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Presidente, está certo: "só" fracos, doentes e idosos devem se preocupar

Lúcia Helena

28/05/2020 04h00

Reuters

Li sua declaração na noite de terça-feira, Presidente: "os fracos, os doentes e os idosos é que devem se preocupar", disse, defendendo o fim do isolamento para conter a transmissão do novo coronavírus.  Não quero sujar o meu teclado escrevendo sobre (essa) política. Nem discutir como a frase soou aos meus ouvidos —  a eugenia e ponto. Ficarei no meu campo, o da saúde, que me basta. Assumindo como verdadeiro o que o Sr. afirma e apenas refletindo sobre alguns números. 

Admito, não sei até que ponto eles se sobrepõem — quantos na terceira idade também têm essa ou aquela doença, por exemplo. Mas, de qualquer modo, nos dão uma boa noção de quem são "só" aqueles que deveriam estar preocupados. 

Segundo os últimos dados disponíveis do IBGE, Presidente, 10,5% da população que o Sr. governa tem a sua idade, 65 anos, ou mais.  Bem, talvez esse número divulgado em 2019 já tenha até aumentado. Ora, essa é uma porcentagem que cresce vertiginosamente. Saltou 26%  entre 2012 e 2018 e a curva ascendente permanece nesse ritmo. Então, vamos lá: na melhor das hipóteses, de saída 10,5% do seu povo devem se preocupar pra valer com o coronavírus. 

Entenda, sendo a pessoa um ex-atleta ou não, é da natureza das nossas defesas, aos poucos, irem deixando barato. Se nas primeiras décadas de vida as células infectadas por um vírus faziam soar um alarme, o qual culminava no surgimento de uma molécula chamada interferon-1, da sua idade em diante essa produção não é mais a mesma, lamento informar. 

O interferon-1, mal comparando, seria feito um gás paralisante. Seguraria o coronavírus para, ao menos, ele não infectar correndo outras células. Sem tanto interferon 1, o verdadeiro inimigo — seu, meu, nosso, do Brasil — ganha vantagem. 

Não quero entediá-lo com tanta fisiologia, mas acrescento: em uma infecção dessas, uma tropa de elite é destacada para entrar em campo ao receber um sinal. Por exemplo, as células citotóxicas se aproximam daquelas que abrigam o coronavírus e … dá-lhes perforina! O nome perforina diz tudo, porque elas não querem nem saber e enchem as outras, infectadas, de furos. Não sei por que, achei que iria gostar dessa passagem.  

Só que nos idosos essa turma demora a chegar. Tudo isso faz o vírus ter muita chance de ganhar terreno e se alastrar pelo corpo de, repito, 10,5% dos brasileiros. E esses 10,5%, para quem veste a sua faixa, são de deixar os cabelos em pé apesar de toda a brilhantina. 

Doentes? O Sr. está certíssimo! Todo mundo pode pegar o novo coronavírus se sair por aí sem máscara, em aglomerações, se abraçando. Mas, entre os que se contaminam, quem tem certas doenças crônicas apresenta forte probabilidade de ficar sem ar — e, nesta altura, em muitos lugares do país que o elegeu, sem leitos de UTI também.

Tem razão, são pessoas doentes, com alguma condição que as coloca no grupo de risco da covid-19. Podemos começar pelo diabetes, que uma vez descontrolado inflama o corpo da cabeça aos pés. Para o coronavírus é como encontrar metade do serviço já feito.

Pois é, aqui, um em cada 11 adultos tem diabetes. Ou, dizem, 14,3 milhões de brasileiros. Então, mesmo que olhe só para o umbigo dos seus eleitores, pense que 1 em cada 11 deles deveria ficar bem preocupado. Acha pouco? Não subestime e falo isso por alguns motivos. Esses números — como muitos, inclusive os da covid-19 — estão defasados. São de 2015, são o que temos para hoje. E mesmo assim, o que não é motivo de orgulho para ninguém, a International Diabetes Federation conta que o Brasil é o quarto país do mundo com maior prevalência dessa doença.

Digo mais, para cada diabético diagnosticado há outro que não sabe que tem açúcar além da conta no sangue. Então, imagine o Sr., se esse sujeito não for idoso nem se sentir fraco, seguindo nossa linha de raciocínio, sairá do confinamento despreocupado — e perigosamente equivocado.

