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A nova etapa do mapeamento da covid-19 em São Paulo mostra duas epidemias

Lúcia Helena

01/07/2020 17h05

iStock

Por mais que a gente pudesse supor que seria assim, não dá para encarar a dura realidade dos números trazidos pelo SoroEpi MSP sem entrar em choque. O projeto, envolvendo médicos e cientistas da Universidade de São Paulo, do Grupo Fleury e do Ibope Inteligência — e que conta ainda com o apoio do Instituto Semeia e do Todos Pela Saúde —, criado para medir a proporção de indivíduos que já têm anticorpos contra o Sars-CoV 2 no município de São Paulo, mostra que a maior cidade da América Latina vive, no mínimo, duas epidemias que se propagam em velocidades bem diversas. 

Em uma delas, 6,5% das pessoas já tiveram contato com o vírus e seu organismo produziu anticorpos para se defender. A outra, porém, é bem mais cruel, porque nessa espécie de universo paralelo o coronavírus já infectou nada menos do que 16% da população. 

É, sim, o mesmíssimo agente causador da síndrome respiratória aguda. Mas ele — está na cara, ou melhor, nessa diferença de quase 10 pontos — encontra facilidade para fazer novas vítimas na metade mais carente da cidade que, para o projeto, foi dividida em duas. A São Paulo de maior renda e a São Paulo de menor renda. Duas faces distintas da covid-19. E nem os mais pessimistas imaginavam que o fosso entre elas, cavado pelo novo coronavírus, acabasse tão fundo, abissal.

Reflita: ninguém está falando de acesso ao tratamento depois de manifestar a doença. Por mais heroico que seja o nosso SUS — e ele é —, infelizmente não se pode comparar os recursos de certos hospitais que são excelentes, inclusive públicos, e os de outros. Lamento reconhecer, mas não haveria tanta surpresa se encontrássemos discrepâncias no atendimento aos doentes. Mas aqui o ponto é a prevenção, a oportunidade de tomar medidas para se proteger. Nem todos têm essa chance. E os que têm, quem diria, muitas vezes reclamam.

Não adianta querer cobrir as nossas diferenças sociais medonhas, porque o Sars-CoV 2 as denuda sem o menor pudor. O SoroEpi MSP mostra que o número de indivíduos que já foram infectados é 4,5 vezes maior entre aqueles que não conseguiram nem sequer completar o primeiro grau na escola, em comparação com quem teve a oportunidade de concluir o ensino superior. Precisamente,  22,9% contra 5,1%. Ah, sim, estamos comparando apenas adultos, porque todos os participantes tinham acima de 18 anos.

Se olharmos para a raça, 19,7% das pessoas que se declararam pretas já são soropositivas para o Sars-CoV 2. Pardas? Menos: 14% das que se reconhecem como pardas têm anticorpos. Brancas? Ah, nesse caso, apenas 7,9%. A paleta da nossa pele dá o tom nítido de quem está mais exposto ao coronavírus.

Mas, se você ainda não está convencido de que ele ergue um muro entre mais pobres e mais ricos, olhe então para as residências. Nas casas onde vivem — e muitas vezes se apertam — cinco ou mais pessoas, a prevalência de soropositividade é duas vezes maior do que nos doces lares paulistanos de um único morador ou dois, no máximo.

Detalhe: aparentemente ser mais jovem ou mais velho não conta muito, no que diz respeito a pegar o novo coronavírus. Ok, ficar doente depois de contaminado, sim, pode ser outra história. Também não se notam grandes mudanças nos números do SoroEpi MSP olhando se é mulher ou homem. Portanto, decididamente não são essas as nossas maiores diferenças.

Como a soroprevalência dos paulistanos foi medida

A capital paulista tem 8.407.202 habitantes com mais de 18 anos. Podemos dizer que, desse total de adultos, 11,4% já foram contaminados com o Sars-CoV 2. Ou aproximadamente 858 mil pessoas espalhadas por São Paulo. Mas, como expliquei, os cientistas dividiram o mapa paulistano entre uma metade com distritos de maior renda e outra com menor renda. 

"Claro, quem conhece a cidade sabe que não é tão simples, porque existem regiões, como a do Morumbi, em que encontramos endereços de alto padrão ao lado de comunidades mais vulneráveis, como Paraisópolis", observa o biólogo Fernando Reinach, o grande idealizador da iniciativa. Para o SoroEpi MSP, o critério que faz cada distrito parar em uma metade ou em outra é a renda média de seus moradores.

