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As sobras da quarentena: será que ela afetará a nossa dieta para sempre?

Lúcia Helena

16/06/2020 04h00

iStock

Os meses de confinamento, para uns, serão recordados como horas extras no fogão, desafiando-se nas panelas, saboreando mais a comida caseira e — a julgar pelas imagens em redes sociais — aprendendo a amassar o próprio pão. Para outros, porém, a lembrança será de caixas abertas de chocolates e outras guloseimas. 

Nos países em que o distanciamento social começa a ser afrouxado agora, cientistas na área da alimentação observam como ficou a dieta das pessoas. O questionamento é se o período em casa foi longo o suficiente para mudar hábitos, para o bem e para o mal. E, claro, no que isso implicaria.

Alguns dos aprendizados até o momento podem valer para a experiência do Brasil — ou melhor, podem valer apesar da nossa falta de experiência em confinamento, já que só metade da população brasileira, quando muito, obedeceu às orientações da quarentena. Inventamos o "ligeiramente em casa" e os que podiam ficar nela ainda passaram o tempo inteiro reclamando de boca cheia.

Na semana passada, o Instituto PENSI, organização da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, da qual também faz parte o Sabará Hospital Infantil, em São Paulo, realizou um webinar com especialistas brasileiros, da Espanha e de Portugal para discutir o estado nutricional da criançada e dos adolescentes com o caos da pandemia.

 "Vivemos uma situação binária", nota o nutrólogo Mauro Fisberg. Professor da Universidade Federal de São Paulo e integrante do PENSI, ele foi o mediador do evento online. "Algumas mudanças acabaram vantajosas: muita gente começou a cozinhar, as famílias planejaram o cardápio como sempre as aconselhamos, as crianças participaram das atividades na cozinha e o esquema de home-office dos pais permitiu que todos fizessem refeições juntos", diz. 

Mas existe o outro lado: "Todos ingeriram mais salgadinhos e doces e o tempo diante de telas aumentou, o que sem dúvida já deve ter levado a um crescimento da obesidade infantil", completa,

Boa parte dos dados disponíveis até o momento, porém, apontam para o prato dos adultos. E, nesta coluna, além de destacar alguns deles apresentados no webinar, salpico informações do que se observa na dieta de pessoas acima de 50 anos nos Estados Unidos. 

Mais frutas, mais verduras, mais legumes, será?

Um dos convidados do webinar do Instituto PENSI foi o pediatra Luis Moreno Aznar. Professor da Universidade de Zaragoza, na Espanha, ele é uma espécie de celebridade internacional quando o assunto é alimentação infantil. Já escreveu mais de 100 capítulos de livros científicos e publicou mais de 500 trabalhos parrudos. O médico se mostrou preocupado: "Existe uma forte possibilidade de que tenha aumentado demais o consumo de alimentos processados com alta densidade energética." 

Talvez, esse aumento seja a base de um iceberg do qual, até o momento, só enxergamos a ponta. E a ponta é ilusoriamente linda. Um estudo, publicado na Revista Española de Nutrición Comunitaria e mencionado por Luis Moreno, entrevistou cerca de 1 mil de seus conterrâneos pela web. Pelas respostas, 72% deles estão comendo mais frutas; 25%, mais ovos; 23% andam colocando mais legumes no prato e 20% passaram a consumir mais peixes. 

Não para por aí: quase um quarto dessa gente afirmou que está mordiscando menos chocolate, delícia que só é saudável para quem controla a gulodice. E 36% diminuíram bastante as porções de carnes processadas. Entre aqueles que não cozinhavam até a chegada da covid-19, 14% foram tomados de gosto pelas caçarolas.

Outro trabalho, este da Universidade de Granada com 7.500 espanhóis que também responderam um questionário online, revela uma maior aderência à dieta mediterrânea, com um aumento expressivo do consumo de vegetais e uma diminuição importante de alimentos ultraprocessados na despensa. 

Então, por que Luís Moreno se preocupa? "Porque, 78% dos respondentes tinham nível universitário e isso decididamente não é representativo da Espanha", informa.  Bem, então aqui, no Brasil, é bem provável que também existam esses dois mundos à mesa. Com o abismo social que a covid-19 ajuda a cavar, a maioria dos brasileiros não está preparando a tal comida de verdade ao lado do chef em uma live

Sendo assim, quando Alice deixar de olhar só para as maravilhas de um país em quarentena, talvez reencontre boa parte de sua população com mais peso. E desnutrida, porque a comida que engorda não é geralmente a que melhor nutre.

