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Blog da Lúcia Helena

Nervoso, sono e a própria covid-19: por que a dor crônica piora na pandemia

Lúcia Helena

17/09/2020 04h00

iStock

Enquanto o novo coronavírus apronta, há um outro mal que cresce em paralelo e, no entanto, ainda parecemos insensíveis a essa situação, embora ela seja das mais penosas e gravíssima quando nada consegue aliviá-la. É capaz de deixar o corpo esmigalhado, arrasar com humor, destroçar a produtividade e acabar com o descanso do cidadão ao pé da letra, isto é, roubar-lhe o sono.

A contrapartida também é dura: a falta de noites bem dormidas, para dar um exemplo, agrava de vez problema, assim como o nervosismo e a ansiedade. É um sofrimento piorando o outro. Antes da covid-19,  esse era o calvário de 28% da população mundial — sim, até então, quase um terço da humanidade padecia de dor crônica.  E agora, apostam especialistas, tudo leva a crer que essa proporção já seja bem maior. Legado doloroso da pandemia.

No final de julho, cientistas de dez respeitáveis instituições europeias, americanas e canadenses publicaram na revista da Associação de Anestesistas do Reino Unido um consenso sobre como lidar durante o distanciamento social com o possível agravamento de dores persistentes  — das de cabeça às lombalgias. 

No entanto, cutucão mais forte veio de uma revisão parruda recém-publicada na Pain, a revista da Associação Internacional para o Estudo da Dor. Os autores — de universidades da Alemanha, dos Estados Unidos e do Canadá — não falam apenas de dores pré-existentes que devem estar à beira do insuportável. Eles apontam para a forte possibilidade de o mundo ter ganhado novos sofredores, pessoas que se tornaram portadoras de uma dor crônica no período da quarentena. Entre elas, inclusive, aquelas que se recuperaram da covid-19 e que ganharam esse padecer como suvenir da infecção pelo novo coronavírus.

"O cenário da pandemia proporciona o aumento de casos", concorda o neurologista Rogério Adas, que é coordenador do Grupo de Dor do Hospital Santa Catarina, em São Paulo. 

O que seria uma dor crônica

A ideia que fazemos de uma dor é a de um alarme— algo de errado acontece e ela soa. "O canal de um dente inflama, isso produz substâncias que ativam determinados receptores e eles disparam uma mensagem que segue pelos nervos até o cérebro, onde a sensação dolorosa é decodificada e você a percebe", simplifica o doutor Adas. 

Algo semelhante acontece se você berra por causa de uma apendicite, pisa em um caco de vidro, encosta a mão na panela quente… Se não fosse a dor, o tal dente cairia podre sem você procurar o dentista, o apêndice poderia supurar sem ninguém levá-lo a um hospital, você não afastaria o pé do vidro nem a mão da panela quente. 

Mas a dor crônica é um martírio inútil, não que avisá-lo de nada. "O fator que a desencadeou, se existiu, nem está mais lá. Não conseguimos enxergar a sua causa exata", diz Adas. Mas ela insiste: arde, pinica, fisga, lateja.

Por definição, para ser crônica uma dor precisa durar mais de três meses. Definição esquisita porque é vaga, afinal pode doer todo dia ou não. "Por isso, é importante incluir nesse critério se ela tem um impacto psicossocial", complementa o neurologista. Ou seja, se ela lhe tira do sério ou acaba com a sua alegria. Aliás, é o que acontece pra valer com muitos portadores.

De acordo com pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, 16% dos pacientes com dores crônicas se irritam por qualquer bobagem no dia a dia. O sofrimento constante está associado a uma perda de 5,4 horas de produtividade no trabalho por semana e quase metade desses indivíduos, ou 49%, acorda incomodado no meio da madrugada.

