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Como o coronavírus deixa os pulmões sem fôlego, até depois de ir embora

Lúcia Helena

12/03/2020 04h00

iStock

Ontem, no Brasil, mais de 60 pessoas já tinham sido diagnosticadas com o coronavírus — que, também ontem, foi promovido a causador de uma pandemia. Fico me perguntando quanta gente estará com a doença quando você ler este texto hoje, amanhã ou depois. Sim, a situação tem tudo para pegar no breu e, se um influenza da gripe incomoda muita gente — cada indivíduo gripado costuma transmitir esse vírus para mais uma pessoa —, ah, acredite que o corona tem tudo para incomodar muito, mas muito mais. Cada sujeito infectado por ele irá transmiti-lo para 2,5 pessoas. É mais que o dobro. E, nesse ritmo, o número de doentes tende a se multiplicar por dez em uma semana. Só tende…

Podemos então esperar por quase 700 casos até a quinta que vem? E, daqui a 15 dias, serão perto de 7 mil? Em três semanas, 70 mil? "Se algum médico responder de modo taxativo, ele estará sendo um mau médico", decreta o infectologista Hélio Bacha, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, que justamente flagrou 16 novos casos da infecção nas últimas 24 horas, fazendo seus registros darem um salto por aqui. "Não temos como prever como o coronavírus irá se comportar entre nós", diz ele. "O Brasil tem suas características, como uma considerável diversidade climática. E, ao contrário da Itália, por exemplo, estamos em pleno verão. Mesmo assim, precisamos estar bem preparados."

Parênteses: foi no verão escaldante da Austrália que o coronavírus contaminou o ator Tom Hanks e sua mulher Rita Wilson. O casal, de passagem por lá, confirmou ontem que está com o vírus — que dia, que dia… Portanto, se já está assim no calor, vai saber o que acontecerá do lado de baixo do Equador quando chegar a nossa vez de enfrentar o frio do inverno. Mas preste atenção…

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Nos pulmões o bicho pega

Não é para ninguém acusar a situação de fricote ou alarmismo barato (o nome disso é irresponsabilidade), nem para ficar em pânico. Até porque, em 85% das pessoas o coronavírus vai entrar pela boca, pelos olhos ou pela mucosa nasal, pegar o rumo das vias aéreas superiores — entenda laringe, faringe, traqueia, brônquios — e provocar sintomas como coriza, tosse, febre e quebradeira. Como se fosse um resfriado?, perguntei ao doutor Hélio Bacha. "Como se fosse, não! É uma forma de resfriado", respondeu. Tem gente até que pega o coronavírus e mal sente coisa alguma, passa batido. As formas graves, faz questão de sublinhar o infectologista, são exceção. E, nesse caso, um sinal de que a coisa toda pode degringolar é a falta de ar. É nos pulmões que o bicho pega.

Nessa altura, você já deve estar careca de tanto ouvir: o risco de os pulmões se darem mal é maior em idosos, pacientes imunodeprimidos por qualquer motivo, como aqueles que enfrentam um tratamento de câncer, fumantes… O que não significa que não possam existir exceções à regra. "O traiçoeiro é que essas pessoas desenvolvem uma pneumonia tardiamente, quando a gente começa a acreditar que já está tudo bem", comenta Hélio Bacha.

Em média, uma semana após aqueles sintomas de resfriado darem as caras, os pulmões de uma minoria de infectados se inflamam de vez. No dia seguinte, surge ou agrava-se a falta de ar, que os médicos chamam de hipóxia. Mais 24 horas e a oxigenação do corpo fica toda comprometida e lá pelo décimo-terceiro, para uns 3% dos pacientes, é preciso se internar na UTI. Finalmente, sinto dizer, de 0,3% a 1% morre. Isso é alto? Não, de jeito algum. No entanto, é mais do que o triplo de mortalidade da gripe e, quando estamos diante de uma pandemia, esse "1%" é gente a dar com pau.

Para entender o que o coronavírus pode fazer na intimidade dos pulmões a ponto de matar na pior das hipóteses, fui conversar com o pneumologista Humberto Bogossian, também do Hospital Israelita Albert Einstein. Ele conta que o novo vírus é parente próximo do coronavírus causador da SARS, a síndrome respiratória aguda grave. "Ambos entram nas células do aparelho respiratório pelo mesmíssimo receptor. E, ao penetrá-las, desencadeiam uma reação imunológica exagerada", explica. 

É nesse exagero que mora o grande perigo. Ele se traduz em uma tremenda inflamação que faz os tecidos acometidos liberarem um caldo de proteínas e esse líquido inunda todo o pedaço. Às vezes, o vírus nem chega, ele próprio, a entrar na área nobre dos pulmões. Age à distância, porque as substâncias inflamatórias despejadas em uma reação à sua presença conseguem alcançá-los. Pronto: pulmões inundados. Ou, como preferem os especialistas, infiltrados.

"Os pulmões lembram um favo de mel", descreve o pneumologista. "Normalmente, suas minúsculas cavidades são preenchidas de ar e, por ali, passam vasos capilares que absorvem o oxigênio da atmosfera ou que que liberam o gás carbônico do sangue", diz. "Nesses espaços, ocorre ainda a depuração de partículas tóxicas, vírus e bactérias." Agora, imagine quando nada disso acontece porque, em vez de repletas de ar, essas cavidades acabam cheias do líquido derramado pela inflamação. É como se fosse uma enchente pulmonar. O doente sente se afogar a seco. 

