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Hipertensão, diabetes... Por que nunca focamos na saúde da pessoa negra?

Lúcia Helena

09/06/2020 04h00

iStock

Já passou da hora de dar à nossa saúde o devido colorido: 56,1% da população deste país se declara negra, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. São 19,2 milhões de pretos e 89,7 milhões de pardos. Fugiu das aulas de matemática ou, quem sabe, das do bom português, invertendo descaradamente antônimos, quem fala deles como "as minorias".  São a nossa maioria, são a nossa gente. 

E, no entanto, outros números desvelam nossas piores inversões de valores: os indivíduos negros representam 75,2% entre os mais pobres na sociedade brasileira. E isso explica o que nada — nada, nada — neste mundo poderia justificar: a vulnerabilidade a doenças determinadas por baixas condições sanitárias, insalubridade na moradia e no ambiente de trabalho, alimentação de má qualidade e as demais mazelas provocadas pelas nossas feridas sociais. 

Mas nem é delas que vou falar aqui e, sim, de problemas que são mais comuns em pessoas negras, embora lamentavelmente isso quase nunca fique preto no branco.  Ora, alguém já enfatizou pra valer que o exame da próstata deveria ser feito cinco anos mais cedo em homens negros? Ou que o risco de uma pessoa preta ou parda se tornar diabética é mais elevado por natureza?  

Daí que, sem se enxergarem nas campanhas de prevenção, os negros tampouco vislumbram o maior risco que correm.  Sem contar outras situações na Medicina em que pessoas negras permanecem invisíveis, como nas pesquisas de novas drogas para tratar o câncer.

Minoria? Nas pesquisas clínicas, sim

Quando os cientistas testam a segurança — se faz mais bem do que mal — e a eficiência de um novo tratamento, eles sabem que os resultados variam conforme a idade do paciente, o gênero, o estilo de vida e, sim, pesa bastante o fator racial. No entanto, historicamente há pouquíssimos negros nesses estudos.

Há quase dois anos, a revista Nature Medicine publicou um levantamento do perfil de participantes nas pesquisas clínicas realizadas nos Estados Unidos que levaram à aprovação pelo FDA de 31 novas drogas para tratar o câncer no período entre 2015 e 2018. Na média, 4,1% dos pacientes eram afro-descendentes. Muito pouco. Se a gente olha apenas para os trabalhos que investigaram remédios para combater o mieloma múltiplo, essa média até sobe ligeiramente, vai para 5%. Só que detalhe: 14% dos doentes com esse câncer são negros.

Na prática, esse é um desconhecimento que pode causar boas e más surpresas. "Nós sabemos que alguns medicamentos contra tumores, capazes de levar a um excelente resultado em americanos de ascendência europeia, decepcionam e têm uma resposta negativa em pacientes de origem asiática. E vice-versa". diz Fernando Santini, oncologista do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. "'Isso é prova de que não dá para generalizar. Só que não temos muita informação para prever como seria a reação de pacientes negros aos mesmos tratamentos."

Enquanto conversamos, ele consulta os dados do maior estudo com o osimertinib, droga de última geração para atacar um tipo extremamente agressivo de câncer de pulmão quando ele já se espalhou pelo corpo. Pois bem: entre os pacientes, 36% eram brancos, 62% eram descendentes de asiáticos, por ser um câncer frequente entre eles, e ínfimo 1% era, assim entre aspas, "outros". Leia: a soma de descendentes de índios americanos, de esquimós do Alaska e negros.

Fernando Santini explica que isso acontece porque, nos Estados Unidos e na Europa, o paciente recebe de graça apenas a droga que está sendo testada,  mas ele ou o seu seguro de saúde deve arcar com as despesas de todo o resto, ou seja, com o valor de consultas, exames de acompanhamento, remédios para suportar efeitos colaterais… E aqui esbarramos no abismo sócio-econômico cavado entre as populações negras e brancas ou asiáticas.

Ora, fico pensando: então, se a aposta para o futuro é na Medicina de precisão, aquela que tratará doenças conforme polimorfismos ou variantes genéticas que cada um de nós carrega, ela precisará encontrar uma solução para  incluir pacientes pretos e pardos. Pois tudo aquilo de bonito que a gente lê sobre novidades da ciência de ponta para curar o câncer e outras doenças pode funcionar tão bem para eles ou não. Como saber?

Homens negros: idas ao urologista a partir dos 45 anos

Se, quando ao menos existe acesso ao tratamento, o voo é um tanto às cegas por falta de estudos, não é muito melhor quando se olha para a prevenção. Por exemplo, o risco de desenvolver câncer de próstata em um homem negro é de duas a três vezes maior do que no restante da população masculina. E mais: neles, a enfermidade costuma aparecer até dez anos antes.

