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Uma vacina contra a covid-19 não funcionaria em pessoas com obesidade?

Lúcia Helena

13/08/2020 04h00

iStock

Agora me diga: como pode alguém afirmar que uma vacina contra o novo coronavírus a qual, detalhe, ainda nem sequer existe e que a gente nem pode garantir que existirá tão cedo, não funcionará para pessoas com obesidade?! 

O disparate alarmista foi enunciado pela voz do nutricionista Raz Shaikh, professor associado da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, nos Estados Unidos. E ela foi bastante ouvida nas últimas semanas, pela mídia especializada inclusive. Para você ver, ninguém está imune a enganos… 

Este, porém, pode ter colocado em pânico desnecessário um em cada cinco brasileiros — precisamente, os 19,8% da população que sofrem de obesidade. E, como efeito colateral, reforçado a praga do estigma.

O cientista é, de fato, pesquisador no campo da imunologia e há dez anos investiga como o consumo de certos ácidos graxos poderia afetar as defesas, especialmente em pessoas com excesso de peso. Ponto. Isso não lhe dá crédito para misturar bananas com maçãs, alhos com bugalhos, vacinas que ainda não existem com obesidade.

Mas toda notícia fantasiosa só cola em manchetes porque se baseia em fagulhas de verdades — para daí tocar fogo e fazer virar cinzas as evidências científicas a respeito de um assunto qualquer. Com esta não foi diferente. A começar por se basear no achado real de que a obesidade poderia complicar a situação de pacientes com a covid-19 e, para engrossar o caldo, lembrar que o excesso de peso já foi acusado de atrapalhar o desempenho de outras vacinas. Dois dados reais.

Ao mesmo tempo, esconde algo que, aliás, é muito pouco divulgado para o meu gosto: ninguém com obesidade precisa se tornar magro para ver despencar o seu risco de complicações com essa infecção e a ameaça de outras doenças, como as cardiovasculares, que podem andar de mãos dadas com os quilos extras.  Basta conseguir uma discreta perda de peso. 

E digo mais: aprendi com o endocrinologista Bruno Halpern que algumas pessoas podem estar na faixa da obesidade e, no entanto, por já terem pesado até mais há algum tempo e conseguirem manter os ponteiros da balança estáveis após o emagrecimento, elas esbanjam mais saúde do que aquele sujeito aparentemente magro, mas que ganhou pneus na cintura nos últimos anos. Isso vale, inclusive, em matéria de prevenção de quadros severos provocados pelo Sars-CoV 2.

Doutor em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, vice-presidente da Federação Latino-Americana de Obesidade (FLASO) e um dos líderes do departamento de relações internacionais da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Bruno Halpern defende um conceito que marca uma mudança de paradigma — o da obesidade controlada.Da mesma maneira como dizemos diabetes sob controle, hipertensão sob controle…

Isso é muito diferente da noção de uma obesidade a ser combatida a ponto de desaparecer do espelho. Não é assim que as coisas funcionam em doenças crônicas.

Até porque, a história do peso de uma pessoa diz mais sobre os riscos de saúde dela do que o seu peso em si, declara o médico, que está para publicar um artigo científico sobre o tema.

Obesidade, novo coronavírus e outras vacinas

O elo entre a obesidade e a severidade da covid-19 existe e já foi reconhecido pelo CDC americano (Centers for Disease Control and Prevention).  "Ele é notado especialmente quando há maior concentração de gordura no abdomen", explica Halpern. "Esse acúmulo na região da cintura está mais associado à resistência ao hormônio insulina e a um estado constante de inflamação no organismo." 

Bruno Halpern nos convida a imaginar o sistema de defesa cuidando de inflamações dos pés à cabeça em quem tem obesidade. "'É como se fosse um exército que estivesse nas ruas, dando conta de focos de confusão, quando chega um vírus como o Sars-CoV-2", diz ele. "As defesas, então, não se organizam direito, reagem de maneira exagerada, abrem fogo sem motivo." Em outras palavras, o coronavírus surge e o sistema imunológico já atiçado acaba arrasando o próprio corpo. Alertar sobre esse risco não é preconceito, é um dado de realidade.

"Fácil deduzir", continua o médico, "que, se a reação a um vírus real é inadequada, o mesmo pode acontecer com a vacina."  Aí, o imunizante é capaz de encontrar o exército imunológico disperso, ocupado demais em cuidar das inflamações provocadas pelo excesso de peso. Lembrando, porém, que a obesidade não é a única doença que causa um estado inflamatório perene no organismo. O diabetes é outro exemplo.

"Isso está por trás de algo que já sabíamos pela experiência do passado:  a resposta do indivíduo com obesidade a algumas vacinas tende a ser pior", diz Halpern. É o que se percebe, de acordo com a literatura científica, na imunização contra o influenza da gripe, os vírus das hepatites A e B e o da raiva. Mas cuidado na interpretação: resposta pior não é resposta inexistente. É apenas mais baixa do que a gente gostaria e, no entanto, continua valendo muito a pena para pessoas com qualquer IMC — o índice de massa corpórea — prevenir doenças por meio de vacinas.

"Existe alguma possibilidade de uma vacina contra a covid-19 não funcionar tão bem em pessoas com obesidade? Eu diria que sim, é algo plausível do ponto de vista biológico", reconhece Halpern. "No entanto, também é plausível que não provoque um resultado ótimo em idosos, em crianças, em pessoas com tipo sanguíneo A, que parecem ter uma resposta diferente ao novo coronavírus."

