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Inflamação: o que a covid-19 e um murro na parede têm em comum?

Lúcia Helena

25/06/2020 04h00

iStock

Primeiro, a dor. Fração de segundo depois aparece a vermelhidão e, com ela, o calor e o inchaço. Não tem como escapar, sempre acontecem essas quatro coisas quando o seu corpo tem um único objetivo: reparar seus danos. 

E pouco lhe importa, ele reage assim se o estrago está sendo causado pelas cópias de um invasor superlotando suas células pulmonares até elas arrebentarem— imagine qual invasor seria… — ou se você resolveu descontar a tensão causada por essas e outras socando as paredes.

Para todo estrago em seus tecidos há uma inflamação. É disso que estamos falando. De um fenômeno que nos garante uma vida sem grandes perdas, mas que, se por acaso sai do controle, pode até financiar a morte.

Tapa no bumbum? Inflama. Por instantes, mas inflama. Topada na quina da mesa? Inflama. Osso quebrado? Inflama também. Do arranhão nas costas riscado pela paixão ao corte do bisturi aberto para cirurgia, qualquer rasgo na pele igualmente inflama. O útero que descama na menstruação, idem. A presença de algo diferente no organismo, então, nem se fala. A estranheza inflama, ô, se inflama. Seja um vírus — quiçá, um maldito coronavírus —, uma bactéria, um fungo, o que for…Mas vamos ficar com o murro na parede que,  como exemplo, está de ótimo tamanho.

No choque forte com a superfície, as células nas dobras dos dedos são esmagadas. "Isso faz com quem liberem moléculas que estavam dentro delas, até então bem quietinhas", descreve José Paulo Ladeira, um dos autores de "Medicina Intensivista: Abordagem Prática", obra editada pela Manole. 

Formado em clínica médica, ele atua na UTI do Hospital Sírio Libanês e na telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein, ambos em São Paulo. E, com paciência, recapitulou comigo tudo o que envolve uma inflamação. Afinal, em tempos de covid-19, esse é um termo sempre citado por todos. Mas, cá entre nós, nem sempre tão bem compreendido.

Os mediadores inflamatórios

"Essas moléculas guardadas nas células, liberadas quando elas se machucam, são os tais mediadores inflamatórios, que funcionam como mensagens. Basicamente, nesse momento ele são um pedido de socorro", compara o doutor. "Há diversos mediadores e cada um deles têm um destino específico". Mas, em suma,  no conjunto todo o alarde que fazem é para despertar o sistema imunológico.

E pode se imaginar que, entre as primeiras moléculas a darem o seu grito de alerta, estão aquelas que disparam a dor, irritando os nervos locais e, depois, viajando até o cérebro, onde perpetuam a sensação dolorosa para que o problema não caia no esquecimento. "A dor é sempre um aviso importante. Ela quer dizer: 'opa, existe uma lesão bem aqui"."

O murro na parede também estoura grânulos intracelulares onde estavam as moléculas de histamina. Uma vez soltas, sem perder tempo elas relaxam as fibras musculares ao redor dos vasos sanguíneos. Porque a ideia é essa mesmo, que eles se dilatem para facilitar a passagem de mais e mais sangue. Daí o tom avermelhado na região em apuros. É sangue chegando para trabalhar.

E aliás, como somos animais de sangue quente, a área onde esse líquido se concentra após o chamado de emergência também fica aquecida. Sem contar que alguns mediadores, mais uma vez pegando carona na circulação, indo do local problemático até os miolos, às vezes mexem o termostato do sistema nervoso central. 

É claro que ele mal vai se abalar por causa de uma parede socada, por maior que seja a raiva descarregada nela. Mas se os estragos fossem maiores e mais duradouros, como em uma infecção pelo novo coronavírus, poderia surgir a febre.

Além de dolorida, quente e vermelha, a região da pancada costuma inchar — nem que seja de um modo sutil a ponto de você não notar. "'É que outros mediadores tornam as paredes dos vasos mais permeáveis", conta o doutor Ladeira. "Então, extravasam líquido e glóbulos brancos de defesa, que em princípio fazem um reconhecimento da área para entender o que de fato está acontecendo e disparar as próximas medidas." 

Assim, se for um agente externo, como uma bactéria ou um vírus, esses glóbulos irão chamar outras células de defesa para combater o estranho. Já se for o trauma de esmurrar a parede, irão apelar para células envolvidas na cicatrização. Sim, mesmo que você não esteja sangrando, acredite que qualquer pancadinha sempre lhe fere por dentro. Só que isso, com a ajuda providencial da inflamação tem conserto. 

Toda inflamação tem três etapas

Após despertar o sistema imune, a inflamação entra na fase de contenção, evitando que um dano se propague. Fica mais fácil entender quando é um vírus ou qualquer outro agente externo: o ideal é segurá-lo bem onde está para que não alcance outros órgãos.

Sob esse ponto de vista, por mais difícil que seja de engolir, aquelas amígdalas inflamadas são uma contenção de sucesso. O intruso, vírus ou bactéria, possivelmente ficará só por ali.

