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Alimentos feitos para público infantil deveriam ser proibidos para menores

Lúcia Helena

21/01/2020 04h00

iStock

Ter embalagem chamativa, estampada com ilustrações de animais ou personagens de ficção, com jogos, brindes ou brincadeiras, letras coloridas, frases no diminutivo ou que explicitamente recomendavam o consumo pelas crianças —estas características faziam produtos encontrados nos supermercados de Itajaí, em Santa Catarina, irem parar no carrinho de compras de duas pesquisadoras. Afinal, qualidades assim deixavam claro que apetite pretendiam abrir: o da meninada.

Com esse critério, a nutricionista Sandra Soares Melo, professora da Universidade do Vale do Itajaí, a Univali, e sua então aluna, a também nutricionista Dafiny Jacinto Souza, levaram 102 produtos para casa. Quer dizer, para o laboratório. Não esqueceram nas gôndolas nenhum snack sequer, nem biscoito, achocolatado, suco, bolinho pronto, refri, produto lácteo —nada, nadinha mesmo que parecesse uma comida ou uma bebida destinada, de preferência, ao público infantil.  Nas 14 classes que carregaram em suas sacolas de compras, fizeram questão de adquirir absolutamente todas as marcas disponíveis, mas escolheram de maneira aleatória um sabor apenas de cada produto.

Feito esse imenso supermercado, observaram 26 quesitos nas embalagens para os quais havia legislação e, diga-se, 89% delas exibiam tudo direitinho, cada informação no seu devido lugar. Foram 2.364 análises minuciosas e, claro, a tabela nutricional não poderia ficar de fora. E ali, em suas letras e números, se escondia o perigo. Fico pensando: existem por aí alimentos e bebidas destinados a crianças que deveriam simplesmente ser proibidos para menores.

As pesquisadoras avaliaram os teores de sódio, de açúcar e de gorduras de toda a gigantesca amostra, considerando as informações do fabricante, aquelas que, em tese, qualquer um poderia ler na embalagem. Porque estavam bem ali, diante dos olhos de todos, calculadas para porções de 100 gramas ou 100 mililitros, conforme determina a Anvisa. Nada menos do que 55% dos produtos tinham uma quantidade elevada de um ou mais desses nutrientes, isto é, maior do que a recomendação diária para gente grande e saudável.

"Destes, se olharmos só para o açúcar simples, que é aquele de cozinha, também conhecido por sacarose, 32,5% dos produtos ultrapassavam a recomendação", conta a professora Sandra Soares Melo, preocupada. E tem motivo para franzir o cenho, já que a situação pode até ser pior. Isso porque pouco menos de metade das marcas declaravam a quantidade de açúcar simples que continha. Como esse não era um item obrigatório no rótulo quando começaram as análises, no final de 2017, vai saber o quanto de sacarose não havia no resto!

O estudo aponta, ainda, que a média de açúcares em geral nesses produtos alimentícios estava 187% acima do recomendado. Se parece uma montanha, vou fazer então a seguinte comparação: isso ainda é um Pão de Açúcar perto de um Everest. Ora, os 187% se baseiam nas tabelas nutricionais e, pra variar, tabelas nutricionais de qualquer alimento ou bebida são baseadas na dieta de alguém que consome 2.000 calorias diárias e pesa uns 70 quilos. Ou seja, é de um adulto que estão falando. E esta é outra informação que fica ali, com todas as letras — mas quem repara? Esta aí um detalhe no qual, na minha opinião, os pais precisam ser alertados, se querem aprender a ler rótulo.

Veja o tamanhão da encrenca: aquela quantidade de açúcar 187% acima do recomendado para um sujeito já crescido e criado representa algo entre 271,7% e 844,4% do recomendado pela pirâmide alimentar infantil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). "Essa faixa de 200 e poucos para mais de 800% ocorre porque a necessidade da criança muda conforme ela cresce", justifica a professora, que soma 23 anos de experiência em nutrição materno-infantil e é também nutricionista clínica da Nutrigene, em Florianópolis.  Vale lembrar que o trabalho foi concluído antes de sair o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos. O documento é taxativo: nada de açúcar até essa idade, bebê.

Para as crianças mais velhas, pré-escolares a escolares, a SBP indica 14 gramas ou, no máximo 1 colher de sopa de açúcar refinado ao longo do dia inteiro. "Em relação a óleos e gorduras, o limite seria de 1 colher de sobremesa ou 5 gramas", diz a professora Sandra. "Só que os produtos avaliados chegavam superar entre 20% e 197% essa recomendação na porção de 100 gramas", revela.

Neste semestre, a professora deve publicar a continuação desse trabalho, em que observa o padrão alimentar de crianças e o quanto esses produtos fazem parte da sua dieta. "Nem preciso dizer que estão presentes até demais, preciso?", pergunta. Por meio deles, há um excesso de consumo até de nutrientes que são queridinhos de mamães zelosas: "O enriquecimento desses produtos com vitaminas e sais minerais, que pode ser uma questão de puro marketing, faz com que a recomendação para eles seja frequentemente superada também."

Seja uma vitamina em excesso, seja um aditivo sem grandes predicativos, como os palavrões da química diluídos no corpo de refrigerante, os adultos devem se lembrar que a fisiologia do organismo infantil é outra. "Os rins têm três vezes menos capacidade de filtrar", chama a atenção a professora Sandra. Ou seja, consumir tudo em excesso, além do risco de obesidade, é forçar essa maquinaria. 

As soluções passam pelo governo e pela indústria, sem dúvida. Se bem que, não se engane, por mais que ela reduza açúcar, nunca vai chegar àquela colher de sopa. Daí que o caminho, repetindo o que ouvi da Sandra Soares Melo, é tentar descascar mais do que desembalar. E, completo, lembrar que tabela nutricional fala de gente grande, ao pé de letra. Se o produto é para crianças, o que está ali pode ser um estouro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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