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Sabão é muito melhor do que álcool em gel. Mas podemos usar os dois errado

Lúcia Helena

17/03/2020 04h00

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Quando todo esse recolhimento passar e pudermos sair à vontade para abraçar apertado, dar muitos beijos, lotar salas de cinema e estádios, espremendo-nos onde bem desejarmos sem que isso ameace a vida do próximo, dizem que o mundo já não será mais o mesmo. E, pelo menos em um aspecto, faço votos de que ele realmente não volte a ser o que era. Se a covid-19 — doença causada pelo coronavírus que está acuando o mundo inteiro em casa — tiver legados positivos, um deles seria criar o hábito de lavar as mãos.

Puxo pela memória uma pesquisa de 2015 realizada pelo Ibope Inteligência com a Worldwide Independent Network of Market Research (WIN) que, na ocasião, ouviu mais de 62 mil pessoas de 64 países. E a pergunta era simples: quem ali lavava as mãos com sabonete depois de usar o banheiro? Acreditando todos falaram a verdade, sem jogar a sujeira (e que sujeira!) por debaixo do tapete, um em cada quatro brasileiros dava a descarga e saía dissimuladamente como quem não enxergasse a pia. Ou passava aquela água sem-vergonha, só para fazer soar o barulho da torneira.

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Se a criatura não entende a importância da limpeza em uma hora dessas, não é para termos esperança de que ensaboe as mãos ao chegar da rua, entre outras situações em que a medida seria bem-vinda. Mas hoje, ao lado do bom senso — que infelizmente não jorra da torneira —, lavar as mãos é a nossa principal arma contra o coronavírus. 

Talvez se pergunte: é verdade que álcool em gel não serviria para nada, como circulou por aí? Mentira deslavada, porque ele inativa o coronavírus. Mas tem gente deixando um frasco em cada cômodo com aquela mania de, vira-e-volta, espalhá-lo nas mãos. Bobagem. Se está curtindo a quarentena como ela deve ser — em casa —, melhor correr para a pia

Como o coronavírus entra pelo cano

Álcool ou sabão? Para entender o que um e outro faz, primeiro conheça de perto o inimigo que queremos mandar embora pelo ralo. Ele não tem mais do que 30 milionésimos de milímetro, é uma fitinha mixuruca de material genético — no caso, um  RNA —, envolvida por uma capa proteica que, por sua vez, está dentro de um envelope de moléculas de gordura. E tem a cara da sua família: é cheio de espículas pontiagudas que lhe conferem a aparência de uma coroa. Daí a pompa do nome.

"O vírus, como não tem nada além do seu RNA, precisa invadir uma célula do nosso corpo para dominar o seu maquinário e se reproduzir. E usa essas espículas para penetrá-la", descreve o biomédico Roberto Martins Figueiredo, especializado em Saúde Pública pela Fundação Getúlio Vargas. Autor de diversos livros e de uma página do Instagram que ensina às pessoas a ciência dos cuidados de higiene, ele ganhou a alcunha de Dr. Bactéria quando, por quatro anos, tinha um quadro semanal no Fantástico da Rede Globo. Hoje está na Record. Mas o assunto aqui é vírus, informei o "Doutor Bactéria". No caso, qual seria o poder do sabão? "O mesmo do detergente de cozinha quando você lava uma frigideira", respondeu.

As moléculas do sabonete, de fato, têm a mesmíssima característica das do detergente de louça: uma parte se liga à velha molécula H2O da água. Já a outra extremidade tem predileção por gordura e se agarra a ela feito um gancho. "Portanto, com a molécula do sabonete presa de um lado na água e, de outro, no envelope de gordura do coronavírus, quando o líquido enxágua a espuma, ele acaba rasgando e arrastando essa capa com as tais espículas junto", explica. O rei fica nu e sem coroa, incapaz de furar qualquer célula para perpetuar o seu mal "O RNA pode até sobrar, mas é como tirar os braços de um ladrão. Ele não vai conseguir roubar sua carteira", compara o biomédico.

E é isso o que acontece com 91% ou 92% dos coronavírus que, por acaso, forem parar nas suas mãos depois de você apertar o botão de um elevador, segurar no corrimão da escada rolante ou no estribo do ônibus, por exemplo. "Não há estudos sobre quanto tempo o novo coronavírus sobreviveria em diversas superfícies. Mas outros membros de sua família ficam de algumas horas até nove dias", avisa Roberto Figueiredo. 

Os macetes ao lavar as mãos

Os proclamados 20 segundos de lavagem ajudam bastante. "Mas, para eliminar mais de 90% dos vírus, o ideal seria investir de 30 a 40 segundos", calcula o especialista. Isso para a gente não deixar nenhum pedacinho de pele fora do alcance da espuma.

Primeiro, é para esfregar bem uma palma na outra. Na sequência, momento de lavar um dorso e, depois, o outro. Hora de entrelaçar os dedos para friccionar a área entre eles. Com a ponta das unhas da mão esquerda, arranhar a palma ensaboada da direita e vice-versa. Lavar as laterais fechando as mãos como se estivesse prestes a dar um soco e então limpar os  pulsos, os antebraços. Deixar a água escorrer apontando os punhos para baixo. "Logo no início, vale passar rapidamente um pouco do sabão na própria torneira, bem onde sai a água", ensina Roberto Figueiredo.