Ou seja, Bruno Halpern acha — e eu concordo — que não se pode acusar alguém de gordofobia por trazer à luz todos os riscos que o excesso de peso provoca. Mas é, sim, estigmatizante apontar que a vacina poderá  não funcionar como se isso fosse prerrogativa de quem tem obesidade, quando sabemos bem que outros públicos, como os que foram citados, também podem reagir aquém do esperado a qualquer vacinação. 

Sem contar que, em matéria de imunizantes, não dá para generalizar — "ora, as outras vacinas funcionam tão bem em pessoas com obesidade quanto em pessoas sem obesidade", lembra Halpern.

Vamos ter de esperar por respostas

Acima de tudo, não podemos perder de vista o ponto de partida dessa história: todos querem a vacina, mas a realidade é que ela ainda não existe. Já sei: você pode gritar e devolver que existem, sim, várias que estão em estudos. Só não se esqueça que — além de as etapas estarem sendo apressadas diante da urgência da pandemia, tentando fazer em menos de dois anos um serviço que sempre levou mais de década — muitos desses trabalhos ainda estão em fase 1. É quando se vê a segurança, isto é, se o imunizante não causa a própria doença a qual pretende combater ou outro mal qualquer.

Outros estão em fase 2, quando o que se busca é checar se aquela vacina protege pra valer contra a covid-19. Mas essa é uma etapa em que são selecionados indivíduos completamente saudáveis, que não apresentam nenhum probleminha de saúde que capaz de desviar o olhar dos pesquisadores que querem observar uma coisa só: a doença que deve ser prevenida. Pessoas com obesidade não são incluídas nessa fase.

"É apenas na fase 3 que a gente avalia os efeitos em pessoas de idades diferentes, com obesidade ou não, com outras doenças ou não, para daí notar que uns podem ficar, no final das contas, mais protegidos do que outros", esclarece Bruno Halpern.

Ocorre que a fase 3 — no caso dos testes que já chegaram lá — também está corrida, sem o prazo necessário para aguardar a análise de como cada grupo reagiu. "E, desse modo, ninguém conseguirá garantir que uma vacina lançada no futuro funcionará igual para todos. Só o tempo dirá. Tudo é possível, lembrando que vacina não é bala de prata", diz Halpern.

E se não funcionar?

Se não funcionar ou não funcionar tão bem para pessoas com obesidade ou com qualquer outra condição de saúde, isso não será o fim do mundo. Muitos imunizantes têm eficácia de 70% a 80% e fazem um bem danado à humanidade.

"Vamos supor que a tal imunidade coletiva para o novo coronavírus seja alcançada quando 60% das pessoas já tiverem defesas contra ele", explica Halpern. "Ora, se eu tiver 20% de indivíduos em determinada região que contraíram esse vírus desenvolvendo anticorpos e uma vacina que proteja outros 40% da população, eu consigo evitar que a doença se espalhe", diz ele, lembrando que esses números servem apenas como ilustração para a gente entender o conceito, já que ninguém tem certeza a respeito do  número mágico dessa imunidade coletiva.

O ponto que precisa ficar esclarecido é o seguinte: alguém tomar uma vacina para ela infelizmente não funcionar, então adoecer e, quem sabe, até morrer é um drama terrível para aquele indivíduo e sua família. Mas, em termos populacionais, se a vacina proteger boa parte de quem a tomou — que sejam apenas os magros, se a notícia fantasiosa um dia se provar, por mera coincidência, verdadeira —, todos estarão mais protegidos por tabela, incluindo quem tem obesidade.

Não precisa virar magro na pandemia, nem nunca

A obesidade é uma condição multifatorial, complexa. Ninguém tem obesidade porque quer. A cultura da magreza leva apenas ao combate irracional da pessoa com obesidade. Se alguém fizesse isso com quem sofre de hipertensão, seria tachado de maluco —já pensou, gritando por aí "ô, seu hipertenso!" como quem xinga a mãe? Mas não é só isso. A obsessão em ser magro cega as pessoas para o que as evidências científicas mostram.

Excesso de quilos faz bem ao corpo? Em geral, não. "No entanto, se a pessoa com obesidade perde apenas  3% do seu peso, isso comprovadamente já reduz bastante o seu estado inflamatório", conta Bruno Halpern. Logo, diminuem os riscos na atual pandemia. Fazendo contas: quem pesa 100 quilos já melhora demais ao conseguir pesar 97. Se perder um pouco mais — 5%, que seriam 5 quilos neste exemplo — melhor ainda. Não é missão impossível.

E, claro, há casos mais impressionantes, como dei spoiler no início deste texto. "Se uma pessoa que pese 90 quilos conseguir baixar para 80 e manter esse peso, ela teoricamente tem menos risco de desenvolver doenças do que uma pessoa que pesava 70 quilos e que engordou, passando para 75 quilos recentemente", diz Halpern. Nesse caso, a meta de emagrecimento é mais árdua — acima de 10% do peso inicial.  E esse novo peso precisa ser sustentado, sem sanfonas. 

Perdida essa gordura, você ainda poderá ver uma pessoa com um IMC  de obesidade à sua frente. Mas com os riscos normais de saúde de uma pessoa magra. "A inflamação praticamente zera, como se ela nunca tivesse apresentado excesso de peso", informa Halpern. 

A recíproca, contudo, não é verdadeira. Às vezes, uma pessoa magra é como um apartamento com despensa pequena, em uma analogia que o próprio Bruno Halpern me ofereceu. "Basta fazer um pouco de compras a mais no supermercado e não caberá tudo. As sacolas ficarão pelo chão e ela poderá tropeçar e cair", diz ele.  Em outras palavras,  ela pode inflamar-se inteira ao ganhar peso, mesmo sem alcançar a faixa de obesidade. As aparências, como vê, podem enganar bastante. E o que não tem vacina é o preconceito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.