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Já que se fala tanto em vacinas, já viu se está em dia com a da meningite?

Lúcia Helena

15/09/2020 04h00

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Manter a carteira de vacinação em dia é o que podemos fazer para impedir que, ao trem-fantasma da pandemia de covid-19, se some uma explosão de doenças que, se a gente der bobeira, poderão voltar com tudo. Elas são imunopreveníveis e esse adjetivo já indica o caminho para evitar o pesadelo: preparar o nosso sistema de defesa para enfrentá-las. 

Deixar de tomar essa atitude, ou melhor, deixar de tomar vacina é comprar ingresso para um festival de horrores protagonizado por paralisia infantil, difteria, sarampo e muitos outros males. Mas talvez um dos mais temidos seja a meningite. Pudera: ela pode ser disseminada por gotículas expelidas pela respiração, por tosses e espirros soltos por alguém passando ao seu lado, por beijos e abraços em pessoas contaminadas, mas que não necessariamente  ficarão doentes. Já ouviu uma história parecida? Só que, neste caso, existe vacina. 

A meningite é assustadora porque aparece do nada. Aliás, em teoria, pode aparecer em qualquer um, mas na prática ocorre principalmente em crianças e jovens com menos de 25 anos que estavam absolutamente saudáveis e serelepes. Confunde todo mundo com sinais iniciais parecidos com os de uma gripe se aproximando. Só que a diferença é fatal: em alguns casos, ela mata sem mais, nem menos, em 48 horas no máximo. 

Mas há uma boa novidade e ela foi menos alardeada do que merecia, pelo tamanho da ameaça que ajuda a riscar do nosso mapa: desde junho, o SUS oferece aos adolescentes de 11 e 12 anos a vacina meningocócica conjugada ACWY. Cada uma destas letrinhas corresponde a um grupo de bactérias Neisseria meningitidis. "Elas não as únicas causadoras de meningite. Mas, hoje, são as mais preocupantes", justifica o infectologista pediátrico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Afinal, o que causa uma meningite?

O termo meningite aponta para uma inflamação nas três membranas que embrulham todo o cérebro e a medula espinhal para protegê-los. Elas são a dura-máter — a mais externa de todas —, a aracnoide e a pia-máter. O espaço entre uma e outra é preenchido por um líquido viscoso que ajuda no amortecimento, caso você se acidente, por exemplo, e leve uma bela pancada na testa. 

O problema é que, quando tudo está inflamado, não só as membranas incham como o volume desse líquido aumenta. E, como não dá para escapar do confinamento da caixa craniana, o sufoco interno cria a sensação de que os miolos vão estraçalhar os ossos da cabeça.

Diversos fatores podem inflamar o trio de meninges — às vezes até certos remédios e tumores que acometem o sistema nervoso. "A lista de agentes infecciosos, porém, é disparadamente maior, a começar por uma gama enorme de vírus, como o do herpes e os enterovírus, que são de longe os principais causadores das meningites virais", conta Sáfadi. Mas, salvo uma exceção ou outra, esses casos provocados por vírus dificilmente ameaçam a vida. O mesmo, porém, não se pode dizer quando existe uma bactéria por trás. 

Segundo Marco Aurélio Sáfadi, as bactérias  Haemophilus influenza tipo B, a pneumococo e a meningococo — que é o nome popular da Neisseria meningitidis — respondem pela quase totalidade das menigites que provocam hospitalizações. Elas matam entre 8% e 15% dos pacientes infectados. Detalhe: até 20% daqueles que escapam da morte rápida ficam com  sequelas irreversíveis, como surdez, cegueira, amputações e alterações neurológicas. 

"Felizmente, os casos provocados pela Haemophilus diminuíram no mundo inteiro. No Brasil, a vacina contra essa bactéria é oferecida há mais de 15 anos", comenta Sáfadi. Para a pneumococo também existe imunizante de longa data. Já os grupos A, W e Y da meningococo ainda representam de 10% a 20% dos casos de meningite em nosso país. E o tipo C é responsável por mais da metade dos episódios.

Existem outros agentes infecciosos culpados por meningites. Às vezes, indivíduos que operaram o cérebro desenvolvem a doença porque precisaram ficar com um catéter na cabeça e ele acabou contaminado por bactérias hospitalares. É horrível dizer, mas acontece.

Assim como bebezinhos podem ser infectados durante o parto por bactérias, como a estreptococo B, que estavam no trato genital da mãe e vão parar em suas meninges. É raro, mas acontece também. 

"Menos frequentes ainda são as meningites causadas por parasitas e até por mesmo fungos, que geralmente acometem pessoas bastante imunodeprimidas em função de outras doenças", acrescenta Sáfadi.

A questão é saber qual é a causa para agir depressa. Lembre-se: se a infecção é bacteriana, a corrida contra o relógio pode ser perdida em dois dias apenas. Se bem que o bacilo de Koch, o causador da tuberculose — doença que nunca foi embora — , também pode afetar as meninges e, no caso, a evolução é lenta. Mas ele é um ponto fora da curva.

