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Morte súbita de atletas: o que quem teve covid-19 precisa saber ao treinar

Lúcia Helena

10/09/2020 04h00

iStock

O mundo esportivo está com o coração na mão. Nos Estados Unidos, os festejados campeonatos universitários estão suspensos até segunda ordem, embora a pressão da torcida do contra seja enorme, exigindo uma revisão dessa decisão por parte da National Collegiate Athletic Association (NCAA). A justificativa da NCAA para todos tirarem o seu time de campo você já sabe qual é: a pandemia. 

Só não fique achando que o medo é de um atleta contaminado transmitir a covid-19 para outra pessoa de sua delegação. Claro, isso também deve passar na cabeça. Mas o grande receio é o risco de morte súbita entre jovens que contraíram o novo coronavírus, mas que parecem prontos para vestir o uniforme. Surge um caso aqui e outro ali apontando que, quando aparentemente perdeu o lance porque o atleta driblou a infecção e já está treinando outra vez, o novo coronavírus marca um ponto decisivo, vira o jogo e mostra que é mesmo um adversário de respeito. 

Em agosto passado, o pivô de basquete Michael Ojo — que ficou conhecido entre os americanos ao jogar quatro temporadas no Florida State —, praticava arremessos na quadra do seu novo time, o Estrela Vermelha, da Sérvia, quando morreu do nada. Ele tinha testado positivo para covid-19 um mês antes. 

Não é um caso isolado, dizem especialistas, que temem um aumento de mortes súbitas entre esportistas com menos de 35 anos ao longo da pandemia. Alguns apostam que isso já está acontecendo. De acordo com um levantamento do Atlantic Health System, pelo menos dez das principais universidades americanas têm mais de 12 atletas que testaram positivo para covid-19 e que agora apresentam sinais de miocardite. E a miocardite é o "x" da questão nessa suspeita que relaciona a covid-19 à morte repentina de esportistas durante o esforço físico. 

Essa inflamação do músculo cardíaco — é disso que se trata uma miocardite —  já fez estrelas em ascensão no esporte anunciarem que não voltarão a treinar tão cedo, como o jogador de beisebol Eduardo Rodriguez, do Boston Red SoxNele, a miocardite também foi flagrada após ser infectado pelo novo coronavírus.

Já no outro lado do Atlântico, a Sociedade Europeia de Cardiologia publicou um artigo em que levanta a bola: "Apesar de atletas não serem grupo de risco para quadros severos de covid-19, surgem alguns questionamentos, como até que ponto a infecção pelo Sars-CoV-2, com ou sem sintomas, deixa a pessoa apta a voltar treinar ou, pior, a competir". E dá a cortada: "O risco de problemas no coração não pode ser descartado nem sequer nos jovens atletas que pegaram o novo coronavírus e foram assintomáticos."

Mas será que a covid-19 está mesmo por trás de mortes súbitas de atletas jovens? "Ainda estamos digerindo esses dados, eu diria", responde o cardiologista Otavio Rizzi Coelho-Filho, que é professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde coordena justamente o laboratório de miocardiopatias, ou seja, de doenças que afetam o músculo cardíaco.

"Não existem dados certeiros de que esses episódios fatais estejam aumentando, mas os casos que vieram a público de atletas que tiveram a covid-19 e que infelizmente morreram de repente levantam essa hipótese. Precisaríamos de necrópsias para saber o que de fato aconteceu", diz ele, que é também o atual primeiro secretário da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo). 

Vírus que inflamam o coração

Vale lembrar que de 1% a 5% dos quadros de infecções virais agudas acabam inflamando o músculo cardíaco — "e, não raro, o pericárdio junto, que seria a membrana envolvendo todo o coração", conta o médico. O parvovírus B-19 que provoca erupções na pele, alguns enterovírus bem conhecidos, o vírus da herpes e até mesmo o velho influenza são tipinhos por trás das miocardites. Por que então com o novo coronavírus seria diferente, não é mesmo?  

"Um vírus pode provocar a miocardite direta ou indiretamente", explica Rizzi Coelho-Filho. "Pode ter uma vocação especial para invadir as fibras do músculo cardíaco ou simplesmente disparar uma resposta do sistema imunológico tão forte que a inflamação termina por afetar o corpo dos pés à cabeça — e o coração no meio disso tudo."

