PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

Durma sossegado: a reinfecção pelo novo coronavírus não é o fim do mundo

Lúcia Helena

26/08/2020 10h24

iStock

No dia 15 de agosto passado, o chinês de 33 anos voltava da Espanha para casa e, quando seu avião pousou em Hong Kong, como todos os outros passageiros do voo, fez o teste para a covid-19. Fico imaginando que fez isso de boa. Afinal, 142 dias antes, ele tinha sido diagnosticado como mais uma vítima do novo coronavírus, quando passou 72 horas tossindo, com febre alta e quebradeira intensa no corpo. O exame de RT-PCR, então, não deixou margem à dúvida: ele tinha sido infectado pelo Sars-CoV-2. 

Desta vez, apesar de não apresentar nenhum sintoma, o moço foi levado diretamente para o hospital. E lá confirmaram: era esse vírus dando um bis, mas não exatamente o mesmo. O sequenciamento genético mostrou que havia uma diferença mínima aqui, outra ali. Sinal de que não era um descendente direto ou uma cópia do primeiro invasor, como se a mesmíssima doença tivesse sido, digamos, reativada. Era de fato um segundo Sars-CoV-2, uma história novinha em folha, começando do zero. 

Trata-se da primeira reinfecção documentada de que se tem notícia. E há dois dias ela provoca estardalhaço, depois de o artigo que a descreve ter sido publicado. "Mas não é para ninguém perder o sono por isso", tranquiliza, cheio de confiança, uma das maiores autoridades brasileiras nesse cenário da pandemia, o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo, e coordenador da Covid Brasil, a coalizão de 70 hospitais que avalia a eficácia e a segurança de novas terapias para tratar a doença provocada pelo Sars-CoV-2. E, bem, se ele diz isso, é mesmo para a gente dormir tranquilo.

Primeiro, respire fundo e pense nos números

É bem verdade que, depois do caso chinês, já apareceram dois outros só ontem — o de uma mulher de cerca de 50 anos, na Bélgica, que ao ser infectada a primeira vez, dizem os relatórios, "não apresentou muitos anticorpos" — o que não quer dizer nada, porque seu corpo se defendeu suficientemente bem para ela se safar do problema. 

O outro episódio, registrado na Holanda, foi o de um senhor octogenário. Prepare-se, porque possivelmente vai ouvir falar de mais casos assim. Agora que os chineses documentaram o primeiro deles, poderá ocorrer uma enxurrada de artigos, relatos, suspeitas à primeira vista. Mas calma: na perspectiva da pandemia, essa enxurrada é chuvisco.

"As pessoas não devem tirar os números da mente", aconselha o professor Rizzo. "São milhões de pacientes infectados ao redor do mundo e, com muita boa vontade, deve existir apenas uma centena ou, no máximo, poucas centenas de casos de uma possível reinfecção. Ou seja, mesmo se todos eles forem confirmados como tal — e alguns podem nem ser —, estamos diante de um fenômeno muito raro." 

De fato, bem raro:  de acordo com a Organização Mundial de Saúde, até ontem, 25 de agosto, existiam registrados precisamente 23.518.343 de casos confirmados de covid-19. E todos nós sabemos que essa conta é por baixo, porque existem outros milhões de indivíduos que foram infectados sem a menor desconfiança disso. Ora, reflita: o que são uns cem casos perto desse mar de gente? Um nada. E este é apenas um primeiro ponto para nos tranquilizar.

Reinfecção: por que, no fundo, ela já era esperada

"Esse fenômeno costuma acontecer com outras infecções virais e é sempre assim, com um pequeno número de pacientes perto da quantidade de gente infectada", explica o professor Rizzo. E saiba que nessas outras doenças — o vírus da catapora e o da rubéola são bons exemplos —, quando há vacina, ela continua cumprindo perfeitamente o seu papel. Não tem lógica alguma imaginar que seria diferente com o Sars-CoV-2.

Portanto, por mais que você leia sobre reinfecção pelo novo coronavírus por esses dias — ninguém garante que não existirão novas notícias do gênero —, jamais se esqueça do seguinte: "Isso não significa que nunca existirá vacina porque nenhuma delas irá funcionar", resume o professor Rizzo. Se um ou outro imunizante sendo testado por aí não for aprovado, decididamente não será devido ao vírus ser tão imbatível que "até" infectou uma segunda vez raríssimos pacientes.  Não cisme com algo fantasioso assim.

