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Inédito: teste brasileiro para flagrar o coronavírus apresenta vantagens

Lúcia Helena

26/05/2020 15h43

Crédito: iStock

Cientistas do Grupo Fleury desenvolveram um teste inédito no mundo que, hoje mesmo, já está disponível em todo Brasil. Mais acessível e mais rápido do que o exame padrão-ouro, o RT-PCR, ele leva algumas vantagens para acusar a covid-19 em um país como o nosso, em que muitas vezes o teste genético não conta a verdade — isto é, não acusa o inimigo — por causa de grandes distâncias entre as cidades e até diferenças de clima. 

O teste brasileiro também poderá indicar em um futuro breve quem pegou o vírus, mas já não está transmitindo a doença, podendo deixar o isolamento com tranquilidade. Isso porque o PCR de uma pessoa que foi infectada costuma dar positivo por um longo período. No entanto, hoje se sabe, muitas vezes o que resta em seu corpo é  comparável a um vírus já caindo aos pedaços, que perdeu toda a capacidade de infectar outras pessoas. Portanto, não haveria mais perigo. O novo exame dá sinais de que apontará se esse coronavírus se tornou capenga ou ainda não. Isso, claro, terá um belo impacto.

Alternativa para quem vive onde não existe o exame genético

Em boa parte do território nacional, fazer o famoso teste RT-PCR que flagra o material genético do novo coronavírus é um problema e tanto. E não só porque podem faltar reagentes para realizá-lo, drama que o Brasil experimentou do Oiapoque ao Chuí no início da pandemia. Tampouco apenas por não existir um lugar com essa tecnologia por perto.

O perrengue maior é outro: é que o tal material genético do Sars-Cov-2 calha de ser um RNA, uma molécula frágil, que não suporta muito bem longas viagens até chegar a algum canto com um grande laboratório onde o exame do RT-PCR possa ser feito. Na verdade, o RNA nem aguenta variações de temperatura. 

Exigente, só chega bem ao seu destino se a amostra colhida pelo swab — aquela espécie de cotonete longo enfiada pelo nariz ou pela garganta — for mantida no gelo seco. "Pouca gente faz ideia, mas existem capitais no país onde simplesmente não existe gelo seco", comenta o infectologista Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury, que apresenta uma solução para essa e outras dificuldades. Não à toa, o artigo científico sobre o teste brasileiro, submetido a uma revista de peso fabuloso nos meios acadêmicos, já foi acessado por mais de 3 mil pesquisadores ao redor do globo em uma única semana.

Há dois meses, cientistas do Grupo Fleury — liderados pelo biólogo Valdemir Melechco Carvalho e pela bioquímica Karina Cardozo — se debruçam em uma alternativa fora do campo da biologia molecular. Ou seja, saíram da caixinha onde era guardada a ideia fixa de caçar o material genético do vírus.  Fizeram isso até pelo trauma justificável de o mundo inteiro disputar na queda-de-braço para comprar os reagentes do bendito RT-PCR. Os brasileiros, então, miraram para outro lado. 

O pulo do gato: as proteínas exclusivas do Sars-CoV-2

Para entender o que fizeram, o professor Granato compara um vírus a uma uva, que tem a pele, a semente — que seria o RNA — e a polpa. Pois bem: imagine que os pesquisadores olharam para a polpa. Ali, no caso do novo coronavírus, existem proteínas de montão. "Afinal, é um vírus grande, que tem três vezes o tamanho de um vírus do resfriado comum", explica o médico.

Mas, entre essa série enorme de proteínas, três delas — descobriram os pesquisadores do Fleury — estão no maldito Sars-CoV-2, nele e em nenhum outro vírus mais. Aliás, o trio não está nem sequer em outros coronavírus que já se encontravam entre nós. É bem específico mesmo.

Para flagrá-lo, o equipamento usado é o da espectometria de massas. Embora não seja comum em laboratórios pelo Brasil afora, no Fleury já ele é usado há dez anos para flagrar drogas como a cocaína ou substâncias envolvidas em tumores neuroendócrinos, citando dois exemplos.

"A especificidade dessa tecnologia para detectar o novo corovírus é de 100%', garante o professor Granato. Em outras palavras, se dá positivo, é ele que está no pedaço sem sombra de dúvida. Porém, a sensibilidade é mais baixa do que a do PCR — hoje, está em torno de 84% e a meta é que suba para 90%. Por ora, isso quer dizer que entre as quase 600 pessoas que foram testadas desse jeito, para a validação científica da novidade, o exame não percebeu a presença do coronavírus em 16%.