Digo mais ainda: entre nós, há mais do que o dobro de gente com uma condição que, do ponto de vista do risco na covid-19, dá quase na mesma — o pré-diabetes. São 40 milhões de brasileiros com a glicose no sangue alta, mas não tão alta a ponto de cravar o diagnóstico do diabetes. Inflama e castiga o organismo do mesmo jeito. Essa multidão também deveria estar bem preocupada com o coronavírus.

Nem vou falar das crianças — elas ainda não vão às urnas, não é mesmo? — que se tornaram vítimas frequentes do que antes, por triste ironia, era conhecido por diabetes senil  e que hoje chamamos de diabetes tipo 2. E tudo por causa da escalada da obesidade infantil.

Não sei se concorda, Presidente, precisamos evitar as fake news. Por isso esclareço que por enquanto não há estudos científicos associando diabetes ou obesidade em crianças à covid-19, como acontece em adultos. Mas, infelizmente, a infecção pelo novo coronavírus está crescendo entre elas, vai saber o porquê. Na cidade de São Paulo, por exemplo, em abril havia apenas 15 pequenos entre 0 e 9 anos entre os registros da covid-19. Já em maio, poxa, o mês nem fechou e são 755. Vamos nos preocupar com elas?

Por falar em obesidade, esta é outra doença no grupo de risco e 23,1% dos seus governados podem então temer o novo coronavírus. Se incluirmos a turma do sobrepeso, outra sob maior ameaça de a infecção se complicar, aí danou-se:  55,7% dos brasileiros são rechonchudinhos. Esses números são os do seu Ministério da Saúde. Melhor o Sr. se reunir com quem cuida interinamente da pasta para checar. 

Não posso excluir os cardiopatas. São muitos. E com um sortido e variado de problemas devastando-lhes o coração, os vasos, ameaçando a cabeça de ter um AVC. Ficarei com a pressão alta, para não me estender. De novo, os números fornecidos pelo Ministério da Saúde do seu governo é que indicam que 24,7% da população é hipertensa. E de novo direi que os cardiologistas apostam que o número de portadores desse mal, por ele ser silencioso quando faz os seus estragos, deve ser bem maior. Mas, se a gente parar nos 24,7%, já seria de bom tamanho, não? Preocupante, não? 

Sobre pessoas fracas, o Sr. poderia me explicar o seu conceito de fraqueza? Mais uma vez, vou me agarrar na saúde e imaginar que se referia a pessoas imunossuprimidas. Vamos pensar no câncer.

Só neste ano, estima o INCA, serão 625 mil novos casos. Sem contar os que estão em tratamento desde anos anteriores. Muito tumor maligno costuma monopolizar, por assim dizer, a atenção das nossas defesas. Abre brecha para a entrada de um vírus. E às vezes o tratamento para derrotá-lo, Presidente, também deixa o organismo debilitado. É disso que estamos falando, de 625 mil pessoas, por baixo, que talvez devam se preocupar com o fim do isolamento? 

Ser fraco também pode ter o sentido de ser frágil. E ser frágil é ser vulnerável, esse adjetivo que abriga nossas piores mazelas. Eu, pelo menos, acho que são vulneráveis 48% da nossa população — porcentagem informada pela Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado — que não têm nem sequer coleta de esgoto.

Ok, não há estudo associando tamanha falta de saneamento básico à covid-19, mas podemos supor que há maior risco de essa gente ter outras infecções recorrentes minando a energia do organismo para enfrentar uma batalha contra o coronavírus. Até o momento, ninguém pode dizer que sim, nem que não.

Também não entrarei no mérito de que o Sars-CoV 2 surpreende e que talvez não faça apenas vítimas  fracas, doentes e idosas, mas vamos lá… No mínimo, se bem assessorado na hora de fazer declarações, o Sr. pronunciaria a frase de um jeito ligeiramente diferente, mais ou menos assim: "Fracos, doentes e idosos devem se preocupar. E não são poucos". Agora, Presidente, se o Sr.  quisesse realmente "mitar", completaria: "Estou muito preocupado com a saúde de todos".

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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