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Bebidas cafeinadas ajudam o sistema imune a criar teias contra bactérias

Lúcia Helena

28/01/2020 04h00

iStock

"Tome um cafezinho e arme uma armadilha", sugere a bióloga e geneticista Ivana Beatrice da Cruz, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, para o título deste texto. "Parece ser uma boa metáfora para o que ocorre em nosso organismo", diz ela. E que bela arapuca para bactérias uma xícara fumegante de café recém-coado não nos ajuda a criar! A pesquisadora se refere a um dos capítulos mais recentes — e palpitantes — da imunologia. Será que você já ouviu falar das armadilhas extracelulares de neutrófilos? 

Pois essa é uma daquelas histórias encantadoras da ciência. E que pode ter um final feliz no bule de casa, na chávena — sim, o time de cientistas da UFSM também observou ótimos efeitos no chá preto e no verde —, na cuia do chimarrão feito da nossa erva-mate e na bebida à base de guaraná consumida por nativos amazonenses.

O trabalho, que também contou a participação de cientistas das universidades federais de Sergipe e do Amazonas, acaba de ser publicado na Food and Chemical Toxicology.  Encha a sua xícara e ouça. Valerá cada gole — de conhecimento e de sua bebida cafeinada favorita.

Todos nós somos um pouco Homem Aranha

As tais armadilhas vêm sendo chamadas de NETs, de neutrophills extracellular traps em inglês. "Até algum tempo atrás, sabíamos que determinados integrantes do sistema imune, os neutrófilos, ajudavam a combater bactérias, por exemplo, por meio do que chamamos de fagocitose", começa a contar a professora Ivana. A expressão suscita as aulas de biologia na escola, quando aprendemos que algumas células de defesa se aproximam do inimigo e simplesmente o engolem, destruindo-o sem dó e cuspindo os seus destroços. Há alguns anos, porém, revelou-se que os neutrófilos não matam estranhos só dessa maneira.

Diante de bactérias ou até mesmo de outros micro-organismos causadores de doenças — pode incluir, ainda, aquelas células que se tornaram defeituosas, capazes de originar tumores —, os neutrófilos agem em grupo, ficam bem próximos uns dos outros e lançam para fora um pedaço de DNA cheio de proteínas, formando uma teia. Ela até lembra a da aranha, aprisionando o inimigo. 

"A descoberta vem revolucionando o conceito de como funciona o sistema imune frente a células cancerosas e a bactérias", diz a geneticista. Por isso, ela e seus colegas não resistiram à ideia de testar se determinadas bebidas não aumentariam a eficiência da produção de NETs.

"Como já tínhamos vários estudos com o guaraná, cogitamos avaliar o seu efeito. Mas logo pensamos que existem outras bebidas igualmente ricas em cafeína e catequinas que são até mais consumidas no mundo inteiro. Então, resolvemos incluir o café, o chá verde, o chá preto e a erva-mate", relembra a professora Ivana. 

Bebida caseira

O mais bacana, na minha opinião, foi que os cientistas não usaram nenhum extrato feito a partir desses ingredientes, algo com sabor intragável de laboratório. Nada disso: para os testes, eles reproduziram o modo como essas bebidas são preparadas na minha ou na sua casa, com água quente a 90 graus Celsius por alguns minutos.

As bebidas cafeinadas já são investigadas por Ivana da Cruz e seu time há cerca de cinco anos. Seu laboratório da UFSM é um dos mais prestigiados no país — aliás, no mundo — no estudo do que poderia acelerar ou desacelerar o envelhecimento. E, pisando no acelerador — advinhe! — está o estresse nosso de todo dia. "Ele aumenta os níveis de cortisol, hormônio que age diretamente sobre o sistema imune", explica a cientista. "O organismo se torna suscetível a infecções oportunistas. A pessoa fica gripada, com surtos de herpes ou com infecções bacterianas em geral, como as que causam dores de garganta e cistites."