Todo mundo virou doceiro

Em Portugal, 47% das pessoas capricharam em bolos, tortas, pudins — imagino, salivando, pasteis de nata e doces de ovos também, assim como alguns de nós perderam a conta das latas de leite condensado que viraram brigadeiro.

Quem trouxe o dado dos 47% no webinar foi o nutricionista Sergio Cunha Velho, do Hospital Pediátrico de Coimbra, baseando-se em um questionário online respondido por 1.346 portugueses. "A pandemia aumentou o estresse e sabemos que ele alavanca o desejo por doces", justifica.

Apesar de tanta sobremesa, as compras de bebidas açucaradas despencaram 21%. Até porque elas são muito taxadas em Portugal para o preço subir e a sede passar com água e com outras opções sem açúcar e mais em conta. "As pessoas, aqui, também estão cozinhando bem mais, isto é, 49% delas afirmam isso. E, o que é bom, as frituras agora representam apenas 2% das preparações feitas em casa", revelou Cunha Velho.

Ainda com tudo isso, os primeiros números à tona acusam que 25% dos portugueses ganharam peso no confinamento. Olhando para as crianças, no hospital onde Cunha Velho atua, 18 das 52 que já passaram pela área de nutrição — que, até o momento, só está atendendo casos mais emergenciais — apresentaram um aumento do IMC, o índice de massa corporal. 

Culpa dos doces caseiros? "Provavelmente, o fator mais importante nessa história foi a diminuição na atividade física mesmo", lamenta Cunha Velho. E, nesse ponto, a situação da meninada pode ser pior do que a dos pais. Adultos, se quiserem, têm o recurso de aulas de fitness online. Já as crianças gostam mesmo é de correr e brincar com amigos. Para elas, mexer-se no confinamento ficou sem graça e, portanto, mais díficil.

Solidão é um péssimo ingrediente

Na semana passada também foram divulgados dados de uma pesquisa nacional coordenada pela Universidade de Michigan, feita com 2.048 americanos acima de 50 anos. O interessante é que eles tinham dados anteriores à pandemia, porque já levantavam os hábitos alimentares dessa população. Com a covid-19, repetiram o questionário para comparar o antes e o durante o confinamento.

A maioria dos indivíduos já costumava preparar o seu jantar seis ou sete vezes por semana e só 5% deles usavam app para pedir comida pelo menos uma vez semanalmente. Agora, tudo mudou: 11%, pedem fast-food três vezes por semana ou mais. A maioria admitiu uma piora na qualidade da dieta. E aqui há duas possíveis causas.

Uma delas, conhecemos bem também: a insegurança em relação ao dinheiro, o desemprego ou o medo de perder o emprego fazem muita gente preferir alimentos mais baratos que, às vezes, não são necessariamente os mais equilibrados.

Outro fator vale reflexão: um em cada quatro americanos entrevistados estão sozinhos em casa ou, mesmo morando com mais gente, acabam sem companhia na hora das refeições. E estes são os que mais apresentaram queda na qualidade nutricional. Para os estudiosos de Michigan, constatações assim podem indicar caminhos para orientar a população e evitar que a saúde desande à mesa.

Tudo passageiro?

Existe a pergunta que faz meio mundo desejar um chocolate para controlar a ansiedade: quando tudo vai terminar? Isso vai mexer com nossos hábitos de maneira duradoura?  "Se a gente pensar em uns dois meses de isolamento social, não acho que qualquer mudança na dieta vá permanecer, nem mesmo as positivas", opina Mauro Fisberg. 

Mas a questão é que provavelmente teremos longos períodos alternados de maior ou menor relaxamento pela frente. Daí tanto estudo, tanto cuidado. "As crianças e os adolescentes tendem a ter menos aulas presenciais", imagina Fisberg. Para ficar só nesse exemplo, se o professor não deixava ninguém entrar com comida do recreio na sala de aula, em casa, ao lado do computador, poderá ser outra história.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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