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Risco de parada cardíaca é maior com o pé na jaca de férias e final de ano

Lúcia Helena

07/01/2020 04h00

iStock

Sabe aquela história de comer como se não houvesse amanhã, tomar uns drinques a mais só porque é tempo de festejar, dançar até o dia raiar e, ao acordar do avesso, culpar o amendoim? Pois a minha versão 2020 de "o gato subiu no telhado" é a seguinte: seu coração pode se engasgar com um punhado desses "amendoins".

Pior, ele pode parar.  Não, não sou eu querendo jogar um balde de água fria no seu verão. O alerta vem da própria Sociedade Brasileira de Cardiologia, a SBC,  preocupada com o aumento da mortalidade cardiovascular nesta época do ano. É tempo de praia, piscina e mais de 720 corridas por dia, quero dizer, corridas contra a morte de sujeitos que, por exemplo, tiveram uma parada cardíaca cumprindo aquela promessa de voltar a malhar feita em pleno réveillon — boa! —, só que pagando de gatões à beira-mar e se esquecendo dos 365 dias anteriores de puro corpo mole e sedentarismo. 

"A cada minuto sem ser socorrido direito, o indivíduo que sofreu uma parada cardíaca perde 10% de probabilidade de sobreviver", avisa o cardiologista Sergio Timerman, coordenador do Comitê de Treinamento em Emergências Cardiovasculares da SBC. Tem mais essa, né? Ninguém passa férias ao lado de um pronto-socorro.

O fato é que a pessoa pode se sentir animada ao arrumar as malas, mas às vezes ignora o coração que está levando para passear. "Não vou nem falar daqueles que tiveram um infarto ou outro problema no passado. Esses, cá entre nós, já costumam ficar mais ligados. Os maiores sustos, talvez, aconteçam com os outros, isto é, com aqueles que, até então, nunca sofreram nada", nota o médico. 

Nunca tiveram nada, mas carregam a bordo uma placa miserável(zinha) na artéria, uma hipertensão(zinha), um açúcar(zinho) a mais no sangue, fora aquele estresse (escondidinho) embaixo do tapete. Aí, basta um empurrão(zinho). Haja coração! "Várias situações comuns nessa época do ano podem desencadear reações fisiológicas que servem de gatilho para um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral", diz Sergio Timerman. 

Sai ano, entra ano, é a mesma história em seu consultório: "Muitas pessoas agem como se o mundo fosse acabar", observa. "Elas vêm praticamente em busca de um atestado para o exagero nas férias, como se relaxar fosse sinônimo de viver o mais intensamente possível." Nem é preciso ir tão longe. Tem gente que dá azar chamando jaca de pantufa só de vez em quando. Por sarcasmo, o peito fulminado pode ser de alguém que passou o ano inteiro buscando o equilíbrio à mesa. Mas diante de tanto tender, peru, leitoa, salpicão e sei lá mais o quê — hmmm, aquela mesa de sobremesas piscando …— resolveu chutar o pau da barraca. Contrariando o senso comum, às vezes é o "só hoje" que mata.

"Claro que não foi o arroz com passas que provocou o infarto, nem a fatia de pernil", esclarece Timerman. "O que faz mal é a mudança brusca no padrão alimentar." Afinal, o sistema cardiovascular é feito aquele cidadão pacato que adora levar sua vida de sempre. Encher a pança, assim de repente, requer um enorme esforço da circulação para direcionar mais sangue para os órgãos empanturrados com uma quantidade de gordura com a qual não estão habituados.

Imagino o leitor engraçadinho que irá comentar: "ah, então vou me esbaldar o ano inteiro." Não é uma boa pedida: exagerar sempre é só trocar a pronta-entrega de encrenca por uma encomenda da mesma. Ainda mais se a comilança vem com sódio extra  —  sobe a pressão! —, regada a álcool. "A bebida, em excesso, aumentará a frequência cardíaca", explica Timerman.

Mas o perigo não está só na mesa da ceia, no bar da piscina e no cardápio da barraca da praia. O cardiologista lembra de outros empurrões que seu coração pode levar. Um deles, o estresse. "Para uns, essa é uma época festiva. Outros, porém,  ficam emocionalmente abalados. E existem aqueles que guardam, por algum motivo, uma tremenda ansiedade pensando em como serão os próximos doze meses", diz Timerman. 

Em relação ao atleta de resort, ele não é diferente do atleta de final de semana: mal condicionado, pode colocar a vida em risco por bobeira. Mas, mesmo entre os que treinam corriqueiramente, existe a ameaça do clima, se inventarem de fazer exercício sob o sol escaldante sem terem esse costume. "O problema não é o calor, mas os extremos de temperatura com os quais o corpo, de novo, não está habituado", conta Timerman.

Se o termômetro vai às alturas, os vasos se dilatam e, na tentativa de compensar e manter a pressão em equilíbrio, a frequência cardíaca aumenta enquanto o sangue fica mais espesso. Acredite, pode não ser uma boa… No sentido oposto, o peito de quem vive em um país ensolarado pode se ressentir em lugares gelados.  "Estudos feitos no Leste Europeu mostram que, por lá, as mortes por doença cardiovascular aumentam quando há ondas de calor. Pudera, todo o sistema circulatório das pessoas dessa região está acostumado com o frio." Volto a bater na tecla: o problema é o esforço de adaptação.

Viagens longas — leia-se, acima de seis horas — também podem ser a gota d'água. No caso, principalmente por causa da imobilidade, que favorece trombos. "O alerta vale para viagens terrestres, mas em avião a situação é até pior", diz Sergio Timerman. Ele próprio, na véspera de pegar um voo mais longo, adota uma dieta leve e, durante a viagem, praticamente não come, nem toma álcool."Bebo apenas muita água. O líquido nos obriga a movimentar o corpo para ir ao banheiro", justifica.

Jet leg? Outro perrengue. "A mudança de fuso horário mexe com o sono,  com a digestão dos alimentos e até com a pressão arterial. É um estresse metabólico tremendo e, se o organismo não souber lidar com ele, o sistema cardiovascular poderá sofrer", explica.

Como, nas férias, achar socorro é mais complicado, o número de mortes tende a aumentar. "Por isso é tão importante que as pessoas saibam o que fazer em uma hora dessas", defende o cardiologista. Na SBC, Sergio Timerman é um dos criadores do TECA (Treinamento em Emergências Cardiovasculares). Qualquer pessoa de qualquer região do país pode entrar do site da sociedade e para descobrir como fazer o TECA para leigos. 

"Existem cinco elos no que chamamos a corrente da sobrevivência e os três primeiros estão nas mãos de pessoas leigas", diz Timerman. "O primeiro é reconhecer a emergência e chamar o socorro. O segundo é fazer uma massagem cardíaca direito e o terceiro é saber realizar a desfibrilação. Ou seja, usar a corrente elétrica para o coração voltar a bater", conta Timerman. Bem, só de ouvi-lo, fico achando que passar pelo treinamento é quase tão importante quanto cuidar da reserva do hotel. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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