Outro efeito do cortisol é gerar mais radicais livres, que aumentam resíduos comparáveis a lixo nas células. Como não dão conta de descartá-lo, isso ativa  mecanismos de inflamação. E o que se sabia até então é que determinados itens da dieta, como as bebidas cafeinadas, eram capazes de diminuir esse estado inflamatório provocado pelo lixo do estresse cotidiano.

Entretanto, como a vida estressante age na intimidade do corpo para provocar infecções recorrentes, ah, isso é bem menos conhecido… Daí não custava pagar pra ver se cafezinho e companhia não dariam uma forcinha. Assim, os cientistas brasileiros logo ficaram com minhocas na cabeça.

Os testes em minhocas e em células humanas

Eu sei, é esquisito imaginar que o nosso nobre sistema imune seja estudado pela observação de uma minhoca mixuruca, como a Eisenia fetida. Mas ela é bem útil, sim. "Engana-se quem pensa que é fácil trabalhar com o sistema imunológico de animais como ratos de laboratório", ensina a professora Ivana. "Já as minhocas são excelentes, porque vivem engolindo terra, a qual tem uma grande quantidade de bactérias." 

As células de defesa desses animais se concentram na cavidade que equivaleria à nossa barriga. E, quando ficam em contato com substâncias irritantes feito o éter, as minhocas passam mal liberando um líquido carregado dessas células defensoras. Expostas a microorganismos, elas agem feito neutrófilos humanos: formam teias. Portanto, quer bichinho melhor para convidar para um café?

Os pesquisadores deixaram as minhocas em papel filtro com água por 24 horas, para limpar qualquer grãozinho de terra em seu interior.  Após essa lavagem intestinal, elas passaram mais 24 horas sobre o papel filtro, desta vez impregnado com uma das bebidas testadas. O passo seguinte foi usar o éter para extrair as células imunológicas. E, finalmente, elas ficaram em contato com leveduras de cerveja. Não são bactérias, mas servem para deduzir o que fariam diante delas. Não deu em outra: "Nas minhocas tratadas com as bebidas, a formação de NETs foi muito, mas muito maior", diz a professora Ivana.

Como não seria nada legal infectar uma pessoa para checar se algo semelhante aconteceria com seus neutrófilos após uma xícara de chá ou de café, a saída foi colher o sangue de voluntários saudáveis e, de novo, expor as células de defesa a leveduras. Mas apenas parte delas  ficou um tempo embebida em cafezinho, chá-mate e afins. E, nessas, as teias também se formaram em um zás-trás.

No dia a dia

"Qualquer uma dessas bebidas aumenta a eficiência dos neutrófilos para produzir suas armadilhas", assegura Ivana da Cruz, quando eu pergunto se uma delas foi mais interessante do que outra. Cá entre nós, o chá verde e o chimarrão se saíram ligeiramente melhor, mas a diferença foi mínima.

"A moral da história é que, quando tomamos aquele cafezinho, além de nos deixar mais alertas, ele nos ajuda a lutar contra micro-organismos." Consumidas sem exagero — no caso do café, fique em umas quatro xícaras pequenas por dia, no máximo —, mas regularmente, essas bebidas criam o que a ciência apelida de reserva imunológica. Isto é, deixam as células imunes de prontidão para formar NETs ligeiro.

Nas doenças auto-imunes

O mesmo grupo de pesquisadores deve iniciar em breve estudos para analisar o efeito das bebidas cafeinadas em quem tem problemas justamente por causa dessas teias, produzindo-as demais ou usando-as para enroscar células normais. Sim, recentemente se provou que essas armadilhas são usadas contra nós mesmos em males como a esclerose múltipla. "Mas suspeitamos que essas bebidas incentivem os neutrófilos a enredarem só quem eles devem atacar e não os tecidos sadios do próprio corpo", diz a geneticista. Tomara! Se for assim, será mais um brinde à ciência brasileira, com chá, café, erva-mate ou guaraná.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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