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O que a hashtag #MedBikini nos ensina sobre preconceito e pseudociência

Lúcia Helena

28/07/2020 04h00

iStock

Só nos últimos cinco dias, da sexta-feira passada até o fechamento desta coluna, mais de 1,6 milhão de médicas fizeram posts nas redes sociais em sua melhor versão moda praia marcando #MedBikini. Tudo bem que alguns poucos homens também publicaram fotos de sunga e usaram a mesma hashtag em apoio às colegas, mas eram minoria. 

A campanha, que não para de crescer inclusive entre profissionais de saúde brasileiras, é a reação a um pretenso estudo que rotula fotos de jovens cirurgiãs de biquíni em seus perfis no Instagram, no Facebook e no Twitter como manifestações "potencialmente pouco profissionais".

A única conclusão legítima que se pode tirar de um desserviço desses é que infelizmente ainda há muito sexismo e misoginia na medicina. E, se essa ao menos fosse a intenção dos autores — não era—, seria como gastar tempo e recursos para provar que a chuva molha. 

Mas, como se diz no jargão dos cientistas, há mais achados para discussão — como outros preconceitos, censura, uma incompreensão das redes sociais e, no final das contas, um exemplo dos mais bem desenhados para a gente enxergar o que é pseudociência e notar como ela pode confundir à primeira vista.

Para começar, o artigo não saiu da faculdade desconhecida na cidadezinha no meio do nada, que poderia ser honesto, mas que faria arregalar o olhar crítico. O texto já ofusca a visão porque vem da brilhante Universidade de Boston, nos Estados Unidos.

E, como se não bastasse, saiu no prestigiado Journal of Vascular Surgery. Lamento dizer, mas até o povo de Boston faz bobagem. E até revistas científicas às vezes erram e aceitam trabalhos que são ruins de doer. Sorte da ciência, azar da revista — e dos autores do disparate —, as médicas prestaram atenção e não estão deixando barato.

Reprodução do pretenso estudo publicado

Gosto pessoal, opinião particular e moralismo nunca foram ciência

Para a realização do tal estudo, os autores criaram contas "neutras" no Twitter, no Facebook e no Instagram. Vamos traduzir para o bom português: perfis falsos, desses dignos de denúncia. Por trás deles, três médicos homens entre 28 e 35 anos. Fizeram isso para bisbilhotar o comportamento de 480 residentes em cirurgia vascular que se graduaram entre 2016 e 2018, sem qualquer declaração sobre como tiveram acesso a essa lista.

Descobriram que metade desses jovens médicos podia ser encontrada nas redes sociais e 26% das contas apresentavam conteúdos que seriam "claramente não profissionais" e "potencialmente não profissionais". Vem daí a primeira crítica: "Eles tiraram isso da cabeça, baseados em opinião pessoal. E, de cara, o grande problema desse estudo é a criação de critérios completamente fora do racional, algo inadmissível nas publicações científicas", diz, com clareza, o médico mineiro Bruno de Lima Naves, presidente da SBACV (Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular), que procurei por representar, no país, justamente a especialidade vítima dos pesquisadores stalkers.

O que seria um conteúdo claramente sem profissionalismo? A definição, só neste pedacinho, é justa: violar o HIPAA, sigla de Health Insurance Portability and Accountability Act, uma conquista de 1996 na legislação federal americana que garante, entre outras coisas, a privacidade dos pacientes. Ou seja, nenhuma informação sobre a saúde deles poderia vazar. E ninguém discorda que isso seria uma falta de ética condenável. 

No entanto, tudo fica cinzento no que seria potencialmente não profissional: aparecer consumindo álcool; fazer comentários políticos controversos (fico matutando, contra ou a favor de quem seria controverso?), fazer comentários religiosos, de novo, controversos; abordar os temas aborto e controle de armas. 

Aí fecham afirmando que também se enquadraria em comportamento pouco profissional escrever ou falar palavrão, sair na foto em trajes provocantes de Halloween (opa, isso sim é caça às bruxas!) ou ser clicado em roupas de banho, com destaque para o biquíni. Pra quê?!

"O curioso é que esses critérios, errados e cheios de moralismos, não excluem a sunga, mas os homens parecem não ter lido ou não deram bola. As mulheres, sim", observa o doutor Naves. Pergunto se talvez essa área, a da cirurgia vascular, não seria particularmente dominada por homens. "Na SBACV,  são 918 cirurgiãs e 2.500 cirurgiões homens. Ou seja, a proporção está mudando aos poucos", diz ele. É, mas alguma coisa ainda pode estar faltando…

O espaço das mulheres

Tanto nas faculdades de medicina americanas quanto nas brasileiras, mais de metade dos alunos são mulheres. Mas, também, tanto lá quanto cá, o espaço mais difícil de o sexo feminino ocupar ainda é o centro cirúrgico. "Isso deve ser levado em conta na reação das médicas, já que o trabalho envolveu a área da cirurgia", nota a advogada Neila Carvalho, especializada em marketing digital pela Fundação Getúlio Vargas e criadora da Health Content, empresa dá consultoria para profissionais de saúde que querem ganhar relevância nas mídias digitais.

