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Covid-19: São Paulo pode estar se aproximando da imunidade de rebanho

Lúcia Helena

11/08/2020 08h35

iStock

Um olhar perdido diante dos números da pandemia — aliás,  como o meu, muitas vezes —, dirá que houve um tremendo salto na quantidade de pessoas que já entraram em contato com o amaldiçoado Sars-Cov-2 pelas ruas de São Paulo.

E não foi qualquer pulinho, não: aparentemente, em apenas 35 dias esse número cresceu 56%. Só aparentemente. Porque o mais provável é que ele mal tenha se mexido — e, calma, isso não é uma notícia ruim. Ao contrário, indica que a capital paulista está entrando em um período mais calmo.

"Podemos dizer, por esse número quase igual de pessoas com anticorpos em relação ao mês passado, que o novo coronavírus está com dificuldade para se locomover pelas ruas paulistanas, já não encontra tanto espaço para circular, nem tanta gente vulnerável pela cidade", dá a notícia o infectologista Celso Granato, diretor médico do Grupo Fleury que, ao lado de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Ibope Inteligência, está envolvido no SoroEpi MSP,  o mapeamento da prevalência de soropositivos para o Sars-CoV 2 no município paulistano, iniciativa realizada com o apoio do Instituto Semeia e do Todos pela Saúde. 

Ontem (10), foram apresentados os resultados da fase 3 do projeto. Eles continuam denunciando as terríveis diferenças sociais que salvaguardam a vida de uns e atiram a de outros ao deus-dará da pandemia. Ora, 22% da população paulistana com menor renda já pegou o vírus, contra 9,4% das pessoas mais abastadas da cidade. Isso é mais do que o dobro.

Os últimos dados também nos ensinam que, na intimidade do sistema imune, as pessoas parecem não responder ao coronavírus do mesmo jeito. Logo, um excelente teste pode não flagrar todos os que já têm anticorpos e deixar escapar alguns casos positivos. Porque somos diferentes. E há quem diga que, por sermos assim, é que a humanidade seguiu em frente. Sempre alguns seres humanos conseguiram se livrar das epidemias e nenhuma delas nos dizimou.

Mas, acima de tudo, os novos números levam à pergunta que nos faz suspirar: será que, em São Paulo, estamos chegando perto da tal imunidade de rebanho?  O trabalho não foi feito para isso, avisam com veemência e cautela os cientistas responsáveis. Pura verdade. Mas rende boas reflexões e quem sabe…

São Paulo mais perto da imunidade coletiva

Hoje, segundo esse mapeamento — depois de analisadas 1.470 amostras de sangue de moradores de 12 residências sorteadas em cada um dos 115 setores censitários de São Paulo —, podemos estimar que 17,9% dos que vivem na cidade já tenham anticorpos contra o novo coronavírus.

Honestamente, ninguém sabe qual seria o número mágico de pessoas que já tiveram a infecção necessário para blindar, por assim dizer, aqueles que ainda não a pegaram. Dizem ser algo entre 40% e 60%. 

Mas finalmente trago uma dose de esperança, pois vale lembrar que anticorpos são apenas marcadores. Na prática, isso quer dizer que eles somente indicam que alguém já contraiu o vírus.

O ataque efetivo a esse invasor, porém, não é feito por essas moléculas e, sim, pelas células NK do sistema de defesa — é o que se chama de imunidade celular, a qual não pode ser medida por testes convencionais.

No entanto, o professor Celso Granato revela dados da literatura que apontam o seguinte: a prevalência dessa imunidade celular é de duas a duas vezes e meia maior do que a de anticorpos. Ou seja, podemos no mínimo dobrar esses 17,9% e, talvez, multiplicando 2,5 vezes, em São Paulo já tenhamos passado dos benditos 40%. É ainda uma especulação? Sim. Mas não é sem pé nem cabeça.

Para o Brasil, o rebanho faz total diferença

A imunidade de rebanho ganha cada vez mais importância em países mais pobres, menos organizados e com mais gente. Só para refrescar a memória, ainda que você ame o verde e o amarelo, é bem essa a nossa situação. "Países mais ricos vão dar um jeito de segurar os casos lá embaixo até a chegada da vacina", observa o biólogo Fernando Reinach, que é grande idealizador do projeto colaborativo SoroEpi MSP.

Aqui não. Infelizmente, a maior parte do país não está conseguindo controlar as transmissões. As pessoas sistematicamente não se protegem e ameaçam a vida dos outros. E a imunização, quando existir, talvez não seja viável tão cedo para muitos brasileiros — uma ferida em que precisamos tocar. 

Em resumo, se é para dividir o mundo, estamos naquela parte do globo em que a imunidade de rebanho — com o preço alto de muitas internações e mortes pelo caminho — deverá chegar antes da vacina para todos. E, talvez, chegue mais depressa em São Paulo.