Covid-19 e miocardites

Segundo o cardiologista, as evidências de que o Sars-CoV-2 invada diretamente o coração ainda são fracas. Mas ninguém duvida da fúria da inflamação que sua presença pode desencadear. Não em todo mundo, bem entendido. "Nem todos os que têm a covid-19 desenvolvem uma miocardite", tranquiliza o professor. De fato, essa é uma condição que afeta apenas de 7% a 23% dos pacientes hospitalizados por causa da infecção pelo novo coronavírus, aponta a literatura médica. Quer dizer…. 

No finalzinho de julho, pesquisadores da Hospital Universitário de Frankfurt, na Alemanha, publicaram no JAMA Cardiology um estudo que jogou lenha na fogueira. Eles usaram uma ressonância magnética de última geração para avaliar o coração de 100 indivíduos que tinham se recuperado da covid-19. E esse exame, capaz de entregar detalhes de um músculo inflamado, como áreas mais inchadas, acusou a miocardite em nada menos do que 60 participantes. Ou seja, em 60% dos casos. "Mas, apesar de os autores serem cientistas extremamente sérios, o trabalho vêm sendo criticado por falhas e talvez esse número não seja tão alto", pondera Rizzi Coelho-Filho.  

Mesmo assim, a porcentagem deve ser maior do que muita gente imaginava. O que, por si, também não significa o fim do mundo para gente comum. "Um ponto que precisa ser compreendido é que, na maioria das vezes, seja qual for o vírus causador, a miocardite se resolve sozinha com o tempo, como se fosse — vamos brincar — uma espécie de gripe do coração", explica o professor. 

Esta é uma boa figura de linguagem para você  entender a encrenca: se a antiga receita para legítimos gripados seria permanecer na cama até o pleno reestabelecimento da saúde, corações inflamados também mereceriam um descanso para ficarem bons. E se há uma coisa que um atleta não dá ao seu peito é um pingo de sossego. Daí que, estima-se, 9% das mortes súbitas de esportistas jovens acontecem porque resolveram dar canseira a um músculo cardíaco todo inflamado.

Por trás das mortes súbitas em jovens

Atividade física, em condições normais, faz um bem danado. Quem segue à risca o conselho da Organização Mundial da Saúde e se exercita 200 minutos por semana, o que não é nenhum sacrifício, reduz em 15% o risco de ter problemas no coração. Acontece que um atleta de alta perfomance faz muito mais esforço do que isso, o que gera um estado de inflamação em seu organismo que, muitas vezes, piora as coisas em vez de ajudar. 

O exercício extenuante pode, por exemplo, desestabilizar placas nas artérias. Onde quero chegar: "Quando um atleta profissional com mais de 35 anos morre repentinamente do coração, a causa costuma ser um problema nas coronárias que ele já tinha", avisa Rizzi Coelho-Filho. Em esportistas com menos de 35 anos, porém, a história é outra.

Segundo o professor da Unicamp, existem três grandes causas de ataques fatais do coração em jovens durante a prática esportiva. Anomalias que mudam o trajeto das coronárias são uma delas. "Então, pode acontecer de, durante o esforço, uma coronária ficar espremida", descreve. O sangue não passa, o coração deixa de ser irrigado direito e… Já viu o fim da novela.

Outra causa é a miocardiopatia hipertrófica, que leva o músculo cardíaco a crescer além da conta. Trata-se de uma doença genética que é relativamente frequente: ocorre em 1 para cada 500 indivíduos nascidos. Hoje existem testes até de saliva para mapear os mais de 400 genes que podem ter alterações capazes de causar essa condição. Pois não pense que é fácil reconhecê-la só de bater os olhos no coração. "Afinal, ele sofre várias adaptações ao exercício intenso que podem confundir", diz Rizzi Coelho-Filho. 

Ora o músculo cardíaco não é diferente de um bíceps que hipertrofia ao malhar. Sua espessura, no caso, aumenta. Mas deve aumentar para fora, deixando um espaço confortável no interior para o sangue fazer o seu trajeto. Na miocardiopatia hipertrófica, porém, o miocárdio também cresce para dentro. 

"Em geral, a espessura do músculo no ventrículo, uma das câmaras do coração, tem em torno de 11 milímetros", exemplifica o médico. "No atleta, por causa da adaptação ao esforço, pode ficar com uns 13 milímetros. Se passa de 15, acende a lâmpada amarela e a gente investiga se não é a miocardiopatia hipertrófica."

