brilhando. Acerto: "Lembrar que o mormaço em um dia nublado pode ser extremamente quente e ficar esperto", diz Ornelas. Ah, bom avisar: em dias sem nuvens, tem gente que acha que a criancinha e o idoso — público mais vulnerável à insolação — estão protegidos do problema por causa do guarda-sol. Reforçando: a insolação tem a ver com sentir calor demais e não com tomar sol diretamente.

E depois?  Desmaio, confusão mental, dificuldade para respirar são exemplos de sinais de uma insolação grave e, se surgem,  não dá para perder tempo. "É preciso procurar o pronto-socorro imediamente para que, lá, eles abaixam a temperatura do corpo", determina o médico.

Se entrou areia nos olhos, não lave de qualquer jeito

Esfregar, só piora: os grãos, então, poderão fazer uma verdadeira esfoliação na superfície ocular. Mas vai agravar bastante, também, se você lavar os olhos de qualquer jeito. E, aí, não tem só a ver com o esfregar.

Erro 1:  Usar qualquer água. Raciocine: o olho já está cheio de microscópicas ranhuras feitas pela areia, que serão tremendas brechas para qualquer agente infeccioso oportuno. Outro equívoco: usar aquele soro fisiológico que estava ali, há dois séculos, na sua geladeira.  Acerto: "O ideal é fazer a lavagem com uma quantidade abundante de um soro fisiológico que você acabou de abrir", aponta Rafael Ornelas. Sim, se sobrar um pouco, pode guardar na geladeira, mas nunca por mais de 24 horas. No entanto, o certo, certo seria nem sobrar. Ora, não é para pingar o soro, mas para lavar os olhos sem economia. Não tem soro? "Então vá de água filtrada", diz Ornelas, dando a alternativa.

Erro 2:  Usar colírio descongestionante  Acerto: Saber que o olho costuma ficar vermelho depois do acidente. Isso é esperado e pode durar até 24 horas. "Colírios são remédios como quaisquer outros. Não dá para se automedicar, pode ser até bem perigoso", puxa as nossas orelhas o médico.

E depois? Assim como a vermelhidão, a sensação de que ainda há areia nos olhos pode persistir. Faz sentido: os grãos irritaram a córnea e seus pequenos arranhões vão incomodar como se eles ainda estivessem por ali, roçando na superfície. Só é preciso procurar um médico quando se percebe alterações na visão, mesmo que logo depois do acidente, ou se os sintomas não desaparecerem de um dia para o outro.

Se entrou água nos ouvidos, não coloque nada lá dentro

Você não vai enfiar nem cotonete, promete? "Isso só agrava a situação", garante Rafael Ornelas. "Toda a  água tende a sair espontaneamente", tranquiliza.

Erro 1:  Além do cotonete, colocar dentro dos ouvidos álcool ou remédios na base na auto-prescrição. Acerto: "Procure retificar os canais auditivos", ensina Ornelas. Bem, eu queria que você visse a minha cara ao ouvir isso: como assim, doutor???  Mas entendi que é simples: incline a cabeça para o lado onde está o ouvido cheio de líquido e puxe essa orelha bem para cima. Fique assim por alguns segundos. 

E depois?  Se, passado um dia, a água não sair por conta própria, nem com a ajuda da tal manobra de retificação, procure um otorrino. Claro, procure-o até antes, caso sinta que há perda auditiva ou se começar a sentir dor.

Eu sinceramente espero que você não precise de nada disso. Mas vai que…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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