O exame que acusa o responsável pelo quadro é feito por meio de uma punção na coluna para colher uma amostra do líquido existente ali e investigá-lo.  Mas, para que seja feito, a premissa óbvia é a seguinte: as pessoas  devem perceber os sinais de uma meningite e correrem para um hospital. Uma vez lá, se os médicos concordarem com essa suspeita, podem nem aguardar o exame dedurar o agente culpado. Já vão logo dando antibióticos potentes. Pelo sim, pelo não, esperam o pior: uma meningite bacteriana.

Manifestações das mais variadas

Toda meningite — não importa a causa — cria de início a mesma confusão. O termômetro pode subir de uma hora para outra. A dor de cabeça costuma ser das mais terríveis — "as meninges doem tanto que a pessoa não consegue dobrar a cabeça, daí a impressão de rigidez na nuca", descreve Sáfadi.

E existem os famosos vômitos. "São jatos incrivelmente fortes, diferentes de quando alguém passa mal do estômago", diz o médico. É que o sintoma não tem a ver com a barriga. Vomitar com força é a reação que surge sempre que a pressão intracraniana aumenta demais. E pense: tudo dentro do crânio está mesmo no maior aperto.

Para bagunçar de vez, nenhum desses sinais é obrigatório, muito menos tem uma ordem certinha para surgir. Tem gente com meningite bacteriana das bravas que só apresentou febre, sem botar os bofes para fora. E gente que se acabou de vomitar sem ficar quente. Portanto, confie quando o instinto lhe sopra que há algo de estranho, mais intenso e mais ligeiro, nesses velhos sintomas.  "Nas meningites mais agressivas, há uma confusão mental e aparecem manchas feito hematomas pelo corpo, que crescem e se espalham", completa o médico. Isso já é o prenúncio de uma sepse.

Como notar os sinais em bebês

Quando a vítima não diz o que sente, o desafio de flagrar a tempo uma meningite é enorme. O doutor Sádafi dá a dica: "Os pais devem estranhar quando percebem que o bebê está com muita irritabilidade, não suportando ser tocado, nem aguentando ficar na luz", ensina."Também é comum ele gemer o tempo inteiro, como se estivesse sem forças para chorar. Aliás, geralmente fica tão prostrado que não consegue sugar na hora de mamar." 

Se é muito pequeno, há uma pista visível. Basta você olhar a moleira, o espaço amolecido entre os ossos do crânio do recém-nascido, que os médicos chamam de fontanela. "Como tudo está inchado lá dentro, o que se vê é um abaulamento, lembrando um ovo", diz o pediatra.

Por que oferecer a nova vacina aos adolescentes

Segundo o pediatra, além de proteger contra quatro tipinhos de meningococos em uma picada só, a vacina conjugada provou ser capaz de impedir que essas bactérias colonizem o nariz e a garganta de quem recebeu a sua dose, barrando a transmissão da doença.

Uma das coisas que fazem essas meningites terem um alto poder de contágio é que muitas pessoas se tornam portadoras de meningococos. Saem por aí levando esses clandestinos para cima e para baixo. Transmitem a infecção em cada passeio, mas não ficam elas próprias doentes. E aí que está: adolescentes e adultos jovens são os maiores portadores assintomáticos dessas bactérias. 

Daí por que o SUS — que já incluía doses da vacina contra a meningite C para bebês de 3, 5 e 12 meses em seu excelente programa de imunização — incorporou a versão conjugada para meninos e meninas na entrada da adolescência. Trata-se de uma estratégia esperta para derrubar os casos.  Quem é mais velho ou mais novo também pode tomar a vacina conjugada, só que em clínicas particulares.

A novidade no calendário de vacinação do SUS é a boa notícia. "E a má é a nossa atual cobertura vacinal", lamenta o doutor Sáfadi. Para meningite, ela anda baixíssima — quase 40%. O que significa que seis em cada dez crianças e adolescentes estão sem proteção. E, por tabela, jovens adultos na faixa de maior risco, idosos e imunossuprimidos de qualquer idade que cruzem o caminho de um adolescente assintomático. "O melhor seria a gente imitar programas de sucesso em países como a Austrália, onde a vacinação é escolar", opina o médico.

Faz sentido. Além de existir um descaso de pais que já são de uma geração que não viu doenças como o sarampo matarem — ironicamente por ser uma geração vacinada —, há um problema social. Muitas vezes, eles trabalham duro e não conseguem levar os filhos para serem imunizados nos horários em que os postos de saúde estão abertos.

Claro, existem ainda as notícias fantasiosas sobre os perigos das imunizações. Mas agora que todos querem tanto uma vacina para a covid-19, espero alguma coerência: aproveitem para colocar em dia a carteira de vacinação da família inteira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.