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A bebida para suportar a quarentena pode virar dependência na pós-pandemia?

Lúcia Helena

02/06/2020 04h00

iStock

Ninguém sabe quantas mágoas a gente vem cultivando nesta pandemia. Mas pelo jeito, entre nós, 18% das pessoas estão tratando de afogá-las no álcool. Essa foi uma das constatações de pesquisadores da Fiocruz, ao lado de colegas da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Estadual de Campinas. Eles resolveram dar uma espiadela em como a quarentena está impactando o dia a dia dos brasileiros. Para uns, exigindo mudanças profundas no jeito de trabalhar. Para outros, trazendo novas formas de convivência. E, para boa parte, interferindo no estado de ânimo. 

Entre 24 de abril e 8 de maio, 44.062 pessoas responderam um questionário pela internet. E, sim, isso nos dá uma panorama bem fiel do Brasil porque a amostra foi calibrada para ter uma distribuição proporcional por estados, idade, gênero, cor de pele e escolaridade. O resultado é que quatro em cada dez criaturas no país vêm se sentindo tristes além da conta e 54% relatam que vivem nervosos. 

A pesquisa também aponta que, quanto maior a frequência das crises de depressão ou de ansiedade, maior a tendência a beber mais do que o de costume. O álcool já virou parte da rotina de quase um quarto dos brasileiros que andam jururus ou, na outra ponta, uma pilha de nervos. Será que isso significa que teremos mais casos de dependência alcoólica quando tudo passar?

"Acende o alerta, mas não dá para chegarmos a qualquer conclusão. A realidade é que a maioria dessas pessoas nem vai ter problema com a bebida adiante, na pós-pandemia", diz o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade. Professor associado da Universidade de São Paulo e titular de psiquiatria da Faculdade de Medicina do ABC, ele é o presidente do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool) e autor de livro com selo da Editora Manole sobre o tema.

Não é de agora que a humanidade consome álcool. Provavelmente, a primeira rodada foi no período neolítico, há uns 10 mil anos, quando o homem pré-histórico desenvolveu a agricultura. Os povos antigos, que surgiram depois —egípcios, gregos, romanos —, já bebiam pra valer. "E desde sempre a maioria dos indivíduos faz um uso social do álcool, isto é, bebe de vez em quando uma dose que não causa problemas maiores", conta Arthur Guerra. "Uma parcela, porém, desenvolve o que chamamos de uso nocivo, que implica em dependência." Precisamente: 20% das pessoas que bebem fazem isso de maneira patológica.

Por que uns desenvolvem dependência e outros não?

Pergunto: por que oito em cada dez pessoas vão abrir um vinho naquela videoconferência com amigos e simplesmente curtem uma hora feliz, enquanto outras duas em cada dez pessoas podem criar, a partir daí, a necessidade de mais uma dose e, no dia seguinte quem sabe, mais outra para aguentarem as notícias sobre a covid-19 ou sobre acontecimentos igualmente virulentos? Preparei meus ouvidos para a resposta de sempre. Você sabe qual é: ah, tem a genética…Mas não! 

O professor me surpreendeu: "Existem pessoas de uma mesma família, com os mesmos genes, as mesmíssimas condições de vida e de educação que reagem diferente ao álcool. Uma poderá fazer um bom uso, enquanto a outra irá beber de modo patológico. É incrível como não temos muito conhecimento do que causa a dependência até hoje", diz ele. E, se o fato de a maioria escapar do alcoolismo traz alívio, por outro lado, sem sabermos direito quem corre maior risco de sucumbir, o open-bar do confinamento é uma roleta-russa.

Há algumas pistas. Mulheres parecem se tornar dependentes do álcool com um pouco mais de facilidade do que os homens. E algo que é dado como certo nos meios científicos: quanto mais cedo alguém experimenta a bebida alcoólica, maior a probabilidade da dependência no futuro. "Nas grandes capitais do Brasil, esse batismo, como se diz por aí, acontece  aos 13 anos e meio de idade, em média. Cedo demais", informa Arthur Guerra.

Para o psiquiatra, há uma ideia quase romântica dos pais, que muitas vezes oferecem aos jovens a primeira bebida: "É aquela mentalidade: 'se for para ele beber, prefiro que seja dentro da nossa casa', quando o cérebro do filho ainda está em pleno desenvolvimento. Pode ser que lá adiante, na vida adulta, essa experiência precoce seja uma espécie de gatilho para o alcoolismo".  Ele frisa o aviso porque essa é uma situação que — vai saber… — pode acontecer com maior frequência agora, durante o período de quarentena, com pais e filhos 24 horas sob o mesmo teto.

Finalmente, não importa a idade, aquelas  situações de vulnerabilidade psicológica — quando não estamos no nosso melhor astral— sempre são um convite para a bebida. E aí podemos dizer que a pandemia é um copo cheio.

