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Na pandemia, os homens poderiam se preocupar mais com disfunção erétil

Lúcia Helena

14/07/2020 04h00

iStock

Nestes tempos, alguns prazeres podem estar em baixa. Os sinais são sutis, mas vale prestar atenção. No Reino Unido, por exemplo, um dos mais populares serviços de teleatendimento em saúde, o do Superdrug Online Doctor, registra de fevereiro até junho um aumento de 13% de consultas para tentar remediar a disfunção erétil. Aliás, se há alguma coisa que anda em alta, segundo o Google, é a busca por informações a respeito do mesmíssimo problema na internet. Ora, ora, o que se passa com as cabeças masculinas?

Fui atrás do médico Eduardo de Paula Miranda, que conheci no Congresso Brasileiro de Urologia, onde ele deu uma aula que abordava o tema. Ali, ninguém desconfiava que, meses depois, a vida ficaria tão dura, com essa pandemia murchando os ânimos. Colaborador da Universidade Federal do Ceará, especializado em Medicina Sexual  e Reprodutiva pelo Memorial Sloan Kettering nos Estados Unidos, ele poderia me dizer se essa aparente preocupação maior com a disfunção erétil faria algum sentido. "A lógica pode ser a da adrenalina", me respondeu. E, de fato, nenhuma outra substância deixa os rapazes cabisbaixos tão ligeiro.

Cabeça, de cima a baixo

A ereção é um fenômeno vascular. Seja por um estímulo local, seja por uma imagem na mente, determinados músculos ao redor de artérias localizadas no pênis — ufa! –relaxam. Com isso, esses vasos ficam dilatados, facilitando a chegada de mais e mais sangue. O líquido irá preencher os inúmeros espaços ocos de dois cilindros, os corpos cavernosos, que lembram esponjas. De tão encharcados que ficam, eles acabam pressionando as veias que seriam a passagem de saída. Resultado: o sangue que entrou não sai tão cedo dali. Digo, quando tudo está firme — firme e forte.

O volume de sangue momentaneamente preso pode ser de três até dez vezes maior do que o que costuma circular pelo órgão em repouso. A ponto de tudo ficar rígido. "A disfunção erétil é justamente uma dificuldade persistente para alcançar ou manter essa rigidez por tempo suficiente", define Eduardo Miranda. 

Atenção, é questão de ficar duro apenas, explicando em um português direto e reto. Segundo Eduardo Miranda, foi-se o tempo em que o ângulo do pênis ereto era levado em conta nessa história de disfunção. Porque isso não tem a ver com a circulação — aliás, nem com hormônios, muito menos com supostos predicativos do dono do pedaço. Ninguém é astronauta de brinquedo que precisa apontar ao infinito e além para ver estrelas.  

Se o pênis sobe mais ou se sobe menos, a total responsabilidade é de um ligamento, o suspensório, que se afrouxa com o tempo, de modo que nada mais se eleva tanto.  "Sem contar que uns ligamentos podem ser mais longos por natureza. Outros, mais curtos,  formando um ângulo fechado, rente ao corpo, que mais dificulta do que ajuda a encontrar uma posição na relação, ao contrário do que muitos pensam", diz o médico. Mesmo sendo mais para frente ou até mais para baixo do que propriamente para o alto,  isso não é disfunção erétil, desde que haja a tal rigidez.

Mas ficar na moleza, vez ou outra, não é caso de drama — todo homem precisa lidar com essa frustração esporadicamente. Eita, lição difícil de entrar… "O problema é que um episódio costuma levar a outro", observa o médico. "Se o pênis não fica rígido, a relação sexual seguinte já será carregada de ansiedade. Daí, o organismo irá liberar adrenalina e surge um ciclo vicioso, uma ereção ruim tornando a próxima pior", observa Eduardo Miranda. 

Pura bioquímica. A adrenalina está entre aqueles hormônios do estresse, que surgiram para fazer a espécie humana escapar de um predador. Eles contraem os vasos de tudo quanto é canto do corpo para direcionar a circulação para a musculatura das pernas e dos braços. É hora lutar ou correr. Portanto, no perigo iminente o pênis não é prioridade — que fique então menos abastecido de sangue. Ninguém precisa dele para fugir no maior pau. Ok, nós tampouco estamos em tempos primitivos. Está todo mundo no ano da pandemia. Só que, neste 2020, o coronavírus — com a crise que trouxe na bagagem — pode representar o predador. Haja adrenalina. 