Esses dois lados da cidade, por sua vez, foram divididos em 115 setores censitários. "São, por assim dizer, conjuntos de quarteirões", define a estatística Marcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência. "Primeiro, nossos pesquisadores foram até eles para contar casa por casa, apartamento por apartamento, a partir de um ponto inicial determinado— geralmente um cruzamento de ruas. Desse modo, listaram os domicílios, atribuindo um número a cada um deles". 

Depois disso, realizou-se um sorteio. Imagine que o número sorteado foi o 20. Então, a vigésima residência da lista entrou na jogada. "Diferentemente de outras pesquisas em que, se a pessoa não atende a campainha ou não pode responder naquele momento, o pesquisador vai embora e troca aquele entrevistado por outro com perfil semelhante, nessa metodologia insistimos no domicílio sorteado até o fim. Não vale a troca", conta Marcia. 

Por vezes, é um trabalho de convencimento delicado. Até porque todos os adultos vivendo sob o mesmo teto precisam participar. Dá para fazer ideia do esforço, já que foram 12 residências em cada um desses setores censitários ou grupos de quarteirões. E, enquanto divulgam os resultados dessa primeira fornada de informações, os cientistas já se preparam para outra. 

O processo será repetido mais cinco vezes. O retrato completo dos caminhos da pandemia — ou das pandemias — pela cidade será delineado em seis meses de investigação. Um raio pode cair novamente no mesmo telhado?, perguntei à Marcia Cavallari, querendo saber se um domicílio poderia ser sorteado duas vezes. "'É improvável, mas sim. Cada pesquisa é independente, começamos do zero e sorteamos tudo de novo.'

Os 1.183 participantes de junho tiveram uma amostra de sangue colhida, que passou por um exame altamente sensível para detectar os tais anticorpos. Eles também responderam um questionário que está sendo analisado. 

Respostas para poucas e boas perguntas

As informações do questionário, lado a lado com o exame de anticorpos, darão pistas: quem foi contaminado pelo novo coronavírus espalhou para as outras pessoas da casa? Assintomáticos produziram mais ou menos defesas?  E quais foram os sintomas mais comuns? 

Para a epidemiologista Beatriz Tess, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, mais interessante do que saber qual a frequência desse ou daquele sintoma — "afinal, são aqueles que a literatura científica já apontava, como a perda ou a diminuição do olfato", diz ela —  será entender há quanto tempo eles iniciaram.

"Então, conseguiremos comparar essa resposta com a dosagem dos anticorpos. Por exemplo, vamos saber se tem mais IgM, o tipo que prevalece na fase aguda da doença, ou IgG, o anticorpo que surge umas três semanas depois", explica. "Ou seja, teremos uma noção de como a covid-19 evolui e em qual ponto aparecem os seus sinais."

O retrato é o de uma São Paulo de adultos

A professora Beatriz Tess reconhece que a não inclusão de crianças e adolescentes é uma limitação do estudo. Para você ter ideia, estamos falando de mais de 3 milhões de jovens paulistanos. "Tudo foi muito pensado e tomamos essa decisão por dois motivos. O primeiro deles é que incluir crianças encareceria demais o projeto", explica a médica.  

De fato, coletar o sangue da meninada exige material apropriado e até mesmo profissionais especializados em acertar em cheio na veia dos pequenos, o que não é uma missão simples como aparenta. Sem contar a dificuldade para obter a autorização dos pais. Esse, aliás, era o segundo receio: o de muita gente não topar por envolver a picadinha nos filhos pequenos.  "Mas há um atenuante nessa história: as crianças são mais poupadas pelo novo coronavírus", diz o professor Celso Granato.

Pela experiência do Grupo Fleury,  30% dos adultos com sintomas de uma possível covid-19 submetidos ao RT -PCR — exame que detecta o material genético do vírus — recebem um resultado positico. Já as crianças na mesma situação suspeita… O Sars-CoV 2 é detectado em apenas 1,5% delas. A ciência ainda não sabe dizer o motivo disso.

Quem já apresentou anticorpos está protegido? E quem não apresentou?