Se você acha os tais 30, 40 segundos para fazer direito esses movimentos um exagero, ele propõe uma experiência: espalhe um bocado de óleo nas duas mãos e vá lavá-las. "Se limpar ligeiro, alguma área permanecerá engordurada", aposta. Frequentemente, diga-se, aquela entre os dedos — um lugar e tanto para o coronavírus e outras sujeiras se acumularem.

Procure enxugar as mãos usando duas folhas de papel-toalha. "Só esse gesto elimina mais uns 4 em cada 10 daqueles cerca de 8% de vírus que restaram", estima Roberto Figueiredo. A toalha de tecido de uso em uso vai ficando suja e provavelmente não faz o mesmo.

Tanto cuidado, porém, será em vão se você usar aquelas máquinas que soltam ar aquecido para secar suas mãos em banheiros públicos. "Estudos indicam que elas podem fazer a presença de agentes infecciosos aumentar 270% ou mais. O coronavírus pode estar entre eles", afirma. Ou seja, suas mãos saem mais sujas. É que o equipamento lança o ar que estava no recinto, em jatos que concentram a sujeira. "O pior de todos é aquele modelo em que você enfia as mãos. Este chega a ejetar vírus, bactérias e fungos a 5 metros de distância".

Também não adianta lavar as mãos e girar a maçaneta onde todo mundo encostou para sair. O certo é, com o mesmo papel com o qual enxugou as mãos, você envolvê-la e girá-la, segurando a porta com o pé. Pelo mesmo motivo, especialmente se não há papel para cobrir a maçaneta, não vale passar álcool em gel no banheiro para completar a limpeza. Faça isso só quando sair dali.

E esse tal do álcool em gel? 

Ele é capaz de inativar cerca de 85% dos coronavírus — portanto, é menos poderoso do que o sabonete. Como? "Ele desnatura proteínas", diz Roberto Figueiredo. Em outras palavras, quebra as suas moléculas. E as tais espículas que o coronavírus usa para espetar e injetar seu RNA em nossas células são compostas de proteína. Ou seja, elas somem. O corona perde a sua famosa coroa. Já era.

Para isso, precisa ser álcool em gel 70%. "O álcool 40% não vai funcionar", reforça o biomédico. "Muito menos formulações caseiras ensinadas na web, que levam até gelatina e viram um meio de cultura para bactérias."

Uma saída para quem não encontra o produto é buscar farmácias de manipulação, que poderão preparar a fórmula do álcool em gel com um pouco de glicerina pura. Aliás, as formulações sempre devem conter uma substância emoliente. Isso porque, embora a queratina que torna a nossa pele impermeável evite que o álcool em gel quebre as nossas próprias proteínas — e não só as dos vírus e bactérias —, o fato é que ele sozinho provoca ressecamento. E, se surgirem fissuras, elas serão brechas para germes.

O jeito certo de passar o álcool

Aquela gotinha espalhada de jeito displicente não vale. Use uma quantidade generosa o suficiente para o álcool em gel entrar em contato com todas as áreas — entre os dedos, sob as pontas das unhas… — e, de novo, sem esquecer pulsos, antebraço…

Detalhe: melhor a gente massagear o produto nas mãos por 15 a 20 segundos. Essa fricção vai arrastar partículas de sujeira do seu lugar. Ouviu aquela história de que o álcool em gel não adiantaria se a mão estivesse muito suja? "O coronavírus pode se esconder sob uma partícula de poeira e o álcool, se você não afastá-la com esses movimentos, só encostará nela, enquanto ele continuará protegido", descreve Roberto Figueiredo aquilo que seria visto em um microscópio.

Você sempre poderá usar esse álcool para completar a lavagem com sabão, tentando fazer com que a porcentagem de vírus inativados aumente ainda mais. Mas, para Roberto Figueiredo, a grande função do álcool é higienizar quando não há pia por perto. Se há pia, o sabonete, sim, é insubstituível. Mas… 

Por mais que tenha feito tudo direito, o serviço de limpeza se perde sempre que você pega em maçanetas de porta, chaves de carro, campainhas, botões do elevador. Não existe uma frequência determinada para lavar as mãos, pensando na prevenção do coronavírus. Você é que deve se perguntar onde andou metendo as suas . E se outras encostaram seus dedinhos ali onde você pegou, estranhas ou vindas da rua…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista SAÚDE, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Sobre o blog

Se há uma coisa que a Lúcia Helena adora fazer é traduzir os mais complicados conceitos da ciência da saúde, de um jeito muito leve sem deixar de ser profundo, às vezes divertido, para qualquer um entender e se situar. E é o que faz aqui, duas vezes por semana, sempre de olho no assunto que está todo mundo comentando, nos novos achados dos pesquisadores, nas inevitáveis polêmicas e, claro, nas tendências do movimentadíssimo universo saudável.