Caso o diagnóstico se confirme, a Medicina lança mão de drogas para remodelar esse músculo ou, digamos, enxugar suas medidas. No entanto, a bola da vez diante do drama da pandemia é mesmo a miocardite, cuja parcela de culpa pode estar aumentando.

Os sintomas e o diagnóstico da inflamação

"Falta fôlego e o peito dói, como se fosse a angina de quem está infartando",  conta Rizzi Coelho-Filho. O cardiologista já fica cabreiro quando ouve que aquele paciente teve um quadro viral dias ou semanas antes. "Mas, primeiro, a gente precisa afastar a hipótese de ser uma trombose ou um infarto pra valer", conta.

Só que nem isso é tão simples. Quando alguém infarta, o músculo cardíaco expressa o seu penar liberando no sangue proteínas chamadas troponinas. "Mas elas  ficam igualmente elevadas  se existe uma miocardite", diz o médico.

O eletrocardiograma de um sujeito com essa inflamação, por sua vez, também pode registrar sinais parecidos com os de um infarto. A diferença sutil é que, se alguém está infartando, as alterações no eletro aparecem em uma parede do coração, onde o sangue não está chegando. Enquanto, na miocardite, essas alterações tendem a ser difusas, por todos os cantos.

Muitas vezes, os cardiologistas só sossegam quando comprovam, com a ajuda do cateterismo, que não há nenhuma artéria obstruída. Então, o exame que fecha o diagnóstico é o ecocardiograma. Com a vantagem de não ser invasivo, ele revela indícios da inflamação na imagem. 

"A biópsia, nessas horas, pode dar o azar de pegar um pedacinho do músculo que não está inflamado", diz o cardiologista. Mas, sim, o médico pode até solicitá-la em uma minoria de casos — os que complicam. É quando a inflamação não vai embora e pode culminar em uma insuficiência cardíaca. O coração se vê incapacitado de bombear o sangue para todo o corpo, o que representa um risco de morte equivalente ao de um tumor de pulmão avançado.

Daí, sim, seja em um atleta ou em um mortal sedentário, valerá a pena descobrir até mesmo o agente causador para saber como tratar — se devem ser usados antivirais ou remédios para suprimir a reação violenta do sistema imunológico.

Um último exame, mais usado em pesquisa, é a ressonância magnética capaz de mapear mínimos inchaços no músculo cardíaco e pequeníssimas fibroses.

O que um atleta que teve covid-19 deveria fazer?

O coração de um atleta é enganador.  A miocardite pode ficar mascarada. "O exercício intenso, afinal, também aumenta as troponinas no sangue", diz Rizzi Coelho-Filho, que até se lembrou do trabalho de um colega dos tempos em que ficou na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "Esse médico resolveu dosar as troponinas de todos os participantes da maratona de Boston e, na média, os níveis foram similares aos de uma pessoa com angina."
Para piorar, os sintomas da miocardite em atletas também são menos específicos. Em vez da dor, o que costumam sentir é uma queda no rendimento. No entanto, na opinião do professor Rizzi Coelho-Neto, não há motivo para sair fazendo ressonância magnética em todos os esportistas que testaram positivo para o novo coronavírus. "O que se deve fazer é dosar uma série de marcadores de inflamação no sangue, como a proteína C reativa e uma molécula conhecida pela sigla BNP", ensina. "E, conforme o resultado, complementar com exames de imagem".
Mas, se você é um esportista, fique sabendo: toda e qualquer infecção viral pede interrupção dos treinos para evitar uma miocardite. Até uma gripe. No caso da covid-19, a pessoa já teria de ficar isolada por 15, 20 dias para barrar a transmissão. "Só que o final desse período não significa necessariamente a liberação para treinar", avisa o cardiologista.
O atleta deve fazer exames para saber se os marcadores de inflamação estão elevados ou não. E só voltar para campos, quadras e pistas quando eles baixarem de vez, o que em alguns indivíduos demora algumas semanas. Caso contrário, como a inflamação consome uma energia enorme do coração, ele poderá apresentar arritmias e sucumbir na exaustão física. Diante do novo coronavírus e da possibilidade de ele causar miocardite, ser um atleta pode ser o contrário de um atestado de segurança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.