"Por isso, o PRC continuará sendo usado em lugares onde ele é disponível", conta o professor Granato. Nas demais regiões, porém, o novo exame, que é o de proteômica dirigida — grave, pois este é o nome —, deverá ser de longe a melhor opção. Entenda o motivo:  a sensibilidade altíssima do RT-PCR só vale quando a amostra é fresquinha, colhida na hora e processada depressa. Ela despenca se o RNA viral precisa pegar um ou até mais voos. Aí, pode chegar a ser bem inferior a esses 84%. O novo teste, então, compensará mais.

Como é o teste de proteômica dirigida

O nome é complicado, mas no processo com o paciente não há grande novidade. Continua sendo o velho swab. Só que agora ele poderá pegar de boa um avião  do Acre ou do interior da Bahia para São Paulo, por exemplo, depois de a amostra ser colhida em um laboratório local — laboratório que poderá, se for o caso, fazer parcerias com o SUS. 

Durante a viagem, a amostra aguenta firme, mantida apenas em uma simples solução de água e sal estéreis e — atenção — na temperatura ambiente típica do nosso clima por até longas cinco horas. "Se seguir viagem em um recipiente com gelo comum, então, esse tempo pode se multiplicar", observa o professor Granato.

Por falar em multiplicação, a capacidade atual do Grupo Fleury é de realizar 1,5 mil desses novos exames por dia, porque foram destacadas até o momento três máquinas para essa finalidade e cada uma dá conta de 500 testes diários. Claro, se o número de equipamentos aumentar, essa escala mudará também.

Uma vez no laboratório, a amostra passa por um processo que separa as proteínas em várias porções. Ele é chamado de cromatografia. "O nome vem de cor porque, no passado, essa tecnologia era empregada para corantes", conta o professor Granato. Depois, na segunda etapa, são detectadas as tais três proteínas exclusivas do Sars-Cov 2.  Tudo leva cerca de quatro horas. Ou seja, a novidade é também mais rápida do que o RT-PCR, que consome seis horas de bancada, no jargão da ciência.

O teste por proteômica é ligeiramente mais barato também. "Não muito, mas cerca de 15% mais em conta do que o de PCR", informa Celso Granato. O Grupo Fleury vai praticar um preço entre 170 e 180 reais por exame.

O RNA pode enganar e prolongar o isolamento

Este é um fato. Uma vez que foi infectado, o indivíduo pode continuar apresentando o RNA do novo coronavírus por quatro semanas ou até mais. Na pior das hipóteses, a mucosa que reveste o nariz, que fica impregnada do vírus, se renova a cada dois ou três meses. "Mas isso não significa que persista ali um vírus que ainda seja capaz de ser transmitido de uma pessoa para outra", diz o professor Granato. "Por isso, a positividade do RT-PCR não é tida como bom critério para definir a duração do isolamento. Já o teste por proteônica dá sinais de que poderá revelar se o vírus já perdeu sua capacidade de infectar", conta. 

Da mesma maneira como isso ainda está sendo avaliado, os cientistas começam a aplicar o novo teste em outros fluidos do corpo. Por exemplo, em amostras do líquor, já que infelizmente o coronavírus mostrou ser capaz de causar danos neurológicos. Outra suspeita sob investigação  é de que a quantidade daquelas três proteínas virais, no caso, tenha uma relação com a gravidade ou o estágio da doença.

E por que não sair testando assim os assintomáticos?

Porque testes para dizer que uma pessoa está com o vírus naquele momento — seja este novo ou o RT-PCR — exigem uma carga viral razoável. E é muito improvável que alguém sem qualquer sintoma, ainda que bem leve, carregue coronavírus o suficiente para ele aparecer no resultado, embora possa transmiti-lo.

Além disso, esses testes precisam ser realizados no espaço entre o sétimo e o décimo dia após a infecção, sendo que o auge da replicação é, em média, no quarto dia de sintomas. Antes disso? Dificilmente será descoberto. "E depois do sétimo dia, por sua vez, a sensibilidade do próprio RT-PCR pode cair para menos de 50%", avisa Celso Granato. O que isso quer dizer: a pessoa que faz esse teste tarde demais pode ter o vírus e o exame não dedurá-lo.

No sentido oposto, o exame pode dar positivo para um coronavírus que até está ali, mas deixou se ser ameaça. Que momento é esse em que o perigo passa? Seria preciso entender mais, muito mais da fisiologia do próprio vírus e, parece, a observação dessas três proteínas exclusivas dele poderá oferecer boas explicações. Por enquanto, ter em mãos um teste que resolve a situação onde o RT-PRC não era viável já é um enorme passo. E já passa da hora de a gente ter uma boa notícia.

 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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