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Covid-19: ganhou aquele kit de remédios com ivermectina? Então, jogue fora

Lúcia Helena

09/07/2020 04h00

iStock

O que será que as pessoas têm na cabeça quando compram milhões de doses do medicamento ivermectina para distribui-lo ao povo, como aconteceu em Itajaí, Santa Catarina? Ou quando dão comprimidos com essa substância feito água benta no estacionamento de uma paróquia, como ocorreu na cidade de Aparecida de Goiânia, em Goiás? Já sei: só pode ser piolho!

Afinal, a ivermectina é mesmo tiro-e-queda para a pediculose, quando esse inseto infesta o couro cabeludo, chupando-lhe o sangue. No entanto, alguém dizer que ela previne a covid-19, se nem sequer há evidências científicas sólidas de que a trata, isso, sim, me provoca coceira de nervoso.

Itajaí e Aparecida de Goiânia que não se sintam isoladas no mapa. Pois, em terra de doido, não estão sozinhas. São apenas exemplos de municípios brasileiros que resolveram oferecer "kits covid-19", os quais costumam incluir a sempre citada hidroxicloroquina, o antibiótico azitromicina, um remédio para enjoo, um anti-inflamatório, um anticoagulante, algo para dor e febre. E agora, a ivermectina.

Nem vou discutir comprimido por comprimido desse combo. Até porque não vale a pena voltar ao debate da hidroxicloroquina, medicação que se tornou carta praticamente fora do baralho da ciência para o tratamento da covid-19, já que os estudos com seres humanos não comprovaram qualquer ação nesse sentido. Idem, a azitromicina. Vou, então, focar no remédio da vez. 

Hoje, existem 32 estudos registrados sobre a ivermectina em pacientes com covid-19. A maioria engatinhando. Só dois finalizaram. Um deles há exatos oito dias, em Bagdá, no Iraque. O outro, há quatro dias, em Bangladesh. Nenhum dos dois foi publicado ainda.

"Eles nem devem ter chegado a resultados espetaculares ou isso, diante da pandemia, já teria sido alardeado antes mesmo da publicação ", arrisca Flavio Emery, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas — entidade que, por sinal, emitiu uma bela nota, com vários pingos nos "is"  contra a indicação da ivermectina para a covid-19.  Aliás, o uso descabido nem faz jus à sua história — história que rendeu um Prêmio Nobel em 2015.

De onde vem a ivermectina

No final dos anos 1960, o químico japonês Satoshi Omura buscava antibióticos que viessem da natureza, produzidos por bactérias que habitam o solo. Em 1974, um ano depois de ter firmado uma parceria com a farmacêutica Merck, onde atuava o bioquímico americano  William Campbell — com quem dividiu o Nobel —, o professor Omura revisitou as amostras de terra que havia colhido em um campo de golfe em Ito, cidadezinha próxima de Tóquio. E ali encontrou compostos bastante promissores, que seu colega resolveu testar contra verminoses e outras doenças parasitárias em animais.

"E, de fato, a mistura complexa de oito compostos, que chamaram de avermectina, se mostrou eficiente", conta o professor Emery. Depois, os cientistas modificaram as moléculas e obtiveram uma substância 25 vezes mais potente do que os tratamentos que existiam para verminoses até então. Surgia a ivermectina.

Em 1982, notou-se que a droga agia contra o verme causador da oncocercose, doença negligenciada conhecida como cegueira dos rios, que roubava a visão de milhares de indivíduos de 19 países africanos. "Foi um marco na saúde pública", observa o professor Emery. Daí que, em 1987, a medicação foi aprovada para uso humano e passou a ser usada, inclusive, para acabar com o piolho. Não ficou por aí: no final dos anos 1990, descobriu-se que, associada a outro vermífugo, ela podia tratar a filariose linfática, condição gravíssima também conhecida como elefantíase.

"Repare: foi uma longa trajetória que só rendeu um Nobel mais de cinquenta anos depois, sem que ninguém tenha destacado uma atividade antiviral desse medicamento em seres humanos durante todo esse período. Por isso, é  estranho atribuírem esse efeito à ivermectina quase do nada, agora em 2020", pondera Flavio Emery. 

E o mais irônico: Omura explicitou com todas as letras que uma das razões por que apostaram na droga para testes contra parasitas foi o fato de ela não ter, abre aspas, "qualquer efeito antiviral". Isso evitaria confusão, digamos assim, na hora de interpretar seus resultados contra vermes, insetos e carrapatos. 

Não é errado tentar…

… , só que não se tenta desse jeito. Em épocas normais, a busca de um novo remédio pode ser dividida em duas grandes etapas. Na primeira delas é que se testam diversas moléculas candidatas em tubos de ensaio para, daí, se derem certo, serem aplicadas em animais.

Já se, em bichos, os resultados continuam positivos, iniciam-se então os testes clínicos. Ou seja, em seres humanos. "Eles se dividem em três fases, provando que a substância é eficaz e segura", explica o professor Emery. "Todo o processo, da descoberta aos ensaios clínicos, leva entre 12 e 15 anos."

Para acelerar em situações emergenciais como a da covid-19, é possível adotar o que os especialistas chamam de reposicionamento. Em outras palavras, no caso, substâncias utilizadas para outras doenças quaisquer são estudadas para a infecção pelo Sars-Cov 2 — de preferência aquelas que, em algum momento, tenham sido experimentadas em vírus. Se uma delas der certo, a nova indicação será acrescentada na velha bula, com o devido aval das agências regulatórias de cada país. É o que está acontecendo com o antiviral remdesivir e com o anti-inflamatório dexametasona em alguns lugares da Europa.

