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Leptospirose: qual o risco depois das enchentes e o que você deveria fazer

Lúcia Helena

13/02/2020 04h00

Bruno Escolástico/Estadão Conteúdo

Para cada um dos 21,5 milhões de habitantes da Grande São Paulo existem de dez a 15 ratos urbanos . Os cidadãos são modesta minoria perto de ratos de telhado, camundongos e  ratazanas. E nunca saberemos quantos desse bando de roedores carregam bactérias do gênero Leptospira, que podem viver indefinidamente nesses animais e em outros, como porcos e cavalos, alojadas nos rins, sem dar sinal de sua presença. 

Mas rins não são órgãos em que um micróbio pare muito quieto. Parte dos micro-organismos é jogada para fora sempre que o bicho urina. Portanto, xixi de rato da cidade pode ser um poço — para não dizer uma poça — desses germes que, se tiverem a menor oportunidade na brecha de um machucadinho de nada ou de um arranhão besta, irão penetrar na pele de quem se atrever a ter contato com o líquido infectado. 

E aí é que está, em tese, o perigo destes tempos difíceis: as águas de uma enchente carregam consigo toda a sujeira do ambiente, xixi contaminado incluído. Por isso, bom ficar esperto, já que uns dez dias depois da aguaceira podem surgir os sintomas da leptospirose em quem não teve outra saída a não ser enfrentar a chuva e mergulhar os pés ou boa parte do corpo no rio imundo em que se transformaram ruas e avenidas da maior metrópole do país. Mas, claro, o aviso vale para quem enfrentou ou está enfrentando enchentes em qualquer canto, como as que andam castigando Minais Gerais. 

A infecção e os seus sintomas

Os dez dias são, na verdade, o período médio de incubação da bactéria, uma vez que se enfia através pele e alcança a corrente sanguínea. Mas pode levar bem menos, só 48 horas, ou bem mais, quatro semanas, para ela começar a se manifestar.

A temperatura, então, sobe de hora para outra — e não sobe pouco. A febre é alta, acompanhada de um grande mal-estar. "Podem surgir náuseas, diarreias, manchas vermelhas por todo o corpo, tosse e até meningite", descreve o infectologista Luís Fernando Aranha, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. "Tudo isso se confunde com outras doenças, como a dengue. A pista é a dor muscular intensa que aparece na leptospirose,  em geral acompanhada de olhos vermelhos ou até mesmo amarelados", conta o médico. 

Só o teste sorológico de sangue, então, poderá confirmar o diagnóstico. E é importante procurar ajuda ligeiro, logo que surgirem esses sintomas — quanto antes o tratamento for iniciado, melhor. A maioria dos casos é leve. Depois de três ou quatro dias tomando antibióticos, o quadro regride. 

Infelizmente, porém, uma parcela menor de pacientes têm hemorragias, complicações renais importantes, chegam ao coma e podem morrer. "'É quando a leptospirose assume a sua forma mais severa, conhecida por doença de Weil", diz o infectologista. Segundo a Organização Mundial de Saúde, ocorrem cerca de 800 mil casos de leptospirose por ano ao redor do globo e, entre eles,  48 mil são fatais.

 

André Lucas/Estadão Conteúdo

Limpar a casa pode ser até pior do que entrar nas águas da enchente 

Embora a rigor possa acontecer uma contaminação se você mergulhar os pés na enchente exibindo qualquer machucado simples, por exemplo, o patologista Jorge Sampaio, consultor médico em microbiologia do Fleury Medicina e Saúde, contraria o senso comum e não aposta tanto nessa possibilidade. "Questão de estatística", justifica, usando a lógica. "O volume de água é imenso e, portanto, há uma enorme diluição da urina dos ratos. Daí a possibilidade de você se infectar nas ruas se torna bem mais baixa."

Pergunto então onde moraria o perigo. "Ele pode morar até dentro de casa, quando acontece uma enchente", responde. "Ora, os ratos  vivem em tocas, buracos, passagens de esgoto. E esses locais se enchem de água depois de tempestades assim. Para sobreviver, os roedores sobem, saem dos seus esconderijos e entram no primeiro abrigo que encontram", alerta. 

Como são animais noturnos, a gente muitas vezes não percebe a presença do novo inquilino e… ele urina. "Por isso, na minha opinião o maior perigo está na hora de limpar a casa que foi invadida pelas águas ou que apenas fica próxima a regiões de alagamentos", diz o doutor Sampaio. Essa faxina, segundo ele, merece  ser feita com luvas, galochas e uma substância a que a bactéria da leptospirose não resiste por causa do pH: o hipoclorito de sódio, ou seja, a popular água sanitária.

O que mais fazer para se proteger

Fora de casa, quando as águas baixam, o temor pode desaparecer. "Essa bactéria precisa de umidade e sombra. Não suporta o sol, quando ele começa a bater nas poças",  ensina o doutor Jorge Sampaio. Mas, dentro de casa, a história é outra.

Além da faxina com os tais acessórios de proteção — luvas e galochas —,  é preciso higienizar muito bem todos os vegetais que serão consumidos, deixando-os mergulhados em soluções para essa finalidade vendidas em supermercados. Primeiro porque, como já foi explicado, um ratinho com medo de chuva pode ter perambulado pela sua cozinha, se você mora em uma dessas áreas críticas. 

Em segundo lugar, porque é bem possível que esses roedores tenham invadido armazéns de alimentos em sua fuga — eles sempre vão atrás de comida. Logo, a dica da higienização com solução especial vale até para quem vive em um endereço que ficou completamente a salvo das águas.  "Higienizar frutas, legumas e verduras deveria ser um hábito universal, praticado sempre", avisa o médico. "No entanto, torna-se mais  importante do que nunca quando ocorrem enchentes."

Se você mora em áreas onde os alagamentos foram importantes ou se desconfia que a cisterna pode ter sido contaminada, o melhor a fazer é ferver a água — a de beber, a usada para preparar alimentos e até mesmo aquela com a qual escova os dentes, enquanto não fizer a limpeza e a manutenção do equipamento.

É o que está ao nosso alcance. Além de outra atitude básica: eleger para as nossas cidades quem vá, ainda tardiamente, tomar medidas para evitar que nossas ruas e casas fiquem submersas e que ratos, de todos os tipos, façam a festa.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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