Por que bebemos mais na pandemia

Na opinião do professor Arthur Guerra, três fatores podem favorecer o aumento do consumo de álcool durante a quarentena. Um deles seria o que ele apelida, cá entre nós, de efeito de microscópio. "O isolamento social amplia tudo umas 100 ou 1.000 vezes. E passamos a enxergar com nitidez o que antes parecia pequeno. Nem sempre sustentamos essa visão aproximada do detalhe que nos incomoda", conta o médico. Então, o que era uma leve tristeza pode ganhar um espaço maior, o da depressão. E a ansiedade, que era administrada antes do isolamento, é capaz de se transformar em pânico.

O segundo fator são as incertezas estampadas nas manchetes. "As informações contraditórias — faça isso, não faça aquilo, faça isso de novo, incluindo fake news —  tornam o momento mais difícil de lidar. É como se, para algumas pessoas, essa insegurança criasse a necessidade de um o apoio, uma muleta que o álcool pode ilusoriamente representar."

Eu diria que o terceiro fator apontado pelo professor Arthur Guerra é quase da mesma família, porque também mina a confiança: ora, ninguém sabe quando nem como tudo isso vai acabar. O que, por sinal, leva à outra questão: "Ok, as pessoas estão bebendo mais, mas por quanto tempo continuarão isoladas em casa e consumindo mais álcool rotineiramente? Nem eu, que sou médico, sei lhe dizer", comenta o professor. O tempo que perdurar esse novo hábito pode contar.

Quando uma pessoa se torna dependente?

Antes se pensava em quantidade: especialmente na visão dos leigos, o marco da dependência era o tal beber pesado episódico. Seria o caso daquela pessoa que toma todas até ficar trôpega, passar mal, cair inconsciente, dar perda total. Mas nunca foi bem assim. O organismo de mulheres orientais, por exemplo, tende a metabolizar muito mal o álcool — nos primeiros goles, elas já ficam com o rosto afogueado do pileque. Mas não se tornam necessariamente dependentes da bebida por um incidente ou outro.

Há quem ache, por sua vez, que ser dependente é beber todos os dias ou quase todos os dias, mesmo que seja só um golinho. Às vezes é um conceito errado também.  "A verdade é que a ciência não definiu um limite a partir do qual uma pessoa é considerada dependente", esclarece o psiquiatra. "Entre um extremo e outro, há muitos tons de cinza."  

Bebendo demais ou um pouco todo dia, alguns reagem passando mal quando ficam longe de um drink qualquer, sentindo angústia, tremores no corpo…. Para eles — aqueles 20% —, a bebida age no cérebro como se fosse um remédio que dá alívio imediato, provocando um relaxamento que, muitas vezes, não dura quase nada. De rebote pode aparecer o comportamento violento.

"Uma coisa é certa: ninguém se torna alcoólatra porque bebeu mais do que antes ao longo de apenas dois meses, tempo da nossa quarentena até o momento", tranquiliza o psiquiatra. Mas também avisa: "Se o cérebro dessas pessoas registrar que o álcool ajudou demais nessa fase delicada, pode ser que, no futuro, aí sim, elas voltem a beber ao se sentirem fragilizadas e criem aos poucos uma dependência." 

Na opinião do médico, devem surgir estudos acompanhando essas pessoas nos primeiros seis meses após o final do isolamento. E ele acredita no potencial de recursos como diários ou, melhor ainda, aplicativos em que os usuários possam registrar quando compram bebida e a velocidade com que esvaziam latinhas e garrafas. "O indivíduo ter consciência de que começa a beber mais em determinadas situações ou estados de ânimo pode ajudar a prevenir problemas", nota.

Na prática, o que fazer na quarentena

Arthur Guerra, como a própria OMS, sugere que todos evitem pra valer o álcool nessa temporada ou, ao menos, reduzam bastante a dose. "E a tolerância deveria ser zero para os adolescentes, pela vulnerabilidade do sistema nervoso na idade deles", reforça.

Lembre-se que 1 dose padrão equivale a 14 gramas de álcool puro, o que corresponde a uma lata de cerveja com 5% de teor alcoólico,  uma taça de vinho — seja ele branco, rosé, tinto, espumante  — ou a 45 militros de qualquer bebida destilada, como vodka, uísque, cachaça, gin e tequila. Se quiserem mesmo beber, as mulheres, em geral, deveriam consumir no máximo uma dose por dia e os homens, duas doses. 

Até porque a pessoa deixa de tomar decisões com presteza quando está embriagada, ainda que levemente. E, não adianta tentar esquecer, estamos vivendo uma pandemia e, nela, é preciso ficar esperto: você pode ser necessário para levar alguém até um pronto-atendimento, pode ser obrigado a decidir para onde correr diante de qualquer problema de saúde e precisa evitar até mesmo pequenos acidentes domésticos, se estiver sozinho. Melhor ficar com a cabeça sóbria.

Ah, nunca misture bebida alcoólica com medicamentos. Cachaça não é água para engolir comprimido, não. O álcool afeta a ação de muitas drogas. Algumas deixam de agir. Outras, ao contrário, agem até demais e, daí, podem ter efeitos ruins. 

E, se está trabalhando em casa, comporte-se como se estivesse na firma. Você não levaria uma taça de vinho para  a mesa do escritório ao meio-dia sabendo que ainda tem horas de batente pela frente. Pode até querer — quem nunca? Mas não é exatamente uma ótima pedida.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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