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Biomassa de banana verde prova que é ótima para quem tem diabetes tipo 2

Lúcia Helena

09/01/2020 04h00

iStock

Aliás, a pasta feita com a banana que ainda não amadureceu é ótima para quem tem pré-diabetes também — ou seja, quem está quase lá. A confirmação vem de uma pesquisa brasileira, publicada no prestigiado British Journal of Nutrition, liderada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, ao lado cientistas da Universidade de Santo Amaro (UNISA) e da Universidade de São Paulo.

O estudo contou com a participação de 142 indivíduos de meia-idade, homens e mulheres, com pré-diabetes ou já com diabetes tipo 2 pra valer. Logo no início, os pesquisadores analisaram diversos parâmetros bioquímicos, os padrões alimentares e, claro, a composição corporal de cada um deles. No entanto, eles foram divididos em dois grupos de maneira aleatória, isto é, sem nenhum viés para favorecer esse ou aquele lado no resultado.

Durante o período seis meses, essas receberam orientação sobre como deveriam se alimentar e foram acompanhadas por nutricionistas. Mas apenas parte delas levou para casa um presente especial: um pacote de biomassa de banana, que deveria ficar guardado na geladeira. A prescrição era para que esse grupo consumisse 40 gramas do produto diariamente, algo equivalente a 2 colheres de sopa. O segredo dessa porção tem nome: amido resistente, em uma quantidade bem significativa, cerca de 4 ou 5 gramas. Embora a biomassa de banana verde seja rica em potássio, manganês, iodo, zinco, ácido fólico e outras integrantes do famoso complexo B, sem contar vitamina C e um bocado de fibras, é essa forma de amido que faz sua fama. Diria que ele é uma molécula anarquista. 

Apesar de ser amido — portanto, um carboidrato —, ele se recusa a ser digerido como tal e ser convertido em glicose no sangue. Resiste bravamente, daí seu nome. E, desse jeito, age feito uma fibra. Em outras palavras, não é absorvido. Com isso, ao cair na barriga, a saciedade aumenta porque o esvaziamento gástrico acontece muito devagar. A glicose da refeição, consequentemente, vai caindo em conta-gotas na corrente sanguínea e, nessa cadeia positiva, a secreção da insulina melhora, uma vez que o pâncreas consegue dar conta de produzir esse hormônio sem atropelos. 

O interessante é que a biomassa de banana verde virou uma revelação entre nós, se a gente pensar, muito recentemente, praticamente anteontem por assim dizer, em 1996. Foi quando aconteceu um roubo na fazenda de Heloísa de Freitas Valle, no Vale do Ribeira, interior paulista. A despensa ficou completamente vazia. Heloísa, que tinha se tornado uma das primeiras mulheres bananicultoras da região — aliás, a primeiríssima a comandar uma cooperativa de plantadores de banana — não se apertou e pediu que lhe trouxessem um cacho da fruta. Ele, porém, chegou completamente verde.

Heloísa não se fez de rogada de novo e cozinhou a banana todinha, até obter um creme, com o qual fez uma sopa. Notou que a refeição parecia segurar a fome por horas e horas e então, conversando com um amigo, químico e professor universitário, ouviu falar do bendito amido resistente. Não sossegou mais e fez da banana sua bandeira verde e amarela — mais verde, no caso — criando um projeto para incentivar a produção e o consumo da biomassa.

Ela nada mais é do que a polpa cozinha e passada pelo processador. Sem deixar gosto residual, pode entrar como espessante em sopas, sucos e outras receitas e hoje nem precisa ser feita na própria cozinha. Diversos empórios vendem biomassa de banana verde pronta para consumo. A vantagem é que de até 21,5% de sua composição pode ser puro amido resistente e há um nadinha de acúcar, de 0,1 a 0,2%. Uma covardia comparar esses números com os da banana madura, que tem no máximo 2% do tal amido e uma quantidade de açúcar considerável, próxima dos 19%.

"Por ter muito amido resistente, a biomassa da banana verde colabora para reduzir o que chamamos de glicemia pós-prandial, a glicose que se encontra no sangue logo após uma refeição, além de prevenir tanto as quedas bruscas, ou hipoglicemias, quanto os picos desse açúcar", enumera a cardiologista Maria Cristina Izar, professora da Unifesp e coordenadora da pesquisa que foi publicada pelos britânicos.Não acaba por aí: o amido resistente acaba sendo fermentado por bactérias que habitam o intestino grosso. Nessa fermentação, surgem moléculas muito interessantes, quimicamente conhecidas por ácidos graxos de cadeia curta, que desempenham ações anti-inflamatórias, ativam o sistema de defesa e protegem as paredes intestinais de substâncias tóxicas.

Apesar de tantas qualidades, segundo a professora Maria Cristina Izar, "faltava ïnvestigar a eficácia do amido resistente a longo prazo em pacientes com pré-diabetes e diabetes tipo 2." E foi o que ela e seus colegas fizeram: compararam o que acontecia com a glicose em jejum e a composição corporal dos participantes antes e depois do semestre com a suplementação da biomassa de banana verde. "Os resultados mostram que o amido resistente que ela oferece é uma excelente opção para esses pacientes", garante.

Pudera. No grupo que seguiu uma alimentação muito bem orientada, mas com a suplementação da biomassa, os cientistas notaram uma boa redução da glicemia, da hipertensão, do peso e do índice de massa corpórea, da porcentagem de massa de gordura especificamente, aumentando a proporção da massa magra, além de uma diminuição na medida da circunferência abdominal. Ah, importante dizer que não houve muita diferença de resultado entre diabéticos e pré-diabéticos — para ser uma boa para todos. Enquanto isso, a turma que apenas seguiu a dieta perdeu barriga também e viu cair as taxas do colesterol, mas ficou principalmente nisso. Ponto para o time da banana verde. Podemos dizer que ele ganhou de lavada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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