A região lombar e a cervical estão entre os alvos mais comuns dessas dores famigeradas, ao lado de atordoantes enxaquecas e outras cefaleias. Problemas articulares — as amaldiçoadas artrites e as artroses  — também provocam muitos  desses "ais". A fibromialgia, que deixa o corpo todo dolorido,  entra nessa categoria. Mas um quarto das condições crônicas são dores neuropáticas, quando os nervos disparam sinais do nada, como se só quisessem provocar sofrimento. Uma em cada dez mulheres amargam uma neuropatia.

"Às vezes, as neuropatias têm como estopim uma doença, como o diabetes ou o herpes", conta o doutor Adas. "Mas a causa também pode ser um trauma. Existem pessoas que passam a conviver com uma parede abdominal eternamente doída após uma cirurgia simples, como uma cesárea. Isso é muito pouco comentado e é uma dor difícil de tratar", exemplifica o médico. Então, a vítima fica pulando de consultório em consultório sem obter alívio.

No cérebro, não importa o tipo de dor crônica, o que os exames acusam é uma espécie de desorganização em sua atividade elétrica. E, entre outros fenômenos, essa atividade diminui bastante em redes de neurônios que os cientistas chamam de monoaminérgicas. Ah, que diferença isso faz…

Dor, ansiedade, insônia, mais dor e, pra piorar tudo, a pandemia

As tais redes mono-aminérgicas estão envolvidas com neurotransmissores que nos trazem um alívio danado — eu me refiro à famosa serotonina ligada ao bem-estar, à dopamina e à noradrenalina. E essas redes vão na contramão dos sinais dolorosos que sobem à cabeça, filtrando-os pelo caminho.

A todo instante, o organismo envia mensagens de dor por coisas bestas. Mas, naquela comparação com um alarme, é como se as tais redes mono-aminérgicas baixassem o seu volume a ponto de o cérebro não ouvir queixas tolas. Daí, a gente não sente nada. Mas em quem não tem esse sistema funcionando direito qualquer dorzinha vira um martírio. E diversas regiões do corpo podem sofrer à toa. 


"O paciente, então, deixa de dormir direito. Não encontra posição na cama ou a dor é mais forte que o sono", continua Rogério Adas. "O problema é que a insônia vai atrapalhar ainda mais a produção daqueles neurotransmissores que diminuiriam a sua dor." Ou seja, de madrugada em claro em madrugada em claro, a sensação dolorosa vai se tornando mais forte e mais presente. Dormir seria um remédio. Mas o sofredor não tem condições de seguir essa prescrição.

De quebra, a falta de repouso leva ao nervosismo e ao estresse no dia seguinte. E esse estado de espírito favorece a ansiedade. A ansiedade, por sua vez, com os neurotransmissores por trás dela,  é mais um fator dificultando a chegada do sono. ''É um pacote, tudo vem junto", garante o doutor Adas. "É por isso que, muitas vezes, tratamos as dores crônicas com antidepressivos."

De fato, no cérebro a dor envolve as mesmas áreas e as mesmíssimas substâncias que modulam o humor e o sono. Por isso, não é coincidência ser tudo junto e misturado. "Eu diria que a dor é mais do que uma sensação física, ela é também uma emoção. Isso não é poesia, nem figura de linguagem. É pura neurobiologia", assegura o médico.

Os especialistas nesse assunto falam na tríade dor, ansiedade e sono ruim. E é por causa dela que receiam os efeitos da pandemia  — ora, o que não falta é gente com dificuldade para dormir e temendo se tornar mais uma vítima do novo coronavírus. O circo da dor está armado. E não tem graça alguma.

As dores de antes se tornando mais fortes agora

"No sistema nervoso central, o medo — seja o de ficar doente, o de morrer, o de perder o emprego por causa da crise atual —,  envolve áreas e neurotransmissores capazes de ampliar a experiência de uma dor", explica Adas.