Talvez se pergunte então por que, nesses poucos indivíduos, a reinfecção acontece. Vai saber! "Existe uma série de hipóteses, desde aquela apontando que a resposta das defesas à primeira infecção não foi completa até outras mais complexas", explica o médico.

Entenda por que o caso chinês é a primeira reinfecção "oficial"

Durante esses seis meses de pandemia que parecem eternos, vez ou outra a gente ouviu a notícia de uma pessoa que poderia ter sido reinfectada. Então, uma boa pergunta é por que razão o paciente chinês está sendo considerado pela ciência como  o primeiro caso de reinfecção. "Por causa do sequenciamento genético, um exame complicado e bastante caro, que não costuma ser feito a torto e a direito, mas que acabou sendo realizado para analisar o vírus desse paciente na primeira vez, naquela infecção inicial, e repetido agora, nessa segunda aparição do Sars-CoV-2", responde o professor Rizzo.

Quando não é possível fazer essa comparação, a gente não pode jurar de pés juntos se o que parece ser uma nova infecção não seria, em linguagem popular, a mesma de antes que, daí, não teria sido inteiramente superada. Isso sem contar os casos de pessoas que, no início da pandemia, foram tratadas como pacientes de covid-19 por mera suspeita e excesso de cautela, porque em alguns países houve um período em que era mais fácil achar agulha em palheiro do que teste no mercado para confirmar o diagnóstico.

Sofrer mutações é da natureza

Vírus, como me lembra o professor Rizzo, vivem sofrendo pequenas mutações em sua sequência genética. "Aliás, não só vírus, mas toda espécie na face da Terra", completa o imunologista. Ora, faz parte… Este mundo oferece pressões evolutivas a todo instante e só se salva nele quem conseguir lidar bem com elas. 

Conhecemos de longa data um vírus que — para sorte dele, para azar nosso — sofre mutações que o ajudam a escapar ileso do sistema imune de seus hospedeiros, que somos nós. Eu me refiro ao velho influenza da gripe. "Por causa disso, precisamos tomar uma nova dose da vacina contra ele todos os anos", diz o professor Rizzo. O imunizante, no caso, é sempre atualizado, acompanhando essas mutações e desmontando a tempo essa estratégia evolutiva.

Outros vírus, porém, sofrem pequenas mutações do mesmo jeito, só quem em outro ritmo — não tão veloz quanto o do influenza — ou em outros pontos de sua sequência genética, que não interferem no reconhecimento que o sistema imune poderá fazer deles. Qual seria então a do Sars-CoV-2? "Ainda vamos aprender", diz Rizzo. "E, na pior das hipóteses, teremos de repetir a vacina de tempos em tempos, como no caso da gripe. Mas qual seria o problema disso?  Nenhum. Digo que não se trata de um novo grande desafio para a ciência. Muita calma: esse vírus já nos desafiou o que poderia desafiar."

É natural, portanto, que o novo coronavírus tenha sofrido mutações.  E, mais, que elas sejam minimamente diferentes ao redor do planeta. Pare para pensar: somos mais de 7 bilhões de pessoas neste mundo e temos características diferentes. O novo coronavírus, ao se espalhar por todos os continentes, encontra um sortido e variado de seres humanos como seus hospedeiros.

A pressão que o organismo de uns oferece para o Sars-CoV-2 seguir em frente na evolução é diferente da pressão imposta pelo organismo de outros. Ele provavelmente desenvolve táticas diversas para avançar em grupos de pessoas igualmente diversas. Cada aprimoramento do vírus seria uma pequena alteração em seu, digamos, projeto genético. 

Para saber se é um vírus diferente do primeiro

"Ao analisar o sequenciamento dos genes, os cientistas fazem uma espécie de regressão", conta o professor Rizzo. "Ou seja, eles conseguem imaginar os passos anteriores desse vírus em seu processo de mudanças e perceber as divergências em relação a como ele era lá atrás."

