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A última do ovo: comer um por dia não faz mal algum ao coração

Lúcia Helena

11/02/2020 04h00

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Não sei nada sobre encontros fortuitos de gemas com claras, nem sei fazer piada com o ovo. Vejo muito mais graça no sobe-e-desce da reputação desse alimento — ou será que fico rindo de nervoso quando preciso me desmentir outra vez e mais outra vez? O fato é que ele não tem um pingo de sossego desde 1913. Nem quem acompanha seus altos e baixos, essa mídia branca e amarela (eu, eu, eu!). Pois é… Há 107 anos,  o ovo vive levando pancada de uns e sendo defendido com unhas e dentes por outros, sem sair do centro das frigideiras nem da berlinda. 

Lá atrás, o primeiro a ser do contra foi um russo, o patologista Nicolai Anichkov (1885-1964), que, precisamos reconhecer, teve um enorme mérito. Afinal, foi ele quem demonstrou, ainda no início do século passado, que o colesterol era a matéria-prima das famigeradas placas que entupiam as artérias. Ponto para a Rússia.

Mas talvez o médico tenha metido os pés pelas mãos ao fazer coelhos de cobaias, alimentando os bichos com porções nababescas de gemas e óleo até cairem doentes ou mortinhos da silva. Detalhe: coelhos são péssimos para esse tipo de experiência porque formam placas nos vasos com facilidade absurda. Mas Anichkov, então, não quis nem saber e ergueu o dedo em riste para o ovo, com seus cerca de 180 miligramas de colesterol por unidade, um pouco mais do que a metade do atual limite nosso de cada dia, que seria uns 300 miligramas. Daí começou o quiproquó, pra não dizer a montanha-russa que você conhece bem — pode, não pode, pode de novo.

"Vivo brincando, o ovo está no tronco! Ou… ele voltou para o trono!", fala, rindo solto, a nutricionista Marcia Regina Vitolo, da consultoria MR Vitolo, que também é pesquisadora e professora de pós-graduação da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. "Tem hora em que ele é crucificado, tem hora em que ele é absolvido", diz. "Mas não acho certo quando se culpa um único alimento por determinado problema de saúde, quando na realidade sempre existem diversos fatores por trás de qualquer doença crônica, dos genes ao contexto do consumo." Nem eu acho correto. E nenhuma outra comida acabou tão feita de Cristo. Nenhuma. Pelo menos, por tanto tempo.

Agora, porém, a coisa pode mudar de figura: acaba de sair do forno um estudo com 177 mil pessoas, número pra lá de expressivo. E, para melhorar, o artigo é assinado por alguns dos mais renomados especialistas em coração de 50 países espalhados pelos seis continentes, incluindo povos mais ricos e menos favorecidos. Aí, modo de dizer, ninguém pode acusar que o resultado foi por causa do bacon ou da falta dele ao lado do ovo no prato, por exemplo, já que foram envolvidas pessoas com culturas, paladares e hábitos bem diversos.

Nas conclusões, os autores fazem coro, entre eles o cardiologista brasileiro Alvaro Avezum, do Instituto Dante Pazzanese em São Paulo: para a população em geral, comer um ovo por dia não está associado ao risco de ter infarto, derrame nem qualquer outro piripaque cardiovascular, muito menos morrer por causa disso. Esqueça esse medo. Fim de papo? 

Os pesquisadores juntaram dados de três consagrados estudos na área da cardiologia, nos quais os pacientes foram acompanhados por um bom período, sendo registrados seus problemas de saúde. Os participantes também declararam quantos ovos comiam toda semana, claro. 

Desse modo, os cientistas constataram que não fazia a mínima diferença consumir apenas um ovo semanalmente, talvez nem isso, ou comer até uma unidade por dia. Em matéria de gorduras circulando no sangue, surgimento de doenças cardiovasculares com o avançar da idade e mortes por causa delas, deu na mesma. Ou seja, tanto fez fechar a boca para os ovos ou comer unzinho por dia. Portanto, azar de quem, preocupado à toa com o colesterol, riscou o alimento no menu.

"Existiam dados anteriores apontando para essa mesma direção e agora, com essa grande revisão sistemática, fica mais fácil entender que não há motivo para fazer restrição ao consumo ocasional ou até mesmo diário de ovos", afirma um dos maiores cientistas brasileiros quando o assunto é alimentação, o nutrólogo Mauro Fisberg, professor da Universidade Federal de São Paulo. 

O achado valeria inclusive para o cardápio das crianças —  até um ovo por dia, maravilha.  Item da cesta básica do brasileiro, ele é uma fonte bastante adequada de proteína animal, além de oferecer um bocado de vitaminas e minerais.  "A exceção são aquelas pessoas que já teriam dislipidemias intensas", adverte Fisberg, referindo-se a taxas de colesterol no sangue alcançando a estratosfera. 

E é isso: quando os cientistas desse novíssimo estudo afirmam que um ovo por dia não causa qualquer encrenca, eles se dirigem a pessoas saudáveis que passam bem, obrigada, sem reclamar do peito, nem das gorduras na circulação. No caso delas, o consumo diário de uma única unidade não altera o resultado do check-up, por assim dizer.

Oferecida por um trabalho que, afinal de contas, analisou informações de milhares e milhares de pessoas de vários cantos do mundo,  essa garantia tira os nutricionistas de uma saia justa, que seria dar resposta a uma pergunta clássica nos consultórios: quantos ovos a gente pode comer por semana? "Nós então sugeríamos dois ou três repetindo um clichê.  Ora, nunca houve evidência científica de que essa seria a quantidade ideal, mas era um jeito de nos comprometermos menos", esclarece Marcia Vitolo com sua habitual transparência.

Da mesma maneira como existem pessoas sem nenhum caso de colesterol alto na família, com um estilo de vida ativo e que, portanto, talvez até possam se dar ao luxo de colocar dois ovos de uma só vez no prato sem que isso afete tanto as gorduras no sangue. O problema, porém, é que não dá para generalizar e, sem exames e investigação clínica profunda, nunca saberemos direito quem são esses sortudos. "Portanto, se você quer um consumo seguro, vamos reafirmar o que está no artigo: um ovo por dia", reforça Marcia Vitolo.

É bom mesmo frisar. O próprio Mauro Fisberg tem seus receios quando se divulgam trabalhos assim. E com razão. "Vai ter indivíduo, principalmente praticante de atividade física, que interpretará esses resultados como um aval para comer dez, doze ovos antes do treino a fim obter mais proteína", ele teme. No lugar do ovo, que siga para a roda-viva esse tipo de maluco, propagando crendice como quem vende saúde.

"Se a pessoa exagera em qualquer tipo de alimento, ainda mais se ele for fonte de gordura ou de colesterol, como é o caso do ovo, é evidente que ela terá problemas. Não é preciso é fazer pesquisa científica para saber que isso vai acontecer, não é mesmo?", complementa Marcia Vitolo. Concordo. Um dos raros casos em que podemos economizar boa ciência, penso.  E penso também: ainda que seja só um, melhor evitar o ovo frito, carregado de óleo ou manteiga. Aqui, como no amor, vale aquele conselho do antes só do que mal acompanhado.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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