O que é bom para diminuir o risco de covid-19 é bom para o pênis

Estima-se que de 30 a 56% dos brasileiros acima dos 40 anos tenham algum grau de disfunção erétil. "A prevalência aumenta 10% a cada década de vida. Mas apenas um terço dos homens com o problema procura ajuda médica", informa Eduardo Miranda.

A dificuldade, ao fazer o diagnóstico, é entender até que ponto as causas são orgânicas ou emocionais. "Geralmente as coisas andam juntas", nota o urologista. "E boa parte das causas orgânicas, por sua vez, tem a ver com o estilo de vida desequilibrado. Não adianta tanto pedir um remédio sem resolver o resto. Para um hipertenso, brinco que compensa mais ele tomar a medicação que seu cardiologista receitou para controlar a pressão do que engolir um comprimido famoso para ter ereções", exemplifica.

Claro, a saída de cor anil tem o mérito de oferecer uma solução imediatista. Mas o que não deixa entonar o caldo de vez é cuidar do resto. A pressão alta, citada, é um castigo sem fim para a parede internas dos vasos, o endotélio. Assim como é péssimo ignorar um colesterol na estratosfera. Aí, o sangue terá dificuldade para fazer a sua entrada triunfal na hora da ação.

"Se as placas de gordura podem obstruir uma coronária, que é uma artéria com calibre três vezes maior do que o da artéria peniana, imagine a facilidade então para essa gordura entupir os vasos lá embaixo", avisa o Eduardo Miranda.

A obesidade, que é outro importante fator de risco para a covid-19, tem ainda um agravante: "as células de gordura ativam uma substância chamada aromatase", explica o médico. "E ela transforma parte da testosterona — hormônio masculino que é peça-chave nos mecanismos fisiológicos do sexo — em hormônio feminino". No caso, a metamorfose pode ser um balde de água fria.

Já o álcool tem algo de curioso. Estudos provam que, para muitos homens, alguns poucos goles até ajudam. "Se provocam relaxamento, vão facilitar em um primeiro momento", diz o médico. O problema é que passar um pouco da medida pode ter efeito oposto. "Sem contar que o excesso de bebida alcóolica também lesiona as paredes internas dos vasos." Cigarro, então, nem se fala. 

O pênis diz muito sobre o coração do dono

Na realidade, tudo o que causa infarto e AVC provoca a disfunção erétil. E ela tende a acontecer primeiro. Um estudo de médicos da Universidade de Leuven, na Bélgica, apresentado no recente ENDO 2020, o encontro anual da Endocrine Society, sugere que os menores sinais disfunção erétil — por exemplo, uma ereção que até acontece, mas não é lá tão ponta-firme — já estão associados ao risco de morrer do coração e de outras coisas.

Os cientistas  acompanharam 1.913 homens em cinco centros de saúde europeus por um pouco mais de 12 anos. Nesse período, 483 deles morreram. E, feitas as contas, a conclusão foi de que o risco de falecer  foi quase duas vezes maior nos que, um dia, se queixaram de disfunção erétil, ainda que levemente, no início da investigação. 

Cama não é lugar só para transar

Até porque, para transar bem, ela precisa ser um ótimo lugar para dormir. Noite após noite. "A qualidade do sono ganha cada vez mais relevância nessa seara", diz Eduardo Miranda. Faz sentido: desde que nascem, os homens têm ereções nas fases mais profundas do sono. "São, pelo menos, três ou quatro por madrugada", diz o médico.

Essas ereções matinais, como são chamadas, mantêm as engrenagens penianas prontas para a ação. Exercitam seus músculos. Melhoram sua circulação, oxigenam seus tecidos. "Mas a insônia e até a apneia, que é comum em homens com obesidade,  atrapalham a ocorrência dessas ereções, acelerando a evolução de uma disfunção."

E fato: a quarentena já fez muita gente ficar acordada além da conta. "Se bem que uma disfunção erétil não surge de uma noite para outra", esclarece Eduardo Miranda. 

O ideal é ficar de olho nos primeiros sinais — entre eles está a ausência de ereções ao acordar, quando não há desculpa de que o nervosismo atrapalhou o fenômeno. E então mexer com força no estilo de vida.

"A atividade física regular precisa entrar na receita", acrescenta Eduardo Miranda. O exercício alivia a maioria dos fatores por trás do problema: ele combate os quilos a mais, diminui o estresse, facilita o adormecer e a perda de peso. Sem contar que melhora a circulação. A saúde inteira sai ganhando. Se os homens estão mesmo mais preocupados com isso, ótimo.  Ou bem que poderiam estar.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.

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