Imagine-se examinando o retrato de uma pessoa idosa e conseguindo enxergar o seu rosto quando moça. Em uma comparação um tanto simplista, ao realizarem um exercício do gênero —  só que olhando bem para os genes —, os pesquisadores notaram que, mesmo sabendo que o coronavírus do passado poderia ter se alterado com o avançar desses quatro meses, tal qual uma pessoa que envelhece, não, o vírus desta vez não era o mesmo. Era um outro sujeito. Logo, temos uma legítima reinfecção.

Quanto tempo, então, duraria a nossa imunidade?

Bom aproveitar para esclarecer um papo de que a imunidade para o novo coronavírus só duraria uns três meses: "Ele é furado", garante o professor Rizzo. De fato, ninguém sabe disso. É um terrorismo desnecessário — já temos a nossa dose de terror com essa pandemia, pra que mais, não é mesmo?

Pergunto ao professor Rizzo de onde viria essa ideia sem fundamento dos "três meses de duração", a qual parece estar na boca do povo amedrontado. "Vem da experiência com o Sars-Cov 1, na epidemia que aconteceu na China em 2002, e com a epidemia do Mers, em 2012, no Oriente Médico", ele me diz.

Mas ponto número 1: ninguém sabe como seria com o novo coronavírus. Ponto número 2: a imunidade induzida por uma vacina, quando ela chegar lá adiante, poderá durar até mais. E, finalmente, ponto número 3: repetir a dose de um imunizante de tempos em tempos, se for necessário, não será nenhum drama. 

Drama, na minha opinião, é eu ver gente aglomerada pelas ruas e, pior, sem máscara. Porque para isso a ciência já tem resposta certeira: distanciamento social, higienização constante das mãos e máscaras são as medidas que comprovadamente nos protegem do perrengue. E até das raríssimas reinfecções.

O que podemos aprender com as reinfecções

Se surgirem mais casos de gente reinfectada — e eles devem surgir —, a ciência poderá tirar suas lições. "Será importante saber se essas pessoas  tiveram um segundo quadro de covid-19 mais brando, igual ou até pior", exemplifica o professor Rizzo. "Ou entender se ele durou mais ou se durou menos, se o paciente sentiu mais ou menos falta de ar."

A lógica diz que o segundo episódio tende a ser mais fraco do que o primeiro. Afinal, mesmo sendo um reinfectado, esse indivíduo já tem, de partida, um sistema imunológico vencedor, que deu conta do recado. Não importa se apresentou mais ou menos sintomas na infecção inicial, nem mesmo se ficou internado em estado grave no passado. O que vale é que se curou e superou a doença. Então, é dono de um organismo vitorioso no aspecto imunológico.

"Observar as reinfecções não mudará em nada o tratamento", avisa logo o professor Rizzo. Sim, entendo, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.  "Mas será ótimo para melhorar ainda mais o desenho das vacinas", completa. "E principalmente, o que acho até mais interessante, será útil para nos preparar para quando a casa cair de novo."

Sim, ela deverá cair outra vez — e o professor Rizzo já está de olho no futuro. Novas infecções virais acontecem o tempo inteiro. "Podemos não estar atentos a elas, porque estão acometendo leões e outros bichos na natureza. Com a covid-19, foi a nossa vez. E logo será a nossa vez de novo", diz o imunologista.

Quando o Sars-CoV-1 na China e o Mers, no Oriente Médio, há quase vinte e dez anos respectivamente, mataram menos gente do que se previa e se resolveram antes de ganharem o mundo, muitos estudos foram engavetados. "Por falta de ânimo ou até mesmo de dinheiro", lamenta Rizzo. Concordo, talvez a situação fosse diferente se esses trabalhos tivessem seguido.

"Já estamos escapando aos poucos dessa pandemia, por mais que ela ainda tenha um tempo a durar", observa o professor. "E eu espero que a gente aprenda alguma coisa com ela no sentido também de a ciência não ser deixada de lado, como nos últimos anos. Afinal, diferentemente dos leões do meu exemplo, entre todos os animais o homem é o único que pode ser preparar para uma próxima ameaça." E ela chegará um dia. Sem desespero, porque a premissa é boa: chegará porque seguiremos vivos.

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.