Por alto, os números do novo levantamento

Repare: aqui mesmo, há pouco mais de um mês, quando divulgaram a fase 2 do mesmíssimo SoroEpi MSP, eu contei que, entre os 8.407.202 habitantes do município paulistano com mais de  18 anos, 11,4% já tinham sido contaminados pelo Sars-Cov 2.  

Portanto, sim, à primeira vista a porcentagem entre a fase anterior e esta aumentou um bocado. E, se fosse assim de fato, seria uma pista de que o novo coronavírus continuaria circulando com muita facilidade. Antes, falávamos em aproximadamente 858 mil adultos imunes ao causador da covid-19. E agora a nova porcentagem aponta para 1,5 milhão de pessoas carregando anticorpos. Mesmo assim, acredite, estamos quase na mesma.

Por que cresceu, mas não cresceu?

Fernando Reinach pede licença que para fazer uma "comparação quase simplória" — e eu, emaranhada nas porcentagens, agradeço na maior sinceridade. Ele então começa: "Imagine um prédio onde entram todos os que já pegaram o Sars-CoV 2 e alguém solicita que você conte quantas pessoas estão lá dentro. Após percorrer as áreas livres dos andares, você volta e diz que encontrou mil pessoas no interior do edifício. Depois, alguém fala para você recontar, só que entrando em salas que estavam fechadas. E, ao repetir a tarefa destrancando essas salas, você vê que, na verdade, dentro daquele prédio havia 2.000 pessoas."

Na comparação, o que corresponderia à primeira contagem seria o Maglumi, o teste chinês que foi aplicado nas duas fases anteriores e que foi repetido desta vez. Ele detecta os anticorpos IgM e IgG separadamente e ainda duas proteínas — uma que faz parte da coroa de espinhos do coronavírus e outra que integra a cápsula que envolve o seu material genético. Até há pouquíssimo tempo, era considerado um suprassumo entre os testes. 

Mas eis que surgiu um exame ainda mais sensível, suíço, desenvolvido pela farmacêutica Roche. Ele mostra a quantidade total de anticorpos, sem separar IgG de IgM, e também acusa proteínas do núcleo capsídeo — este é o nome certo —, que embrulha o código genético do vírus. "Digamos que flagra outros pedacinhos dessa mesma estrutura", explica o infectologista Celso Granato.

Na comparação de Reinach, foi esse segundo teste que destrancou as portas, encontrando mais gente que foi infectada do que a gente imaginava. Essas pessoas, porém, já estavam entre os paulistanos. Não contraíram o coronavírus no último mês.

Por que fazer dois testes diferentes

Os dois exames foram realizados em todos os participantes nessa terceira fase, sem exceção. E note bem: se olhar para o resultado só do primeiro deles, verá que a prevalência de indivíduos com anticorpos aumentou um tico de nada, isto é, foi dos 11,4% da fase 2 há 35 dias para 11,5% nesta fase 3. 

O segundo teste, porém, acusou uma prevalência de 14,8% — ou seja, "achou mais gente no prédio", como diria Reinach. E os dois, juntos, chegam aos tais 17,9%. Isso porque, das 262 pessoas da amostra que já tiveram o novo coronavírus, 46 (ou 18% delas) só foram flagradas pelo teste chinês, mas tiveram um resultado normal no novo teste, como se, confiando apenas nele, elas nunca tivessem encontrado o novo coronavírus pela frente. 

Por sua vez, outros 89 indivíduos com anticorpos (ou 34% do total com anticorpos) só foram descobertos no teste suíço. Apenas 48% dos soropositivos foram flagrados por ambos. Daí a necessidade de somar os casos descobertos em um ou em outro teste isoladamente, o que dá um número ainda mais alto.

Esclarecimento: basta um único resultado positivo na dupla de exames para saber que aquela pessoa teve mesmo contato com o novo coronavírus, e ponto. Não dá nem para questionar, até porque, nesses indivíduos, os especialistas se garantiram realizando um terceiro teste, confirmando que a informação era verdadeira, ou seja, que um dia eles pegaram pra valer o vírus da covid-19.

Na mesma faixa, então nada mudou. Que bom!

Os pesquisadores não descartam a hipótese de, amanhã ou depois, surgir um terceiro teste, sensível a anticorpos produzidos como resposta a outras proteínas virais. Daí, talvez, o número revelado de imunizados poderá subir até mais.

Mas vale eu reforçar: a proporção de pessoas que foram infectadas mal se abalou nesses últimos 35 dias. A subida de 0,1% nos resultados do teste chinês mostra isso. "E esse crescimento ínfimo está dentro da faixa de erro", lembra Reinach. "Ou seja, antes, quando falávamos em 11,4%, podia ser algo entre 9% e 13%. Continuamos dentro da faixa, então nada mudou. Ou, se surgiram casos novos, foram muito poucos."