Nessas tentativas, a ivermectina teve a sua chance, embora no passado ela não tenha sido exatamente um sucesso quando foi colocada à prova contra o vírus da dengue e o da gripe. Mesmo assim, cientistas australianos afirmaram que a substância deu cabo do coronavírus em vidros de laboratório. Mas ninguém garante que a mesma coisa aconteceria dentro do organismo humano.

Vidro é vidro, gente é gente

Quando um pesquisador faz o famoso teste in vitro, as coisas são mais simples: "Eu tenho um alvo, que pode ser o coronavírus, e ele é fácil porque está completamente exposto", explica o professor Emery. Ou seja, se o medicamento tiver qualquer atividade, ele não terá como errar — pode não agir como o esperado, o que é outro papo. 

No entanto, dentro do corpo humano, mesmo que tenha funcionado no vidrinho, será bem diferente. O alvo estará escondido. Até encontrá-lo, a molécula atravessa diversos tecidos, às vezes se perdendo ou desaparecendo no caminho. O ambiente também muda, podendo ficar ácido e hostil de uma hora para outra — por exemplo, se ela cai no estômago.

A medicação pode, ainda, trombar com outras moléculas capazes de atrapalhar a sua missão, desde aquelas produzidas pelo próprio organismo a nutrientes. Tudo contará — para o bem ou para o mal. E, nessa prova de obstáculos, o remédio talvez não chegue diante do alvo na quantidade necessária para vencê-lo. Para compensar, a saída seria aumentar a dose.

A dosagem seria tóxica

"Grosso modo, vemos  que a quantidade de ivermectina que deu certo contra o novo coronavírus no estudo in vitro equivaleria a mais de 100 comprimidos", conta Flavio Emery. A pessoa não morreria de covid-19, mas engasgada.  "É uma dose bastante tóxica", fala sério o professor.

Pergunta: quem aceitou o kit e tomou a ivermectina precisa ficar com medo? É bom ficar atento, porque nesses kits é oferecida uma dose um pouco maior do que a de sempre, mas que ainda assim nem sequer arranha o novo coronavírus.

Não engula que isso é uso off label 

A expressão em inglês é aplicada quando os médicos prescrevem um remédio conhecido e aprovado para determinadas doenças, só que para tratar um outro problema que ainda não consta em sua bula. Mas atenção para o alerta de Flavio Emery: "É diferente do que está acontecendo com esses kits covid-19, porque o uso off label  implica em um acompanhamento médico estreito. Afinal, há o perigo de não funcionar e de o paciente piorar ou apresentar reações adversas".

No entanto, o cidadão que ganha o seu saquinho cheio de comprimidos geralmente não é seguido de perto. E ponto fundamental: ele só deveria levar o tal kit para casa depois de assinar um termo de consentimento, afirmando que está ciente dos riscos que corre.

A mistura com a cloroquina é perigosa

Apesar de segura na dose habitual, a ivermectina não está livre de efeitos colaterais. Os mais comuns são dores de cabeça, enjoos, erupções na pele e diarreias. "O uso prolongado provocaria ainda dores no corpo, fraqueza, alterações na visão e febre", conta o professor. "Há o risco de problemas neurológicos e de uma síndrome que causa a destruição de fibras musculares, a rabdomiólise", completa.  Mas — cuidado! — junto com a cloroquina tudo muda: o resultado pode ser a tal rabdomiólise e até insuficiência renal.

Aliás, não à toa bons médicos perguntam o que você está tomando antes de receitar mais um remédio, evitando interações medicamentosas. Ao lado de tentativas de suicídio, uso acidental ou incorreto de medicações, essas interações entre duas ou mais substâncias são as principais causas de intoxicação por remédios. Elas, por sua vez, estão entre as maiores causas de hospitalizações no país.

Ninguém  pode prever o resultado de ingerir todos os comprimidos do "kit covid-19" juntos. Aliás, lembre-se: os indivíduos no grupo de risco são idosos ou portadores de doenças crônicas. Portanto, pessoas que já usam outras medicações. Logo, a ameaça de interações cresce.

"Para agravar, alegam que a ivermectina previne a infecção pelo novo coronavírus, o que é um absurdo", lamenta Flavio Emery. Saiba: infelizmente, nenhuma virose respiratória, da gripe ao resfriado, é prevenida com comprimidos. Eles, no máximo, aliviam sintomas ou encurtam o período agudo da doença. O nome da prevenção no beabá das ciências farmacêuticas é um só: vacina. 

Até ela chegar, o que está ao nosso alcance não é aceitar um kit qualquer, mas lavar sempre as mãos, manter o distanciamento social,  usar máscaras e seguir com a alimentação costumeira e com os remédios de sempre para tratar doenças que já existiam.

Se eu ganhar o kit, jogo fora?

"Se não recusou na hora, você deverá descartar, sim", respondeu o farmacêutico quando eu lhe fiz a pergunta. "Não o deixe em casa porque alguém ou até você poderá tomar um dos remédios por acidente. Tampouco passe adiante, para aquela pessoa que está com sintomas suspeitos de covid-19."  Entendo: na melhor das hipóteses, a ivermectina teria o efeito de uma colher de farinha. Ah, para se livrar do "kit enganação", não use a lata do lixo. Entregue-o em um hospital ou em uma farmácia que saberá fazer o descarte do jeito certo.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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