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Para quem ama odiar o leite: muito laticínio aumentaria risco de fraturas?

Lúcia Helena

18/02/2020 04h00

iStock

Se me perguntar a que turma pertenço, responderei de cara: à turma que ama leite. Mas basta eu derramar uma gotinha de elogio ao alimento para o time adversário — o de quem ama odiá-lo  — se manifestar. E assim já fui acusada por aqui até de ter vaquinhas no pasto, ai, ai…  

Se as tivesse, elas certamente já teriam ido para brejo. Especialmente nos Estados Unidos, que estão para publicar neste ano novas diretrizes alimentares e, nelas, periga os laticínios perderem um espaço só deles na velha pirâmide alimentar, que hoje recomenda o consumo de três porções desse tipo de alimento por dia aos americanos. 

Se isso realmente acontecer, leite, iogurtes, queijos e companhia seriam transferidos para o grupo das proteínas, como um bife qualquer — ou uma coxinha de galinha ou, ainda, uma concha de soja. Adianto o que penso: acho bem questionável. Leite é muito mais do que seus 6,4 gramas de proteína por copo. Ele oferece 240 miligramas de cálcio na mesma porção, um nutriente que a gente anda deixando faltar no cardápio.

De acordo com um mapa feito pela Fundação Internacional de Osteoporose a partir do consumo desse mineral em 74 países, os brasileiros ingerem pouco mais de 500 miligramas de cálcio por dia, ou seja, metade do necessário. Demonizar o leite nessa altura do campeonato não ajudará em nada.

Mas uma revisão feita pela Universidade Harvard e publicada recentemente no The New England Journal of Medicine, engrossou esse mingau, ao pesar prós e contras de consumir laticínios. Seus autores afirmam que "a ciência por trás da recomendação clássica de três porções de leite e derivados ao dia é escassa", feita a partir estudos envolvendo poucas pessoas ou realizados por períodos mais breves de tempo. Os pesquisadores chegam a dizer que consumir boas quantidades desses alimentos poderia fazer mal à saúde — a nossa e a do planeta, no caso por causa dos puns do gado leiteiro, dos desmatamentos para criar áreas de pasto, dos antibóticos usados na criação… Algo realmente sério e que teremos de resolver.

Sobre a nossa saúde, no entanto, o trabalho esmiuçou as vantagens e não encontrou, entre outras coisas, uma forte relação entre beber leite no dia a dia e a prevenção da obesidade — algo propagado por aí, uma vez que o cálcio é essencial para a quebra das células de gordura na barriga, sabia? Em compensação, a revisão de Harvard viu outras ligações não tão positivas. Um dos argumentos do contra são estudos que levantam a seguinte suspeita: justamente nos países onde as pessoas consomem mais laticínios, a prevalência de fraturas é mais alta. E elas seriam mais comuns em homens que consumiram bastante esse tipo de alimento na infância. 

Ok,  ninguém está falando que se lambuzar com um copo de leite a mais ou com um pote de iogurte faz a criatura quebrar o quadril. A tese — um tanto capenga ao meu ver e na opinião dos especialistas ouvidos para este blog — é que os laticínios acelerariam o crescimento ajudando a formar ossos mais longos, os quais seriam mais fáceis de se quebrar do que ossos curtos, por alguma razão mecânica. Aí reflito: a biologia humana não cabe inteira em um livro de Física e, se fosse assim, toda pessoa baixinha seria imune à fratura, não é mesmo?

"A investigação que levantou essa suspeita é fraca e os próprios cientistas de Harvard reconhecem isso", aponta o ortopedista Sérgio Drummond Júnior, da Sociedade Brasileira de Quadril. E ele explica por que tem essa opinião: "Vários aspectos costumam favorecer uma fratura e eles não foram analisados ali. As pessoas podem ter maior facilidade para quebrar ossos por razões genéticas ou, ainda, porque têm pouco músculo, sendo que a musculatura não deixa de ser uma barreira de proteção ao esqueleto", exemplifica. 

O tabagismo é mais um fator, menos divulgado, embora importantíssimo. "Ele predispõe a fraturas e não sabemos se esses homens que quebraram mais ossos fumavam ou não", diz o médico.  Ou seja, para alguém afirmar que os laticínios consumidos na infância teriam a ver com ossos quebrados na vida adulta precisaria, no mínimo, comparar pessoas com a mesma quantidade de massa muscular, que nunca fumaram e por aí afora. "O meu medo é esse tipo de informação, uma vez solta no ar, levar a um movimento anti-laticínios como o que acontece contra as vacinas, que não tem nem pé nem cabeça", afirma Drummond Júnior.

Outro que olha com cautela é o médico Rogério Savoy Machado, membro do Comitê de Doenças Osteometabólicas da SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia). "O centro da discussão deveria ser menos consumir ou não consumir leite e, mais, o papel do cálcio", pensa. "Ora, trata-se de um  mineral essencial à vida, participando das contrações do coração e de um sem-número de funções no organismo. Diria que ter cálcio disponível é tão importante quando contar com o oxigênio para respirar", compara.

Apesar de vital, a substância não é produzida pelo nosso corpo. Dependemos, então, do que levamos à boca. Cerca de 99% do cálcio presente no organismo humano está no esqueleto. Ele é, na verdade, um grande reservatório do mineral, o qual termina sendo retirado dali, sem cerimônia, quando não há quantidade suficiente para funções de que o corpo não pode abrir mão, como os batimentos cardíacos. 

Essa medida, claro, faz sobrar para os ossos. Aliás, ao contrário, faz faltar. E daí a ossatura termina porosa, de saque em saque nessa espécie de poupança. "Precisamos ingerir de 1.000 a 1.200 miligramas de cálcio diariamente. E há evidências de que o mineral dos laticínios é o mais biodisponível, isto é, absorvido com maior facilidade. No entanto, sem dúvida existem fontes alternativas", fala Savoy Machado, referindo-se a  folhas de tom verde escuro, castanhas, sardinhas… "O fundamental é nunca deixar de ingerir fontes desse mineral".

E isso é o que pode dar problema, se os laticínios deixarem de ter destaque — a importância de fontes de cálcio ficaria em segundo plano ou escamoteada. "Para a realidade americana, porém, pode fazer algum sentido incluir leite e derivados na coluna de proteína e rever um pouco as recomendações. O queijo, por exemplo, é um dos alimentos que mais contribuem com gordura saturada na dieta dessa população", conta a nutricionista Carolina Pimentel, professora da Universidade Paulista, certificada em  Lifestyle Medicine pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Ou seja, nesse país segurar a onda é necessário.

Já para os brasileiros, segundo a professora Carolina, o leite de vaca  continua sendo uma das fontes mais acessíveis de proteínas e cálcio."E a literatura científica clássica da nutrição ainda reforça aquelas evidências de que o cálcio desse alimento é o mais biodisponível. Além disso, as fontes alternativas, que seriam vegetais, infelizmente são muito pouco consumidos entre nós", lembra. 

Já fortificação de alimentos pode ser uma cilada, porque nos empurraria para a saída de comer mais e mais produtos industrializados, que nem sempre têm nutrientes em quantidades equilibradas. Ou seja… Onde vai parar o leite nas diretrizes alimentares americanas eu não sei. Mas espero sinceramente que ele continue no nosso copo e ai de quem tirar o queijo do meu prato ou sumir com o meu iogurte na geladeira!

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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