Nos Estados Unidos, de acordo com a Association of American Medical Colleges (AAMC), 35% dos médicos em atividade são mulheres. No entanto, nas dez especialidades cirúrgicas existentes no país, elas são menos do que um quarto. Na cirurgia ortopédica, não passam de 5%. A inversão só existe em ginecologia e obstetrícia — então as mulheres representam 57% dos especialistas. Em todas as escolas médicas americanas, por sua vez, só há 24 professoras titulares em departamentos de cirurgia. 

No Brasil, olhando para a faixa mais jovem, até os 29 anos de idade, as médicas já são 57,4% dos profissionais. Mas são 8% de todos os neurocirurgiões brasileiros, por exemplo.

Vale eu lembrar a hashtag  #MedBikini é, no mínimo, a segunda grande campanha de mulheres médicas nas redes sociais e a anterior, de 2015, surgiu justamente entre as cirurgiãs, cansadas de ouvir  a seguinte pergunta: "quando vai chegar o médico?". A hashtag, daí, foi #ILookLikeASurgeon, algo como "eu aparento ser uma cirurgiã".

Falta de consentimento

Procurei o farmacêutico-bioquímico Rui Curi, hoje professor de pós-graduação no programa interdisciplinar em ciências da saúde da Universidade Cruzeiro do Sul e um dos pesquisadores brasileiros com maior número de citações em revistas científicas de peso. Ele logo chamou a atenção: "Os médicos cujas páginas nas redes sociais foram analisadas não assinaram o que chamamos de termo de consentimento livre e esclarecido", lembra.

O documento tem esse nome porque a pessoa precisa aceitar participar, estar livre para dizer que não quer mais e ficar completamente por dentro de tudo o que os pesquisadores pretendem fazer. "Vale para examinar uma amostra de sangue, vale para observar uma página na rede social", compara o professor Curi.

Ora, os médicos e as médicas investigados no tal trabalho não faziam a menor ideia de nada. E a falta do consentimento exclui toda e qualquer possibilidade de um trabalho ser aprovado. "A questão é que muitas revistas científicas nem perguntam pelo termo, partem do princípio da boa fé, embora sejam rigorosas", explica o professor.

Admitindo o erro, o Journal of Vascular Surgery já retratou o estudo. No "cientificês", é como se ele nunca tivesse sido publicado. O que, porém, mais 1,6 milhão de médicas de biquíni não vão deixar esquecer.

Onde se queria chegar?

O irônico é que esse número gigante de médicas postando suas fotos — muitas vezes colocando lado a lado uma imagem na praia e outra atuando em hospitais, por exemplo —  só existe porque nove moças apareceram nas redes sociais usando biquíni, de acordo com o trabalho cancelado. "Um número ínfimo para qualquer conclusão, se ela pudesse ser científica", aponta o doutor Bruno Naves.

"Sem ter um grupo como controle ou referência, um trabalho não chega a canto algum", explica, ainda, o professor Curi e exemplifica:"Eles poderiam comparar médicos com profissionais de outras áreas. E, aliás, por que exigir que médicos se comportem de um modo diferente?" questiona. "Qual o problema de um brinde na folga? Problema seria se fossem trabalhar embriagados."

Os médicos nas redes sociais

Para Neila Carvalho, não faz mais sentido o médico manter um perfil público ou profissional e outro privado nas redes sociais. "Essa divisão está acabando", observa. "Cabe ao médico decidir como irá mesclar posts mais pessoais com a disseminação de informações confiáveis sobre saúde, que é uma das grandes oportunidades dessas plataformas."

O médico Bruno Naves concorda e acha até que os pacientes se identificam mais e preferem seguir os perfis híbridos, com pitadas do que seus colegas fazem no dia a dia. "É saber publicar aquilo que não será ofensivo aos seus pares e aos seus pacientes", diz ele. E, decididamente, um biquíni não é ofensivo. Muito menos é capaz de cobrir a competência das profissionais que o vestem quando não estão de jaleco cuidando da nossa saúde.

A Associação Médica Brasileira ainda não discutiu o assunto

Procurei a AMB dois dias antes do fechamento. E insisti, deixando claro que gostaria de saber se existiria uma orientação para médicos em redes sociais ou alguma iniciativa em favor das médicas. Sem contar a opinião sobre a hashtag do biquíni, já que muitas brasileiras se engajaram.

A resposta chegou por escrito e apenas na noite de ontem, após consultarem a diretoria: "Infelizmente não vamos conseguir participar dessa pauta. Desculpa a demora. A AMB não discutiu esse assunto, por isso não vai se manifestar. Não tem uma posição oficial."

Seria irresponsável eu afirmar que são coniventes com o machismo, com o sexismo ou com a perseguição em redes sociais. Só posso constatar que espantosamente não têm uma resposta na ponta da língua. E que optaram pela omissão já que ainda precisam se reunir, quem diria, para decidirem se isso tudo é certo ou errado. Enquanto uns pensam, as médicas agem nas redes e não se omitem no #MedBikini, bravíssimas doutoras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.