Esqueça: soropositivos não viram soronegativos

Essa é uma ideia equivocada que corre solta por aí — a de que os anticorpos de alguém que um dia testou positivo podem, passado um tempo, tomar chá de sumiço. Será então que, enquanto os dois exames descobrem mais gente com defesas para o Sars-CoV 2 em São Paulo, outros indivíduos que já tiveram anticorpos contra esse vírus começaram a testar negativo porque seus anticorpos foram fugazes? 

É uma boa pergunta. E, se fosse assim, estaríamos estacionados porque daríamos um passo à frente e um passo atrás. Mas — ufa! — não é o caso. "O número de anticorpos de fato cai depois de um ou dois meses, mas nunca chega a zerar de vez. Isto é, na prática, ninguém passa de negativo a positivo", assegura Fernando Reinach.

Aprenda: nenhum teste serve para controlar a transmissão

O que mais confunde são os testes rápidos que pipocam por aí. Feito aqueles comprados em farmácia para revelar uma eventual gravidez, eles vão dos 8 ou 80, ou melhor, dão positivo ou negativo, sem medir a quantidade de anticorpos, o que os testes mais confiáveis fazem. E muitas vezes vezes não são sensíveis o suficiente para acusar essas moléculas quando a quantidade delas é baixa. Oferecem resultados errados a dar com pau.

No entanto, bom tirar da cabeça a ideia de que um teste, qualquer que seja, poderia ajudar a manter a transmissão em rédeas curtas. Eles não têm esse poder. 

Pense no famoso exame de RT-PCR, que detecta o material genético do vírus quando ele ainda está, digamos, saindo pela boca. "Uma pessoa infectada passa de sete a 20 dias contaminando os outros. Até ela apresentar sintomas após uns cinco dias de incubação do vírus, para daí fazer o RT-PCR e receber o resultado cerca de dez dias depois, não estará contaminando mais", explica Fernando Reinach.

Com o melhor dos testes sorológicos é uma situação semelhante: eles enxergam o passado, quando já correu um bom tempo para o organismo produzir defesas em quantidade suficiente para serem detectadas. "Esses 1,5 milhão de indivíduos com anticorpos em São Paulo não devem estar infectando mais ninguém", diz Reinach.

Portanto, duas lições: não há teste que mostre o resultado em um prazo que possibilite você descobrir quem está passando o vírus adiante. A pessoa com o menor sintoma ou que, mesmo sem sentir nada, teve contato com alguém que pegou covid-19 tem mais é que se isolar, pelo sim e pelo não, enquanto aguarda o resultado de qualquer exame. Que, desse ponto de vista, é inútil. Só o isolamento protege.

E, agora, com reabertura da cidade?

"Quando tudo começou, uma pessoa infectada passava o vírus a outras três", relembra o professor Celso Granato. "Depois, com as medidas de distanciamento social em São Paulo, essa taxa  de contaminação, que chamamos de R0 (R-zero), caiu para menos de 1. E sabemos que, quando alguém passa uma doença para menos de uma pessoa, a probabilidade de um surto cair é alta."

Hoje, pena, a mesma taxa se elevou novamente e está em 1,5 — como se cada infectado pudesse contaminar uma pessoa e meia. Ou seja, ainda há uma ameaça considerável pelas ruas. Com a seguinte desvantagem: dificilmente a sociedade aceitará voltar para casa. E, não, a fase 3 do SoroEpi MSP ainda não reflete a reabertura da capital paulista.

Talvez, na opinião de Reinach, a porcentagem estacionada de soropositivos indique que a cidade possa ousar se abrir um pouco mais. Ainda é risco, friso. Só que menor. Para enfrentá-lo e descobrir no que vai dar só redobrando os cuidados — e não o contrário.

Se São Paulo pode estar perto da imunidade de rebanho é também porque conseguiu estabelecer com presteza um período distanciamento social, ainda que ele tenha ficado abaixo do recomendado.

As novas ondas na Europa

Para dar um exemplo, em Madri, a capital espanhola duramente atingida pela pandemia, só 11% da população têm anticorpos. Na Alemanha, menos ainda. Por isso, o vírus ainda tem boas chances por esses lugares de promover a temida segunda onda.

O que dificulta a permanência e a volta do novo coronavírus é encontrar mais pessoas que já adquiriram defesas ou organismos que apresentam maior resistência a ele porque foram expostos a outras infecções — o que, hoje se desconfia, pode acontecer.

O que não significa que é para sair por aí sem máscara, nem deixando de higienizar as mãos. Longe disso. Essa doença, quando não mata, castiga e deixa sequelas que ainda mal compreendemos. O perigo não foi embora.

E mais: a prevalência de soropositivos em São Paulo não reflete o restante do país. Primeiro, porque nem todos os lugares fizeram, de cara, o distanciamento necessário. Segundo, sejamos francos, não temos a menor noção da situação. O Brasil — ah, o Brasil …—, diferentemente de outros países, não registra quem testou positivo, só quem adoeceu. Ou morreu. E olhe lá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.