No artigo publicado na Pain, os cientistas reconhecem que, apesar do pânico gerado pelo ataque terrorista, não houve um aumento de queixas de dores crônicas entre os nova-iorquinos após o 11 de setembro da queda das Torres Gêmeas. Mas eles insistem que agora é diferente — metaforicamente, caem Torres Gêmeas todos os dias — e há meses. Mais: quem já tinha algum problema doloroso muitas vezes não está dando continuidade ao tratamento, que deve ser multidisciplinar, envolvendo médicos, fisioterapeutas, psicólogos e profissionais de educação física.

Aliás, aqui está mais um fator que pode levar a agravamentos de dores pré-existentes: confinadas em casa, as pessoas vêm praticando menos atividade física. "E, na maioria das vezes, ela faz parte da estratégia de tratamento, induzindo a produção dos neurotransmissores que, ao mesmo tempo, agem feito analgésicos naturais, chamam o sono e baixam a ansiedade", justifica o neurologista.

Dores nascidas na pandemia

A enxurrada de substâncias relacionadas ao estresse na circulação e, novamente, a falta de sono adequado na pandemia vêm sendo apontadas como uma dupla capaz de deflagrar dores crônicas nesse período pelos estudos que surgiram nos últimos dois, três meses. Um deles, realizado na Universidade de Soroka, em Israel, com 206 enfermeiras, concluiu que nada menos do que 9,7% passaram a apresentar sintomas de fibromialgia após a temporada na linha de frente. 

E nunca podemos deixar de lado a depressão, que também cala os nossos analgésicos naturais. Estudos preliminares indicam um crescimento que varia de 14% a 28% na prevalência dessa tristeza sem fim. A falta de convivência social contribui para isso. No Brasil, um levantamento de Universidade do Estado do Rio de Janeiro mostra uma realidade mais cruel: aqui, a depressão teria praticamente dobrado. "Podemos, infelizmente, esperar muitas dores pela frente", observa Adas.

O próprio Sars-CoV 2 é um gatilho

Qual a novidade disso? Não é de hoje que viroses agudas são relacionadas a dores que chegam para ficar. Um trabalho pequenino realizado pela Universidade de Toronto, no Canadá, com 22 profissionais de saúde que contraíram Sars na epidemia de 2002, na China, mostrou que 21 deles, maioria absoluta, manifestaram dores musculares e de cabeça até dois anos após a  recuperação.

Os estudos sobre os impactos dolorosos do novo conoravírus engatinham. Mas investigações mundo afora sobre outras viroses que exigiram internação na UTI apontam que de 38% a 56% dos sobreviventes sentem alguma dor que reaparece de tempos em tempos até quatro anos após a hospitalização e que não existia antes.

"A explicação, em parte, tem a ver com os danos que essas viroses mais graves causam em vários tecidos do corpo. Eles seriam o estopim de dores que continuam após a própria infecção ter ido embora", diz Adas. "Além disso, muitos pacientes apresentam estresse pós-traumático depois de um bom período na UTI." Sim, e 15% desenvolvem depressão.

Qual o alívio então?

Automedicação é roubada. Segundo Aras, o maior erro é tentar lidar com uma dor crônica com o mesmo raciocínio — e receita do vizinho — usado para encarar uma dor aguda. Tirando aqueles analgésicos velhos de guerra vendidos sem prescrição — mas que podem aliviar pouco em uma situação dessas —,  uma medicação equivocada transforma uma dor que iria embora em dor crônica."Antiinflamatórios podem piorar o quadro", exemplifica o neurologista.

O que fazer? Rogério Adas é direto: "Buscar ajuda. Se não há um especialista em dor ao alcance, encontrar um clínico geral, um reumatologista, um geriatra…".  Quem se sente deprimido ou ansioso deve procurar profissionais que tratem essa condição.

A atividade física é mandatória para aqueles que não estão com o corpo travado de vez.. E, claro, procure não brigar com o travesseiro. Mas saiba: do mesmo modo como ansiedade, dor e sono ruim andam de mãos dadas, ao resolver um desses três fatores, você estará aliviando ou até mesmo solucionando os outros dois. O que não dá, porém, é para sofrer calado esperando a pandemia passar.

 

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.