No entanto, a contenção também acontece quando a inflamação é disparada pela punhalada dessa história. "Ou não apenas as mãos ficariam doloridas, mas quem sabe a inflamação se espalharia pelo braço inteiro", imagina José Paulo Ladeira. "E é problema quando não se contém a progressão do processo inflamatório. Pense em uma picada de abelha quando, em vez de inchar só nos arredores da ferroada, ela provoca edema em todo o corpo e ameaça fechar a glote." Nesse caso extremo, é um choque anafilático.

A inflamação, na sequência clássica, organiza os reparos necessários em seu gran-finale. Hora de limpar a arena em que as defesas lutaram contra uma bactéria. Ou de fechar um corte direitinho com uma bela cicatriz. Enfim, entregar o corpo pronto para outra. Ou para outras.

"Isso porque todos os dias o nosso corpo inflama e desinflama várias vezes", diz o doutor. Pode acontecer quando você apanha algo mais pesado e algumas fibras no meio da musculatura se rompem. Ou ao morder a língua distraído. Ou ao sair por aí e… — credo! — pegar você sabe o quê!

Quando o final não é o previsto

Depois, outros mediadores entram em cena, tão fundamentais quanto aqueles primeiros. "É o momento de desmontar tudo", diz o doutor Ladeira. "E assim acontece em 99,9% das ocasiões: a inflamação em geral é um processo benéfico." 

Sim, mas tem aquele 0,1%, modo de dizer. É quando a inflamação persiste sem ter uma boa razão, porque o que a causou muitas vezes até já desapareceu. Exatamente o que costuma ocorrer nos pulmões acometidos pela covid-19. O vírus vai embora. Mas a inflamação segue.

Ou quando é violenta e rápida demais, como em determinadas meningites bacterianas que são capazes de fulminar o paciente em 12 horas — "aí, não é a bactéria que mata, mas a reação inflamatória exagerada", explica o médico.

Ou, ainda, quando o sistema imunológico ataca os tecidos do próprio corpo. "É como se ele ficasse míope e não enxergasse direito o que seria de fato algo estranho e o que seria normal", diz o doutor Ladeira. "Quem tem lúpus eritematoso, exemplo de uma dessas doenças autoimunes, vive disparando inflamações nos rins, o que faz os glomérulos  — que seriam suas usinas de filtração — serem reparados sem necessidade por uma cicatriz", explica. 

A questão, no caso, é que o tecido cicatricial é um tapa-buraco. Só serve para preencher um espaço destruído, emendar pedaços. E esse remendo não filtra o sangue… Resultado: se nada é feito, os rins vão perdendo aos poucos a sua capacidade de trabalho.

Anti-inflamatório?

Existem diversas táticas para evitar que uma inflamação passe do ponto. Vão da bolsa gelada que comprime os vasos dilatados de um tornozelo que sofreu uma entorse a remédios que agem em um daqueles mediadores — "cortando a sua mensagem de S.O.S., cortamos também a resposta inflamatória", resume o doutor Ladeira. 

Nos casos de doenças autoimunes, costuma-se apelar para drogas imunossupressoras que, ao baixarem a bola das defesas, são eficientes para impedir os ataques ao próprio organismo. No entanto, apresentam a desvantagem de não serem específicas para determinado alvo — poupam os órgãos na mira desses ataques injustos, mas impedem também aquelas inflamações que seriam bem-vindas.

Acho que nem preciso dizer —preciso? — que o certo é conversar com o médico e não sair tomando um anti-inflamatório por conta própria. Para aqueles primeiros dias de uma infecção viral na garganta, sem pus,  talvez seja mais indicado aliviar a dor com um simples analgésico, mas  deixando a inflamação fazer o seu serviço.

Modular a inflamação é a chave. Sem abortar a missão antes da hora, nem deixá-la avançar além da conta. "Há inúmeros fatores envolvidos, apesar de a base do processo ser igual. Por isso, não dá para tratar todas as inflamações como se fossem iguais", avisa o doutor Ladeira.

Quem está mais vulnerável

Existem pessoas que podem sofrer consequências sérias de uma inflamação que, em princípio, seria boba. Quem tem placas nas artérias — é um desses casos — corre o risco de uma delas se romper por causa de substâncias inflamatórias que caíram na circulação e, daí, um de seus pedacinhos entupir o fluxo do sangue no coração ou no cérebro, ocasionando um infarto ou um AVC, respectivamente.

Por outro lado, existe quem produz mais mediadores inflamatórios por natureza, como as pessoas que sofrem de obesidade, já que o tecido adiposo gera por si só essas substâncias. "Portanto, qualquer inflamação no organismo delas tende a ser um ponto mais intensa", explica o doutor Ladeira. Eis a provável razão por que indivíduos muito acima do peso evoluem pior, se por acaso pegam a covid-19. E, em tese, a mão deles talvez sofra mais ao desferir um golpe na parede.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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