Saiba: vírus são tipinhos que não gostam de ficar soltos por aí. Na primeira brecha, correm para dentro de uma célula, onde se replicam. E só saem dela para infectar outras. É nesse breve momento em que se lançam para uma nova invasão que os anticorpos atuam, barrando a tropa inimiga em seu trajeto e impedindo que ganhe território. No entanto, é quase sorte pegar um vírus assim no pulo, porque na maior parte do tempo ele não está circulando. "Por isso, talvez mais importante do que possuir anticorpos, é ter a resposta celular", explica Celso Granato.

A resposta celular é uma segunda estratégia de suas defesas. Elas enviam linfócitos que destroem as células doentes que escondem o vírus clandestino dentro de si. Isso, no contexto de uma virose, parece muito mais eficiente. Acontece que os exames para flagrar a resposta celular são bem mais complexos, inviáveis para um estudo da magnitude do SoroEpi MSP. 

Talvez se pergunte: então medir os anticorpos desses milhares de paulistanos não diz muita coisa? Nada disso. "O anticorpo é um excelente marcador. Ele indica que o vírus esteve naquele organismo", diz o professor Granato. "E podemos supor que esse indivíduo, então,  apresentou uma resposta celular também."

A recíproca, porém, talvez nem sempre seja verdadeira. Há famílias com vários casos de covid-19 e, no entanto, às vezes um de seus membros, apesar da conviver com os parentes doentes, não tem anticorpos. "É esquisito que não tenha contraído o vírus, assim como é estranho pensar em anticorpos desaparecendo um mês depois. Mas podemos especular que, em alguns indivíduos, os anticorpos somem e ainda assim existiria a resposta celular." Quem sabe…

A tirar pela experiência que Medicina teve com o Sars-CoV 1, em 2002 na China, e com o coronavírus da MERS,  que se espalhou pelo Oriente Médio em 2012, ambos aparentados do inimigo da vez, esses anticorpos deveriam durar uns três ou quatro anos. 

Podemos ser boas cobaias para vacinas

Não sei se sabe, mas o SoroEpi MSP teve um piloto, realizado no dia 4 de maio. Naquela época, 4,7% dos moradores do município de São Paulo tinham anticorpos. O salto para os 11,4% atuais significa um aumento de 2,4 vezes na soroprevalência. O que é totalmente coerente com o número de óbitos na cidade, que nesse período aumentou 2,7 vezes. 

O prêmio de consolação para esse drama é que ele nos coloca em uma espécie de grupo preferencial para testes de vacinas. Já na fase final de ensaios clínicos, em geral os pesquisadores comparam quem tomou a vacina de covid-19, por exemplo, com a de outra doença, que costuma ser a meningite. Os participantes, claro, não sabem quem tomou o quê.

"Passados uns seis meses, os cientistas devem observar quantos dos que tomaram a vacina em teste pegaram a doença, que no caso seria a covid-19, e quantos dos que receberam outro imunizante qualquer contraíram o Sars-CoV 2", conta o professor Granato. "'Vamos supor que apenas 5% do primeiro grupo adoeceram contra metade do segundo. Isso provaria que a vacina testada seria eficaz para proteger a maioria das pessoas."

Bem, mas para chegar a essa prova, as pessoas precisariam sair por ruas onde haveria o risco de serem contaminadas, certo? Ou… como saber? Portanto, se existe algum lado bom no descontrole… Ora, o salto na soroprevalência denuncia que cruzar com o Sars-CoV 2 em um passeio em São Paulo é relativamente fácil. 

Menos distanciamento social. E agora?

De uma coisa, porém, não podemos nos esquecer. Todas as amostras desse estudo foram colhidas entre 15 e 24 de junho. "E o corpo humano demora um tempo para produzir os seus anticorpos, ou seja, essas pessoas soropositivas foram contaminadas, no mínimo, uns dez dias antes", lembra Celso Granato. Leia: antes de mais gente voltar ao trabalho e às ruas.

Em outras palavras, esse retrato devastador das nossas diferenças sociais, mostrando a vulnerabilidade de uns bem maior do que a de outros,  já está ultrapassado. E ninguém sabe como as coisas ficarão com o relaxamento do distanciamento social. Mas a expectativa é clara e triste: paradoxalmente, ele deverá aumentar ainda mais a distâncias entre as duas São Paulo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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