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Como pode ficar nossa vida ao terminar o período de distanciamento social

Lúcia Helena

11/06/2020 04h00

iStock

Não pense que o tal do novo normal é pegar sua máscara de pano, seu frasco de álcool em gel e sair todo serelepe por aí. Idealmente, se é para abrir shopping centers — algo que particularmente considero abrir mão do juízo —, que então seja tomada uma série de cuidados para evitar a transmissão do vírus, sem dar muita oportunidade de ele também aproveitar o passeio.

Os especialistas de lugares onde o distanciamento social começou a relaxar há mais tempo — inclusive porque, neles, diferentemente do que ocorre aqui, a curva de novas infecções aponta para o chão — dizem que é bem mais fácil fechar bares, restaurantes, escolas, academias, escritórios e outros estabelecimentos do que reabrir suas portas, pensando na saúde da população diante de uma pandemia que, afinal, mesmo o incêndio tendo sido controlado em um país ou outro, ainda está rodeando o planeta. Ou nem pandemia seria, por definição. 

Resolvi elencar um pouco do que a ciência orienta nesse sentido. Talvez ache loucura tantas medidas de prevenção. Acredite: não há nada de exagero nelas, se quer mesmo minimizar o risco de pegar a covid-19 ou passar adiante o coronavírus que pode estar em você até que se prove o contrário. 

A distância entre nós

Mesmo que as pessoas estejam usando máscaras de pano, a distância correta entre elas deveria permanecer entre 1 e 2 metros — e olhe lá. Cá entre nós, essa medida segura — que, se quer saber com precisão seria de 1,8 metro — foi calculada para outras infecções respiratórias, como a gripe, mas em pessoas que permaneciam paradas. Portanto, em tese ela vale para espalhar as mesas de um restaurante que pretende voltar a funcionar, por exemplo.  Não vale, porém, para aquele corredor de rua que cruza o seu caminho.

Aliás, a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, em um informe divulgado com mais três sociedades médicas, assume que não existe consenso sobre a distância ideal entre pessoas que praticam atividades físicas ao ar livre. Isso porque, durante o esforço, o vírus pode voar até a 9 metros de distância em gotículas de saliva e vapor no instante da expiração. O que me faz lembrar que, embora seja difícil ou desagradável correr desse jeito, quem faz jogging ou ciclismo deveria usar máscara, sim, durante o treino.

Papo rápido

Diga-se de passagem, quando a gente fala, expele gotículas e mais gotículas de saliva. A quantidade costuma ser diretamente proporcional ao volume da voz. Logo, vamos evitar os gritos, até mesmo os de alegria. 

O tempo do bate-papo também conta. Faz sentido: a conversa pode se tornar um chafariz de coronavírus e aí a máscara de pano, ficando muito umedecida, vai perdendo sua capacidade de proteção.

Segundo estimativa de pesquisadores da Universidade Saint Andrews, na Escócia, um diálogo de 15 minutos a uma distância de 1 metro já seria considerado um contato estreito, quase como se a gente estivesse falando ao pé da orelha do outro em termos de risco de coronavírus. No meu caso, como falo pelos cotovelos, essa é a parte mais difícil de controlar. Por falar em cotovelos…

Novos abraços

Apertos de mãos? Você já sabe: nem pensar. O negócio é sair dando umas cotoveladas por aí. Mas… e o abraço? Já existem pessoas estudando isso também. Especializada em transmissão de vírus pelo ar, a engenheira Linsey Marr, professora da Virginia Tech (Virginia Polytechnic Institute and State University), é uma delas. 

Segundo um estudo da Universidade de Hong Kong, estima-se que você precise ser exposto em determinado momento a uma carga de 200 a 1.000 cópias de um vírus respiratório para se infectar. Não se entusiasme: essa meta é alcançada facilmente pelo Sars-CoV 2, se alguém tossir ao seu lado (leia-se, a menos daquele 1 metro e pouco de distância). Então, serão de 5 mil a 10 mil partículas virais no ar, vindas em sua direção, se o sujeito não estiver de máscara e — atenção! — se ele não colocar a mão à frente do rosto como se não houvesse qualquer pano a fim de aumentar a barreira.

Pois bem, baseando-se nesse número, a engenheira da Virginia Tech e seus colegas — em coro com outros centros de pesquisa que tentam estabelecer recomendações para abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim — chegaram a algumas dicas.

A primeira delas é evitar ao máximo encostar seu rosto, mesmo que mascarado, no corpo ou na roupa da outra pessoa com quem você encontrar pelo caminho, mesmo que esteja morrendo de saudade. E lembre-se que há abraços e abraços.

Em tempos de pandemia, o aconselhado é dar um daqueles —afff… —  novos abraços, como os ensinados pela Escola de Medicina da Universidade Harvard em material divulgado para idosos e seus parentes, já que os médicos perceberam que para esse público — público de maior risco para a covid-19, diga-se — apertar ou ser apertado por alguém nos braços é uma das coisas que mais fazem falta. Mas, na verdade, os novos abraços valem para todas as idades.

E novos abraços jamais são dados com uma face encarando a outra. No momento da aproximação, um rosto (friso, com máscara) deve se virar para um lado e o outro, para o lado oposto. A não ser que seja uma criança que, pela baixa estatura, abrace as pernas ou a cintura do adulto.