"Além disso, a estrutura dos pulmões também se altera. É como se eles ficassem ligeiramente endurecidos", conta o médico. "Então, a mecânica da respiração fica comprometida e ela se torna curta e acelerada." Ou seja, encher-se e esvaziar-se de ar vira um esforço difícil e, para completar o drama, esse ar que mal entra não acha espaço nos alvéolos lotados de água. Alerta: essa respiração curta e ineficiente dá uma canseira danada no coração. Então pense nos casos em que ele já é problemático…

Sentiu falta de ar? Atenção

Quando o paciente chega se queixando da falta de ar — e, guarde bem isso, a falta de ar de uma hora para outra em um quadro que parece gripe, com ou sem coronavírus, sempre é motivo para procurar ajuda especializada —, os médicos lançam mão de estratégias para saber se a oxigenação do organismo está sendo atrapalhada. Mais do que a percepção do sujeito, é isso o que conta: conhecer por meio de exames a diferença entre o oxigênio tragado em cada inspiração e o oxigênio que vai parar efetivamente na circulação sanguínea porque conseguiu ser bem absorvido pelos pulmões. 

"Conforme o resultado dos exames, nesse quadro conhecido por angústia respiratória, a gente vai decidindo o que fazer", conta o doutor Humberto Bogossian. Os médicos do mundo inteiro ainda não têm um protocolo de tratamento, isto é, uma espécie de receita de bolo do que funcionaria mais em cada caso, como na gripe provocada pelo H1N1 em que logo prescrevem um remédio, o fosfato de oseltamivir. Nada disso. Por enquanto, com o coronavírus eles aprendem na raça, no dia a dia.

Se o aporte de oxigênio está bem ruim, partem para a ventilação mecânica. Em um primeiro momento, ela pode ser por um aparelhinho no nariz ou por uma máscara de oxigênio. "Mas, quando o paciente já chega em estado grave ou se, usando máscara de oxigênio, ele não melhora em meia hora, o jeito é intubar sem mais perda de tempo para entregar o oxigênio diretamente lá dentro", explica o pneumologista. Com sensores e computadores, os equipamentos de ventilação mecânica dirigem o ar com mais força, por assim dizer, onde o oxigênio ainda tem mais chance de ser aproveitado.

E talvez você se indague: por que não intubar de cara? É uma boa pergunta. Ventilar o paciente de forma incorreta com a máscara de oxigênio, por exemplo, é como forçar a barra dos pulmões. "Eles podem piorar de vez, desenvolvendo até fibroses que deixarão sequelas e, aí, a dificuldade para respirar restará para sempre",  avisa o doutor Humberto. 

Portanto, diante de um paciente grave de coronavírus, as decisões são mesmo delicadas para não entornarem o caldo. "E algumas pessoas não reagem, mesmo que você lance mão de todas as manobras, como mudar sua posição no leito, ajustar o equipamento…", conta Humberto Bogossian. "Na China, teve um caso em que apelaram até mesmo para o transplante de pulmão", informa.

Aí, quando nada estanca a inflamação pulmonar, a oxigenação vai piorando até a asfixia final. Outras pessoas em estado grave se recuperam, claro, mas levam dez dias para melhorar de vez — comparando com a gripe, esse tempo de internação é mais do que o dobro do exigido por uma infecção severa provocada pelo vírus influenza.

Vírus some por conta própria

Vale lembrar de um ponto fundamental em toda essa história: sim, o coronavírus é o que a ciência chama de autolimitante. Dentro de nós, mais dia ou menos dia ele some por conta própria. "Só que, muitas vezes, nem está mais lá quando essa pneumonia avança, porque a reação inflamatória que deflagrou é que se perpetua, como uma bola de neve", diz. Ou seja, o coronavírus vem, faz besteira, morre e o mal causado por ele continua, sem freios.

A gente nunca sabe — embora exista aquele grupo de risco sempre citado — quem reagirá assim, com essa inflamação tardia e sem controle. Uma coisa é certa: aquela pessoa que fica só ligeiramente quebrada e com coriza, ou que nem sente nada, passa o vírus adiante se fica perambulando pelas ruas ou, pior, se resolve frequentar locais lotados.  Aí, quem estiver ao seu lado a menos de 1 metro de distância — seja no ônibus lotado para o trabalho, no festival de música que a moçada não quer perder, na irresponsável manifestação política — provavelmente irá se infectar. E ainda fazer uma entrega a domicílio, ao voltar casa e abraçar o avô ou pegar o filho no colo. É a roleta-russa do coronavírus: em uma hora, passando de pessoa para pessoa, ele fatalmente acertará em alguém que vai se dar muito mal.

Mas, por dedução lógica, se essa infecção se espalhar desgovernada — e está em nossas mãos (bem lavadas, por favor!) tentar fazer com que isso não aconteça —, o coronavírus irá matar de muitas formas. Porque aqueles 3% da população que precisará de hospital irão ocupar a vaga do acidentado de carro, do garotinho com apendicite, do senhorzinho que infartou, da complicação de parto… Isso se chama colapso, entende? 

Não estou dizendo para ninguém parar com a vida — é preciso seguir com o dia a dia. "O que trata não pode ser pior do que a doença em si", diz o médico Hélio Bacha. Mas quem tem o menor sintoma de resfriado, por precaução e por respeito ao próximo, deve ficar  isolado em casa. E todos deveriam cancelar compromissos cheios de gente, em uma manifestação clara e necessária de bom senso.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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