"A doença também é claramente mais agressiva em negros do que em homens não-negros", aponta Fernando Maluf, diretor associado do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo e fundador do Instituto Vencer o Câncer. "Por isso que, neles, o rastramento do tumor de próstata deve ser iniciado cinco anos antes."

Ou seja, a recomendação de ir ao urologista só a partir dos 50 anos se não há casos desse câncer da família não é para quem é preto nem para quem é pardo. Aí, a visita a esse médico deveria acontecer por volta dos 45 anos a fim de fazer o exame de toque e o de PSA. Mas, pena, as campanhas de conscientização sobre o câncer próstata — que, aliás, acontecem no mesmo mês da Consciência Negra — não sublinham essa antecipação necessária.

Resistência maior à insulina

No organismo dos negros, as células podem dar mais trabalho para o hormônio encarregado de colocar para dentro delas a glicose circulando no sangue. Essa resistência à insulina é uma condição que, os médicos sabem bem, deixa a pessoa a um pulinho de se tornar diabética. E, em tese, o fato de ser mais frequente em pessoas negras explicaria por que razão o diabetes tipo 2 é 9% mais comum em homens pretos e pardos e cerca de 50% mais prevalente nas mulheres de pele escura do que nas brancas. Mas o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto e um dos maiores especialistas do país nessa doença, discorda.

"Esse é um balaio de gatos, com muitas variáveis", diz o médico. "Essa prevalência em pacientes de raça negra, na minha opinião, tem muito mais a ver com falta de assistência. Sabemos que, infelizmente, a valorização dos sintomas é menor quando o paciente é negro. O seguimento clínico é pior também",  observa com pesar. Isso contribui para um contexto bem preocupante: "No Brasil, 75% dos portadores não aderem ao tratamento corretamente", nota, inconformado.

Barra Couri ressalta ainda o papel do estilo de vida. "Na África, a prevalência de diabetes chega a ser de 11% da população no norte do continente", conta. No entanto, certa vez ele recebeu um jovem pós-graduando do Cabo Verde, país africano insular. Ele investigava o diabetes nos trabalhadores rurais de sua terra natal. E, apesar de a resistência à insulina ocorrer, poucos desenvolviam a doença, provavelmente pelo estilo de vida ativo.

Mas uma coisa é certa: diagnosticar o diabetes em uma pessoa negra nem sempre é simples. Barra Couri explica: "O exame que confirma a doença é o da hemoglobina glicada.  Só que problemas nessa proteína do sangue, a hemoglobina — como a anemia falciforme, que é mais comum em negros — ,  podem dar uma interferência."  Hoje, uma pessoa é considerada portadora de diabetes quando o resultado do exame é igual ou maior a 6,5%. "Mas, em negros, esse valor de referência é duvidoso. Ele pode ser bem menor ou, ao contrário, bem maior." Saiba: a prova dos nove, então, é o exame de eletroforese.

Pressão com tendência a ir para as alturas

De acordo com o  ELSA-Brasil — um estudo que envolveu 15 mil participantes para investigar as doenças crônicas que mais causam mortes no país — ,  30,3% dos brasileiros brancos são hipertensos. Mas a proporção sobe para 38,2% em indivíduos pardos e para impressionantes 49,3% em negros. Praticamente a metade!

Uma hipótese bastante difundida é de que essa seria mais uma triste herança do período de escravidão. Sobreviviam às longas viagens em navios negreiros, nos quais quadros de diarreias e falta de água para beber eram frequentes, aqueles indivíduos com maior capacidade de reter sais e líquidos no organismo. E a mesma lógica valeria no exercício contínuo de trabalhos forçados e extenuantes.

A questão é que essa capacidade de reter água e sal, que foi positiva para a sobrevivência no passado, também catapultaria a pressão arterial. Mais uma vez, as campanhas de prevenção poderiam caprichar no alerta à população negra. Ainda mais quando estamos lidando com uma doença sorrateira, que faz estragos sem alarde — o mesmo vale dizer do diabetes, outro mal silencioso que pode levar à morte por doença cardiovascular.

E o mais triste dos números

No entanto, o mais assustador dos problemas não é, em si, uma doença. Mas com certeza é resultado de um racismo doentio: segundo o Ministério da Saúde, a cada dez jovens entre 10 e 29 anos que se suicidam, seis são autodeclarados negros. É uma dor que eu não me sinto capaz de descrever.  Porque a gente deve ter a humildade de reconhecer que não sabe o que é estar na pele negra do outro. Mas precisamos nos unir e exigir campanhas que, por exemplo, mostrem o tom dominante de setembros amarelos. A prevenção não pode deixar a maioria de lado.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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