Aliás, essa é a saída de Harvard para os pequenos nos encontros com vovós. Mas tem um detalhe importante: o adulto, no caso, deve evitar olhar para baixo. Um consolo é que vovô e vovó ou qualquer um de nós poderia abraçar e… — ufa! — até beijar a meninada na cabeça. Só que pelas costas.

Virologistas da Universidade de Leicester, na Inglaterra, se preocuparam menos com a postura de quem abraça e mais com a respiração durante o abraço. E, em modelos experimentais, concluíram que o novo abraço deve ser rápido, com duração máxima de 10 segundos enquanto as pessoas… prendem a respiração!

E, de novo, o pessoal de Hong Kong,  liderado pelo engenheiro Yuguo Li, reparou que o momento mais crítico é o início de um abraço em vez de a hora de desenlaçar alguém dos braços. Agora, repare você: de fato, a gente tende a puxar o ar com mais força e a suspirar na sequência quando vai abraçar alguém querido. 

Ambientes fechados versus ambientes abertos

Embora a tendência seja a gente se sentir mais inseguro cruzando com estranhos nas ruas, todos os trabalhos sobre transmissão pelo ar de vírus em geral mostram que é muito pior ficar em um ambiente fechado, mesmo que ele seja enorme — até porque esses locais grandes costumam se valer de sistemas de recirculação de ar que, sem cuidados nem aparatos apropriados como os de hospitais, se tornam um carrossel para coronavírus e afins.

O meio de transporte, no caso, pode ser considerado um ambiente fechado. Portanto, ônibus, metrôs e, em última instância, até o veículo com outro motorista oferecem, em graus diferentes, algum risco.

Recentemente foi publicado um estudo que aponta nessa direção, analisando o que aconteceu com cerca de 300 pessoas que participaram de um ritual budista na China logo no início deste ano. Trinta pessoas ali presentes se infectaram e duas delas morreram. A maioria tinha assistido à cerimônia dentro do templo, em vez de ter participado do lado de fora. E todos, absolutamente todos os infectados, foram e voltaram para casa de ônibus — que, mais do que ser fechado, era menor do que o próprio templo.

Não, ninguém estava usando máscara nem álcool em gel. Mas a conclusão que fica é que quanto menor o espaço, maior uma possível concentração de vírus para você inspirar.

Quanto mais juntar gente, pior

Esta parece sob encomenda para imagens de shoppings e ruas de comércio que me desolam nestes dias: cientistas da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, alertam que aglomerações são perigosas mesmo a céu aberto, como em parques. Eles usaram um modelo matemático em que, hipoteticamente, 500 pessoas eram colocadas juntas, ao ar livre, fazendo tudo como manda o figurino — máscara e distância de 1,8 metro entre elas. Pois bem: o resultado acusou uma probabilidade quase 100 vezes maior de o vírus fazer a festa do que se, nas mesmas condições, existissem apenas trinta pessoas reunidas.

"Ah, Lúcia, mas ninguém está indo a um show de rock, é só a uma comprinha na rua…"— foi o que você pensou, acertei? Pois bem, de acordo com esses modelos matemáticos, passar bem no meio daquele grupo de três ou quatro que resolveram parar para falar do cachorro na calçada é uma espécie de show de rock só para você. Desvie. E nunca cometa a mesma deselegância de ficar empacando as calçadas em grupinhos. Novos tempos, nova etiqueta.

Você vai escolher o risco?

O CDC americano (Centers for Diseases Control) já prepara listas de situações que vão do menor ao maior risco para orientar a população ao final do distanciamento social. Algumas coisas são óbvias, mas acho bacana que reforcem. Assim sendo, um drive-through é mais seguro do que um lugar em que você pega a comida na porta, mas precisa descer do carro. O que, por sua vez, seria melhor do que ir a um restaurante com mesas dispersas e ao ar livre. Esta, porém, seria uma escolha melhor do que outro restaurante que ofereça mesas em ambientes abertos e fechados. Tanto pior se só houver ambiente fechado… E recuse olhar para o cardápio do lugar que não afasta as mesas.

Segundo o CDC, a escolha do grau de risco deve ser feita a partir de uma reflexão de cada um consigo mesmo: faço parte de um grupo mais vulnerável para a covid-19? Ou ainda: convivo com alguém que seja mais vulnerável?

Essas análises, inclusive estudos sobre abraços por mais bizarros que pareçam, vêm da observação de que, em todos os países, os primeiros focos de transmissão foram em lugares fechados — feito aquela loja… — e encontros de pessoas mais próximas, de reuniões para festejar um aniversário, com todos à volta da mesa, a festas de casamento. Portanto, como a lembrança pode ser uma pandemia em vez de um bem-casado ou um retrato de família, é preciso, sim, que o mundo crie novas maneiras de a gente se encontrar e se amar.

Mas não posso colocar um ponto final sem lembrar que, aqui no Brasil, estamos em outro momento. A curva de transmissão do novo coronavírus não caiu. E qualquer escolha que não seja a de ficar em casa, para quem pode permanecer nela, talvez seja trocar uma vida longa (a sua ou a do outro) por um passeio no shopping.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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